Raquel Cunha/Globo
Raquel Cunha/Globo

Como vivem os roteiristas de cinema e TV em tempos de pandemia

Roteiristas como Jorge Furtado e Di Moretti dizem estar acostumados a viver confinados

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

02 de abril de 2020 | 05h00

Como vivem, em tempos de pandemia, os roteiristas de cinema e televisão? Quantos já tiram inspiração desse verdadeiro horror planetário que estamos todos vivendo? A produtora Nora Goulart, mulher de Jorge Furtado, comenta a rotina do casal dentro do que chama de “nova normalidade” – eles residem em Porto Alegre. “Como todo mundo que pode, estamos trabalhando de casa, observando a quarentena recomendada pela OMS e pelas autoridades de saúde”. E Furtado – “Levanto às 6h30, às 8h estou lendo o jornal e depois já começo a trabalhar. Faz parte dessa nova rotina lavar a alface da salada de todo dia”. Criador da série Sob Pressão, ele constata: “A quinta temporada nem foi feita e já está no ar, ao vivo, 24 horas por dia”.

Nas últimas semanas, o brasileiro aprendeu a conviver com as informações de médicos, hospitais, autoridades. Agentes de saúde estressados, lutando para salvar vidas, eles próprios infectados, devido às condições precárias do sistemas, que não consegue oferecer as necessárias condições de segurança. “Tenho parentes, sobrinhos, que são médicos e dizem que nunca viveram nada parecido com isso”, conta. 

Com uma filha vivendo em Portugal, ele tem um motivo suplementar para seguir o noticiário europeu. “Sou otimista por natureza. Estou vivendo esse momento como todo mundo, com angústia. Tem horas que quero saber de tudo e outras em que preciso me alhear, não quero saber de nada.” Antecipa: “A Globo deve lançar agora em abril a minissérie Todas as Mulheres do Mundo, com Emílio Dantas, que estava prevista para o segundo semestre. Faz todo sentido. É comédia, é romântica, mas se interroga sobre os afetos e o que é importante na vida. Será um alívio no meio dessa tragédia toda, mas também pode fazer pensar.”

Justamente, pensar. Furtado interroga-se sobre qual será o resultado de tudo isso. O otimista está num momento de pessimismo. “Ainda nem chegamos ao pico da pandemia no Brasil. Estamos todos preocupados com a economia, com o depois, mas agora é o momento de salvar vidas.” 

Reflete: “Haverá, quem sabe, um movimento para que a gente esqueça tudo isso, como um pesadelo, mas não dá para esquecer. É preciso usar as armas da gente para refletir.” A arma dele é a criação. TV, cinema e teatro. “Estou louco para que tudo isso passe para começar a ensaiar uma peça que escrevi, e quero dirigir. Virgínia e Adelaide, sobre duas pioneiras da psicanálise no Brasil (Virgínia Leone Bicudo e Adelaide Koch). Taís (Araújo) e Drica (Moraes) ficaram empolgadas, mas agora vai depender da agenda das duas.” 

Furtado não espera parado. Escreve um roteiro de comédia. Aproveita para refletir. No caso específico de Sob Pressão – “Depois de tudo isso que estamos vivendo, o que a ficção poderá oferecer?” O repórter não pode deixar de pensar no futuro distópico dos filmes. A realidade que vira terror, Walking Dead.

Como outros grandes roteiristas – o caso dele é especial por ser também consagrado como diretor –, Furtado não é muito chegado à ficção distópica. “Quando procuro alguma série para ver e a sinopse fala num futuro não muito distante, já desanimo.” Nora e ele tentaram ver a série sobre Catarina, a Grande, da Rússia, com Helen Mirren, mas se desapontaram. “É muito fraca” – a série, não a atriz. Prefere a literatura. Agora mesmo, está lendo um clássico, e das pandemias. Robinson Crusoe, de Daniel Defoe, é um dos livros mais populares já escritos, embora a maioria talvez o conheça das versões adaptadas para crianças e adolescentes, e dos numerosos filmes que se fizeram a partir do livro. Até Luis Buñuel fez o seu Robinson Crusoe – em 1953, com Dan O’Herlihy. Anos depois, e já famoso por seu relato sobre o náufrago, Defoe escreveu Um Diário do Ano da Peste, que sempre foi tido em alta conta por autores da estatura de Gabriel García Márquez.

Mesmo com medo de ser contaminado, o narrador percorre as vielas de Londres, recolhendo histórias sobre a Grande Peste que, em 1665/66, vitimou entre 75 mil e 100 mil habitantes, ou seja, pelo menos um quinto da população da cidade. “O livro é impressionante. Enxuto, sem floreios.” 

Se servir de influência, e com tudo que se vê todo dia na TV, a próxima temporada de Sob Pressão, quando ou se sair, poderá ser um estouro.

O casulo permanente dos roteiristas

Na entrevista – por telefone, de Porto Alegre-, Jorge Furtado disse algo interessante, sobre o próprio isolamento social. “Como roteirista, vivo sempre confinado.” É o que também afirma Di Moretti, um dos mais conhecidos roteiristas do cinema brasileiro (Latitude Zero, Nossa Vida não Cabe num Opala, No Olho da Rua, etc). Ele também conversa pelo telefone, da casa que aluga em São Francisco Xavier. “Venho para cá sempre que tenho de entregar um roteiro. O isolamento ajuda na concentração. E tem o contato mais direto com a natureza. Sem excesso, aqui ainda dá para sair um pouco, respirar o ar desse mato, tomar um sol.” No Rio, George Moura, autor de TV e cinema (Amores Roubados, Onde Nascem os Fortes), também está confinado no apartamento, num condomínio do Jardim Botânico. A pandemia pode ser fonte de inspiração?

Moura: “Estou escrevendo um roteiro de cinema adaptado da Crônica da Casa Assassinada, de Lúcio Cardoso, para o Zé (José Luiz) Villamarim. Embora o cinema esteja parado, sigo trabalhando porque o deadline do primeiro roteiro é agora em abril. Também supervisiono a equipe de roteiristas que vai escrever a série do (José) Padilha sobre Marielle Franco. E aguardo a decisão da Globo sobre o lançamento de Onde Está Meu Coração? (do núcleo de Villamarim, com direção de Luísa Lima), que já foi mostrada em Berlim, em fevereiro. A previsão é para o segundo semestre. Minha ficção não é distópica, mas, como todo mundo, estou ligado na pandemia e na revolução que ela está provocando nesse País. Tem muita gente se aproveitando, mas há uma onda de solidariedade. No outro dia, ouvi aplausos e corri à janela. Estava todo mundo na sua casa aplaudindo os lixeiros. Genial esse olhar de reconhecimento para uma atividade que as pessoas nem percebem. Se fosse num filme talvez fosse apelativo, mas foi emocionante.”

E Moretti: “Me tranquei aqui para escrever um roteiro de filme do Celso Sabadin sobre os últimos dias do Mazzaropi. Uma amiga em Milão tem captado as imagens. Milão, uma cidade enorme, está deserta. Ela diz que dá para ouvir o canto dos pássaros.” É um efeito secundário dessa pandemia. 

Como Moura e Jorge Furtado, Moretti não é um autor distópico, mas esclarece. “Como toda minha geração, fui muito marcado por A Laranja Mecânica, o livro de Anthony Burgess como o filme de Stanley Kubrick. Também li e vi os filmes de Philip K. Dick. Esses autores são visionários. De alguma forma, eles conseguiram antecipar o mundo em que vivemos.” 

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