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Como vilões norte-americanos se tornaram os queridinhos de Hollywood

Cada vez mais destacados no cinema, os antagonistas, antes russos ou alemães, hoje são frequentemente representados por agências ou grupos estadunidenses

Sabrina Gabriela, Especial para o Estadão

13 de setembro de 2021 | 15h27

Toda boa história tem um vilão e, com o passar dos anos, Hollywood se mostrou genial em criar ótimos personagens desse tipo. Deixando de lado os monstros e fantasmas, boa parte dos antagonistas hollywoodianos é formada por humanos, meros homens e mulheres cujo objetivo é causar o mal. No entanto, se, há algumas décadas, uma porção significativa dos vilões das telonas era de russos, alemães ou árabes, agora, os Estados Unidos colocam a si mesmos como grandes vilões do cinema.

Basta pensar em sagas como Rambo ou em filmes como Rocky IV (1985) e 007 contra GoldenEye (1995) para constatar que, de forma geral, a presença de personagens russos em longas-metragens costuma ser no papel do antagonista. Já os alemães são vilões importantes em Duro de Matar (1988), Indiana Jones e os Caçadores da Arca Perdida (1981), 007 contra o Satânico Dr. No (1962) e na série Austin Powers. Por fim, os árabes estrelam nesses papéis em Busca Implacável (2008), Nova York Sitiada (1998) e séries como Homeland.

A escolha da nacionalidade do vilão dificilmente é aleatória. Vale lembrar que, durante a segunda metade do século 20, os Estados Unidos estavam investidos na Guerra Fria contra a então União Soviética.  Assim, os norte-americanos enxergavam os soviéticos (em grande parte, as pessoas que hoje chamamos de russos) como tipos maus, violentos, não merecedores de confiança. O mesmo vale para alemães, que enfrentaram a fúria estadunidense durante a Segunda Guerra Mundial, e para os árabes, sobretudo após os atentados do 11 de setembro.

É claro que os estereótipos vilanescos atribuídos a cada uma dessas nacionalidades não surgiram apenas com essas guerras, mas os confrontos mencionados impulsionaram o preconceito contra esses povos, o que foi refletido nas telonas.

Mais recentemente, porém, cada vez mais as agências, instituições e os próprios cidadãos norte-americanos têm pipocado como antagonistas em Hollywood. É o caso de filmes como Avatar (2009), Transformers: A Era da Extinção (2014) e O Esquadrão Suicida (2021) -  isso, é claro, sem falar em longa-metragens produzidos fora dos Estados Unidos, como o brasileiro Bacurau (2019). O que motivou essa mudança, colocando os estadunidenses no holofote vilanesco em seu próprio país?

 

“Isso se deve a uma mudança de mentalidade com relação à própria humanidade”, explica Efrem Pedrosa, professor de rádio e TV do Centro Universitário FMU. “O exercício irreal do norte-americano como herói máximo em oposição aos demais se tornou completamente obsoleto, e a exposição de suas falhas e fraquezas indica um reposicionamento do cinema.”

Para o especialista, em cuja lista de vilões favoritos destacam-se Darth Vader e Miranda Priestly, o perfil de um antagonista diz algo sobre a sociedade e seus governantes. Em decorrência desse fato, temos visto cada vez mais filmes em que o vilão é protagonista, apresentando ao público sua história de vida e suas motivações a ponto de fazer o espectador se questionar sobre se está assistindo a uma pessoa completamente má ou a uma vítima das circunstâncias.

Nos tempos atuais, os antagonistas estão em alta. Filmes como Cruella (2021), Aves de Rapina: Arlequina e Sua Emancipação Fantabulosa (2020) e Malévola (2014) apresentam vilãs conhecidas sob uma nova perspectiva, capaz de atrair o público à sua torcida. Um dos possíveis efeitos da maior exploração psicológica dos vilões em filmes hollywoodianos é que, em alguns casos, a teoria ou missão do antagonista pode parecer aceitável aos olhos do espectador. Vários internautas se colocaram ao lado de Thanos, oponente dos Vingadores, quando ele abordou a superpopulação da Terra e do universo (embora pouquíssimas pessoas apoiassem seu método radical de exterminar metade da vida que existe). Diversas mulheres se manifestaram a favor de Arlequina, de Esquadrão Suicida, ao perceber que ela estava em uma espécie de relacionamento abusivo com o Coringa (ainda que entendam que a solução adequada para isso não seja o homicídio). Dessa forma, alguns antagonistas se tornaram queridinhos do público, sendo frequentemente vistos como superiores aos heróis formulaicos e politicamente corretos.

“Esse protagonismo é muito bem-vindo para que possamos debater os vilões e apreciá-los na telona”, diz Pedrosa. “A minha torcida é para que o cinema seja cada vez mais democrático, que possa trazer personagens que fortaleçam a representatividade e o debate político-social - o que já está acontecendo.”

Mais do que influência do passado norte-americano em termos de política externa, as questões e debates sociais do presente também afetam a forma como um vilão é concebido em Hollywood. A ascensão da extrema-direita dentro dos Estados Unidos levou, por exemplo, à construção de um Batman xenófobo, extremista e com nítidos sinais de loucura em Batman vs Superman: A Origem da Justiça (2016) - muito diferente do Homem-Morcego honrado que estamos acostumados a ver. É essa a opinião de Renan Claudino Villalon, docente do curso de Cinema da Universidade Anhembi Morumbi.

“Nesse caso, o Batman remete ao medo e desejo de vingança presente em muitos estadunidenses desde o terrível atentado ao World Trade Center”, declara. “Do mesmo modo, quando vemos um personagem intitulado Peacemaker (ou Fazedor da Paz) em O Esquadrão Suicida tentando evitar que os segredos do envolvimento norte-americano em uma crise sejam publicados, sendo considerado nitidamente um dos principais vilões da narrativa, percebemos que a sociedade não mais acredita na idoneidade das ações político-militares da própria nação.” Para Villalon, alguns dos principais antagonistas das telonas são Jack Torrance (de O Iluminado) e o Coringa (de O Cavaleiro das Trevas). O professor pontua ainda que, além de refletir a opinião do povo sobre algo, a construção do vilão também depende da opinião individual dos cineastas responsáveis pelo filme.

Dessa forma, compreende-se que a escolha de um vilão é muito mais do que uma escolha arbitrária. Mais que sinalizar o sentimento de uma sociedade, a construção do antagonista reflete o Zeitgeist (espírito da época) do período em questão, servindo talvez como um documento artístico para que, no futuro, historiadores possam entender o ponto de vista de um povo a partir dos vilões de seus filmes preferidos.

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