Michelle Groskopf/The New York Times
Michelle Groskopf/The New York Times

Como Paul Raci evoluiu para a nomeação do Oscar

Aos 72 anos de idade, ator de 'O Som do Silêncio' recebe sua primeira indicação ao prêmio

Kyle Buchanan, The New York Times

02 de abril de 2021 | 20h00

“Ser ator por todos esses anos - quarenta anos só rodando por aí - e ter esse tipo de aclamação, é uma loucura, cara”, disse Paul Raci recentemente no quintal de sua casa, em Burbank.

Durante a maior parte da carreira, Raci teve de se contentar com papéis de uma ou duas falas em programas de TV como Parks and Recreation e Baskets. Mas aí o diretor de O Som do Silêncio, Darius Marder, arrancou Raci da obscuridade e lhe deu o papel de sua vida: Joe, o estoico e sensível líder de uma comunidade de recuperação para surdos que acolhe um problemático baterista de punk-metal, Ruben (Riz Ahmed).

É um papel com ressonância na vida real de Raci, que cresceu em Chicago como Coda - sigla em inglês para “filho de adultos surdos” - e, a exemplo de Joe, lidou com questões de vício depois de servir no Vietnã. “Sempre digo que fui para o Vietnã feito John Wayne e voltei feito Lenny Bruce”, disse Raci.

Passar a vida como intérprete auditivo de seus pais incutiu em Raci o amor pela atuação, mas, décadas atrás, quando ele se mudou para Los Angeles com o objetivo de seguir a carreira de ator, os papéis eram escassos. “Já faço isso há muito tempo e sempre soube do que era capaz, mas não dava nada certo para mim”, disse ele.

Mesmo assim, Raci continuou tentando: durante o dia, trabalhava como intérprete de linguagem de sinais no Tribunal Superior do Condado de Los Angeles e, à noite, aprimorava sua arte em produções teatrais no Deaf West Theatre. “Sempre pensava comigo mesmo: ‘Acho que sou específico demais, por isso que não aparece nada para mim”, disse Raci, que é pequeno e magro e tem tatuagens e cabelos compridos de roqueiro. “Falava comigo mesmo: ‘Tenho que esperar por esse papel específico’”. E, então, finalmente aconteceu.

Aqui vão alguns trechos editados de nossa conversa.

Como foi a manhã das indicações ao Oscar para você?

Bom, não tenho despertador - tenho um relógio de cabeceira e, por algum motivo, ele estava desligado naquela manhã. Eu deveria acordar às cinco da manhã, e às cinco e vinte e cinco minha esposa e eu nos levantamos e dissemos: “Oh, perdemos!”. Corremos para a sala de estar, ligamos a TV e, assim que a imagem apareceu, estavam no segundo cara da categoria de ator coadjuvante. Aí o apresentador [Priyanka Chopra Jonas] disse: “E Paul Rah-ci”. E eu falei: “Não, é Ray-ci... mas está valendo!”.

Agora já era cinco e meia da manhã e meu telefone começa a tocar. As pessoas vão chegando com vinho, com comida - não o tipo em que você está pensando, mas frutas cobertas com chocolate e cupcakes. Minha amiga Hillary traz uma garrafa de champanhe. Eu disse: “São seis da manhã, Hillary!” Minha esposa está chorando. Minha filha está chorando. Ficou assim o dia todo, foi muito emocionante.

E como foi depois que a poeira baixou?

Seis dias depois, olhei para minha esposa e disse: “Tudo isso aconteceu de verdade mesmo?” Mas, mesmo que eu tenha esperado muito por este momento, valeu a pena, cara. Um grande amigo me enviou um e-mail dois dias atrás, dizendo: “Paul, não é apenas uma indicação de ator coadjuvante, é um prêmio pelo conjunto da obra”. Eu não tinha pensado dessa forma, ainda tenho muito trabalho a fazer. Acho que essa coisa toda me acrescentou uns vinte anos de vida.

Você passou décadas trabalhando em papéis menores em filmes e televisão. Como você fez esses tipos de papéis valerem a pena?

Para ser honesto, era mais um dano do que qualquer coisa, porque só mostra o fracasso abismal que você é na sua própria cabeça. Quer dizer, não conseguia fazer bons testes nem mesmo ser chamado porque “eles precisam de alguém com nome”. Graças a Deus, eu tinha o Deaf West Theatre. Se não fosse por eles, onde mais eu treinaria minhas habilidades de atuação? Eu não tinha nada. Mas você vai de trabalho em trabalho e fica esperando que alguma coisa aconteça.

Então como foi que finalmente aconteceu? Quando você fez o teste para interpretar Joe em ‘O som do silêncio’, você teve a sensação de que desta vez poderia ser diferente?

Gravei uma fita, botei no correio e depois esqueci - porque, olha só, as coisas nunca aconteciam comigo. Quando saio de um teste com os sides (as páginas do roteiro) na mão, rasgo e jogo no lixo. Não fico insistindo em coisas que vão machucar meu coração. Mas minha esposa, que é minha agente, ligou para a diretoria de elenco e disse: “Vocês viram a fita do Paul?”.

Aí eles disseram: “Estamos inundados de fitas. Temos tantas que nem conseguimos encontrar a fita do Paul, e provavelmente vamos escolher alguém que tenha nome”. Robert Duvall, Forest Whitaker, era isso que eles estavam procurando. Minha fita de teste era bastante forte, e minha esposa disse: “Por favor, procurem a fita dele”. Dez minutos depois, o telefone toca. E o escritório de elenco diz: “Darius quer falar com o Paul”. Uma semana depois, ele veio ao meu encontro e conversamos um monte.

Deve ser muito bom ter uma esposa que luta por você desse jeito.

Veja só, ela trabalha aqui de agente nas horas vagas há mais de vinte anos, tentando competir com a CAA e a ICM. Ela tem uma agência pequena e disse: “Não vou fechá-la até que você seja uma estrela, Paul”. Estava sempre lutando para me colocar num set, mas nunca acontecia. Minha mentalidade estava tão presa à rejeição que até mesmo no final da minha conversa com Darius, eu disse: “Espere um segundo aí, você está realmente me oferecendo o papel?” Ele disse: “Sim, estou”. Mas, de início, eu disse que não faria o filme.

Por que não?

Olha, eu tenho uma casa para pagar aqui. E não era um filme tão grande quanto achei que fosse, era um orçamento muito pequeno e eu poderia ganhar mais dinheiro ficando aqui em Los Angeles e trabalhando no sistema judiciário do que no trabalho que eles estavam me oferecendo. Vou viajar até lá [nos arredores de Boston] por uma coisa que vai me deixar no buraco? Não posso me dar a esse luxo. Nem tenho seguro saúde para minha família. Então falei para minha esposa: “Diga ao Darius que não estou interessado”.

Sério? Que coragem...

Bom, parecia um filme muito bom, mas eu sou um cara da classe trabalhadora, que nem o meu pai, e tenho que pagar minhas contas. Aí o Darius me liga: “Você não pode fazer isso! Você não entende o que isso significa”. Então eles meio que aumentaram meu per diem. Ele foi muito flexível comigo, e eu sabia que seu coração estava no lugar certo. Ele foi tão respeitoso com meu ponto de vista, com minha experiência de CODA, que senti que podia confiar nele.

Embora seja filho de surdos, você é uma pessoa que ouve. Será que Joe deveria ter sido interpretado por alguém surdo ou com deficiência auditiva?

Algumas pessoas na comunidade surda poderiam lançar esse argumento, sim. Mas eu contestaria, porque sou Coda e você não pode me tirar dessa cultura em que me criei. Eu jamais tomaria o papel de surdo de um ator surdo que é culturalmente surdo, mas Joe é um cara que ficou surdo depois.

Sou sensível a isso e pensei muito antes de seguir adiante. Perguntei ao Darius, logo no começo, “eu não me sinto confortável com o fato de esse cara ser surdo. Você não pode transformar esse cara em Coda?”. E ele disse: “Isso é interessante. Vou pensar e depois a gente conversa”. Ele tinha três conselheiros surdos no set, e todos os três disseram a Darius: “Não, é mais convincente que ele seja surdo”, para ter aquele paralelo entre Ruben e Joe, que é muito forte.

A coisa bonita disso tudo é que agora estou colado na Amazon [distribuidora de O Som do Silêncio], e eles estão me procurando e pedindo conteúdo. Tenho outras coisas que escrevi, tenho outros escritores surdos que conheço e, por causa dessa conexão, acho que algumas portas serão derrubadas, porque agora as pessoas estão interessadas no que tenho a dizer. / Tradução de Renato Prelorentzou 

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