Artemis Productions
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‘Como Me Tornei um Super-Herói’ une ação com discussões existencialistas

Longa policial com toques fantásticos mostra dupla de policiais que sai à caça de criminoso que espalha na cidade um supernarcótico, capaz de permitir que as pessoas passem a lançar fogo e raios

Rodrigo Fonseca, Especial para o Estadão

13 de maio de 2021 | 20h00

Enquanto a Marvel prepara os lançamentos de Viúva Negra, Os Eternos e Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis e a DC depura o esperado The Batman, com Robert Pattinson, a França resolveu participar com maior protagonismo na indústria audiovisual dos vigilantes superpoderosos, apostando em uma Liga da Justiça à moda europeia, capaz de desafiar padrões. Por isso, um mascarado vivido por Benoît Poelvoorde em Comment Je Suis Devenu Super-Héros (Como Me Tornei um Super-Herói, em tradução livre) vai ganhar o mundo via Netflix a partir de 9 de julho.



Nenhum dos justiceiros do longa-metragem dirigido pelo ator Douglas Attal parece sintonizado com as cartilhas clássicas dos quadrinhos, à exceção da necessidade de caçar aquilo que é explicitamente danoso à sociedade. É o caso de uma droga capaz de transformar as pessoas em dublês de Tocha Humana, cuspindo chamas. Só não espere um formato de aventura hollywoodiano da adaptação do romance homônimo de Gérald Bronner e, sim, um thriller policial. Um thriller com uma cota de fantasia.

“Pense em um filme policial com efeitos especiais, feito por alguém mais sintonizado com a obra de Bertrand Tavernier do que com filmes de super-heróis americanos. É isso... Na França, a gente não dá muita bola para figuras de ordem e, sim, para pessoas comuns, com vivências do dia a dia. Por acaso, essa gente comum, aqui, tem poderes”, explicou Attal ao Estadão, durante a 23ª edição do Rendez-Vous Avec Le Cinéma Français (encontro com o cinema francês), organizado em Paris e realizado online. “Gosto muito do Homem Aranha 2, de Sam Raimi, por ele ter dado uma dimensão humana à frase: ‘Com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades’. Ali, em Raimi, as responsabilidades de Peter Parker contavam mais que o sentido de ser Homem-Aranha. Foi o que busquei fazer.”

Idealizado para ser a maratona cinematográfica da Unifrance, o órgão francês que promove curtas e longas-metragens em circuitos nacionais e internacionais, o Rendez-Vous apostou na feérica narrativa de Attal como sendo um potencial chamariz de plateias, antes de sua exibição ser negociada com a Netflix. A partir da trama de Bronner, o longa de Attal traz uma dupla de policiais - Cécile, vivida por Vimala Pons, e Gary, encarnado por Pio Marmaï - envolvida na investigação de uma substância química ilegal, que garante a seus usuários a habilidade de lançar fogo e raios.

“Combinei uma série de elementos de gênero, como o thriller e a comédia, abrindo uma reflexão moral sobre a efemeridade, a partir da experiência de jovens que desejam ter uma sensação de poder, ainda que passageira. Não se trata aqui da glamourização do Super-Homem, mas, sim, da incerteza do Clark Kent, a que mora em seu peito”, disse Attal. “Historicamente, tornou-se arriscado pensar no super-herói como um modelo de virtude a ser seguido, em especial quando a gente entende, ao crescer, que o conceito de Bem e Mal é relativo. Interessa mais à dramaturgia, como modelo a ser estudado e discutido, a figura dos investigadores, que fazem um trabalho de formiguinha à cata de evidências.”

Construído a partir de uma agilíssima montagem, o longa esbanja adrenalina na luta de Cécile e Gary para entender a gênese e a distribuição de um supernarcótico vendido por Naja, papel do talentoso Swann Arlaud


 


“A vilania sempre foi vista nos filmes de super-heróis como algo absoluto. Mas, se você revisitar o desenho do Batman dos anos 1990, na TV, lá estão figuras como o Sr. Frio. Ele não comete delitos por ser mau, mas por buscar a cura para a enfermidade que lhe custou a humanidade. É esse grau de existencialismo que o cinema francês busca explorar entre os mascarados, sobretudo pelo fato de virmos de uma cultura que revelou filmes mais engajados em temas sociais e políticos. A ideia de deslocar o heroísmo para a burocracia da polícia é uma forma de questionar o glamour de um filão popular e desconstruir a própria noção de autoridade da Lei”, disse.

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