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'Como É Cruel Viver Assim' mostra sequestro com pegada dos irmãos Coen

Fabiula Nascimento e Marcello Valle formam o casal do longa

Luiz Carlos Merten, Impresso

14 Dezembro 2016 | 03h00

RIO - Júlia Rezende termina de filmar nesta quarta-feira, no Rio, o novo longa. Como É Cruel Viver Assim está sendo rodado em Marechal Hermes, no subúrbio do Rio. Boa parte da locação escolhida para a cena de uma quinta-feira do começo do mês se passa nessa área próxima aos quartéis. É tudo muito plano, e muito quente. A casa suburbana foi transformada para abrigar a produção. “Oferecemos hospedagem para a família em outro lugar, mas eles preferiram ficar aqui, num único quarto.” O menino da casa vem dar uma espiada na cozinha, de onde a diretora e o repórter assistem à rodagem da cena no videoassist. Júlia levanta-se a toda hora para dar orientações aos atores, no quarto.

Fabiula Nascimento e Marcello Valle formam o casal. Na verdade, são duas cenas que Júlia e o diretor de fotografia Dante Belluti filmam de forma diferente. A primeira se passa depois e a câmera na mão coloca o espectador na cama com a dupla. Plano contínuo, com cortes para cobertura do ângulo dele, do dela. Os atores trocam a roupa – Fabiula troca a camisola. Permanece o tom intimista, a cena agora é anterior e a diretora resolve fazer só o plano contínuo.

O diálogo é muito bom. Em ambos os casos, o marido está na defensiva e a mulher é persuasiva. A trama, livremente adaptada da peças de Fernando Ceylão, é sobre esse casal que possui uma lavanderia em Nilópolis. Não ocorre nada na vida deles. Tédio total. E aí uma amiga do casal propõe... Um sequestro! Quer se vingar do ex-chefe. Fabiula e Valle não têm vocação para o crime, mas não aguentam mais o não fazer nada. Ponderam prós e contras. “Amor, eu posso fazer. E ‘eles’ vão me respeitar.” Eles – os outros. Como É Cruel Viver Assim é sobre o olhar do outro.

Embora jovem – nasceu em 1986 –, Júlia, filha do cineasta Sérgio Rezende com a produtora Mariza Leão, já tem currículo. Dois megassucessos, Meu Passado Me Condena e Meu Passado Me Condena 2. Um filme autoral que deve ter feito 1% do público de cada um dos outros longas, mas ela não está nem aí – tem um carinho todo especial por Ponte Aérea. É o tipo do filme que gosta de fazer, e quer fazer mais. É o preferido do repórter, também. Neste ano, estreou O Namorado de Minha Mulher, remake de uma produção argentina. Um filme de perfil mais delicado que Meu Passado, Ingrid Guimarães numa produção ‘diferente’. O distribuidor – Paris Filmes – estimava 600 mil espectadores, caso o filme fosse bem. Júlia deu 50 mil a mais – 650 mil espectadores. “O público foi ver por causa do Domingos Montagner”, arrisca o repórter. “Sabe que eu acho que não? Muita gente me disse que não foi porque ficaria muito emocionada devido à morte dele”, diz Júlia.

Filmes de duplas, todos. Fábio Porchat e Miá Mello, Caio Blat e Letícia Colin, Ingrid Guimarães e Caco Ciocler. Eventualmente, somam-se outros vértices – Montagner, formando triângulo em Meu Namorado, Sílvio Guindane (marido da diretora) e Débora Lamm, um quarteto em Como É Cruel. Júlia esclarece que, apesar da cena filmada, o filme não é bem de casal. Na origem, está a peça que Marcelo Valle fez no teatro. Ao filmar com Júlia – Meu Passado –, Valle mostrou-lhe o texto do dramaturgo. “Acho que isso aqui dá alguma coisa.” Júlia não só se interessou. Apaixonou-se. O filme começou a tomar forma.

“Os personagens são todos fracassados. Convocam profissionais para levar o crime adiante. Tomam aulas, mas você vê que eles não têm má índole”, diz Fabiula. O filme tem humor, mas não é uma comédia rasgada, não no sentido de Meu Passado. Alguma coisa mais para o tragicômico de Mario Monicelli em Os Eternos Desconhecidos? “Na verdade, vi esse roteiro mais como uma coisa dos Coens. O filme propõe um desconforto, esse vai não vai, a iminência de que tudo vai dar errado”, avalia Júlia. Pode até parecer presunção – os Coen, O Grande Lebowski. Mas Júlia é talentosa, seu elenco idem. Júlia já monta o filme com a irmã, Maria Rezende. Promete que vai ser seu filme mais diferente – na forma, e não apenas. As cenas da semana passada imitavam noturnas. Noite americana. A desta quarta se passa à noite. A estreia, só em meados do ano que vem.

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