Erik Carter/The New York Times
Erik Carter/The New York Times

Como Daniel Kaluuya dá vida a seus personagens

Premiado com o Globo de Ouro como melhor coadjuvante por 'Judas e o Messias Negro', ator combina uma preparação profunda a uma ânsia por espontaneidade

Reggie Ugwu, The New York Times

08 de março de 2021 | 10h00

Uma leitura de mesa que valia US$ 1 milhão

Daniel Kaluuya avaliou cuidadosamente a sala. Era o tipo de sala de reuniões de Hollywood em que ele esteve inúmeras vezes antes, bem iluminada, com paredes brancas e pôsteres emoldurados de filmes clássicos. Era 2019 e Kaluuya dirigiu até o estúdio de filmagem da Warner Bros. em Burbank, Califórnia, para a leitura de mesa de um filme que ainda não tinha sido liberado para produção: Judas e o Messias Negro, um thriller policial e épico histórico sobre a queda de Fred Hampton, a estrela em ascensão do Partido dos Panteras Negras que foi assassinado pela polícia em 1969.

Sentados ao lado de Kaluuya em uma longa mesa de conferência estavam seus candidatos a coestrelas, Dominique Fishback, Lakeith Stanfield e Jesse Plemons. Aglomerados em frente a eles estavam os figurões da Warner Bros., que tinham o poder de dar luz verde ao filme: Niija Kuykendall, vice-presidente executiva de produção de longa-metragem; Courtenay Valenti, presidente de produção; e Toby Emmerich, chefe do estúdio.

Ele percebeu que estava apenas no início de sua preparação para o papel em seu primeiro filme baseado em uma figura histórica. A notícia de tudo o que ele fizesse naquela sala, ele sabia, se espalharia por todo o edifício. O que ele não sabia é que as apostas eram ainda mais altas; os produtores do filme haviam providenciado a leitura como parte de um esforço para aumentar o orçamento em US$ 1 milhão. Uma boa recepção poderia convencer o estúdio a preencher o cheque.

Durante a segunda metade da leitura de uma hora, em uma cena em que Hampton faz um discurso inflamado para uma multidão de apoiadores entusiasmados, Kaluuya colocou todas as suas fichas na mesa. “Se vou morrer, vou morrer lutando”, pensou ele, levantando-se da cadeira e olhando para o grupo. Com o coração batendo forte no peito, ele esbravejou as falas que mais tarde ficariam famosas no trailer do filme:

"EU SOU...UM REVOLUCIONÁRIO! EU SOU...UM REVOLUCIONÁRIO! EU SOU...UM REVOLUCIONÁRIO! ”

“Assim que o ouvi falando como Fred, comecei a chorar”, disse Stanfield, que estava interpretando Bill O'Neal, o informante do FBI que trai Hampton.

“Todo mundo estava lendo um roteiro, mas ele o transformou em uma peça”, disse Shaka King, o diretor, corroteirista e produtor do filme, que estava sentado em frente a Kaluuya. “Havia apenas cerca de 20 de nós na sala, mas ele interpretou como se estivesse se apresentando em um teatro para 300 e tivesse que ser ouvido até a última fileira.”

Pouco depois da leitura, a Warner Bros. concordou com o financiamento extra de US$ 1 milhão, disse King. O filme começou a ser produzido naquele semestre.

Em quatro anos, Kaluuya, que tem 32 anos e cresceu em um bairro residencial de Londres, conquistou um lugar em Hollywood entre os protagonistas mais importantes de sua geração. Um ator que começou no influente drama adolescente britânico Skins, ele ganhou uma indicação ao Oscar de melhor ator por seu primeiro protagonista nos Estados Unidos: como o intrépido sobrevivente de um culto racial secreto no sucesso de 2017 Corra!.

Após aquele momento de fama, Kaluuya entregou uma sucessão de atuações sob medida e cativantes em uma gama eclética de gêneros. Ele interpretou um guerreiro em conflito no blockbuster internacional da Marvel Pantera Negra, um vilão de gelar o sangue no thriller de Steve McQueen As Viúvas e um carismático pretendente amoroso no drama de fuga romântica Queen & Slim. Seja qual for o papel, a entrega profunda de Kaluuya puxa você para alguns centímetros mais perto da tela.

Com Judas e o Messias Negro, ele estabeleceu um novo marco importante na carreira. A performance "assume o fardo de encarnar e exorcizar o monstro criado pela imaginação de Hoover e um mártir do movimento Black Power", escreveu o crítico do The New York Times A.O. Scott, acrescentando que Kaluuya "mais do que cumpre o desafio".

Por seus esforços, Kaluuya foi recompensado com um Globo de Ouro de melhor ator coadjuvante e é dado como favorito na disputa pelo Oscar deste ano. Para conseguir esse resultado, ele mergulhou mais fundo do que nunca no personagem, navegando por falhas históricas, físicas e emocionais precárias no processo.

"As pessoas podem dizer o que quiserem sobre a performance, e eu ainda me sentirei livre”, disse Kaluya, de Los Angeles, em uma das duas conversas que tivemos por vídeo e telefone. “Dei tudo que tinha. Eu dei. Eu dei. Eu dei.”

Em busca de Fred Hampton

Kaluuya tem uma aura confiante, olhar penetrante e se autodescreve como "rosto africano gentil". Para interpretar Chris em Corra!, ele teve que controlar sua agitação natural, que se manifesta na conversa como uma espécie de intensidade benevolente. “Minha essência tem mais a ver com Fred, em termos de energia”, disse ele, referindo-se a Hampton. Como ele sempre interpretou um americano no cinema, seu sotaque londrino da classe trabalhadora é inicialmente chocante. É confuso imaginar o britânico, filho de um imigrante de Uganda, sob a encarnação em camadas de Hampton que aparece em Judas.

Kaluuya se aproximou do personagem sob vários ângulos ao mesmo tempo. Ele mergulhou nas influências formativas dos Panteras, incluindo obras de Frantz Fanon e Jomo Kenyatta; deixou crescer o cabelo (“Como pessoa negra, cabelo é como você se vê, como se sente e como se trata”); ganhou uma quantidade perceptível de peso e até começou temporariamente a fumar. (“Quando vejo um filme, sempre posso dizer quando a pessoa fumando é alguém que fuma ou não na vida real”, disse Kaluuya.)

Mas o elemento mais complicado era a voz. Hampton, que foi criado em Chicago por pais que se mudaram da Louisiana durante a Grande Migração, era conhecido por sua entonação sonora e idiossincrática. Para ter ideia do tom, Kaluuya começou seguir os passos do ídolo Black Power.

Ele consultou a família de Hampton - incluindo seu filho, Fred Hampton Jr., e a mãe de Junior, Akua Njeri (ex-Deborah Johnson) - e fez uma viagem de campo a Maywood, o subúrbio de Chicago onde Hampton cresceu. Kaluuya visitou as primeiras casas, escolas e locais de discurso de Hampton, conversando com as pessoas que conheceu por lá, incluindo alunos e ex-Panteras, sobre a vida e o legado de Hampton.

“Um sotaque é apenas uma expressão estética do que está acontecendo no interior”, disse Kaluuya. “Eu tinha que entender de onde ele vinha espiritualmente, que mistura de crenças e padrões de pensamento permitiu que essa voz acontecesse.”

Kaluuya aprimorou ainda mais a performance com a ajuda da treinadora de prosódia Audrey LeCrone, bem como uma professora de canto lírico que o ensinou como condicionar suas cordas vocais e usar seu diafragma para as cenas de discursos longos. Quando as filmagens começaram, ele se sentiu capaz de dizer suas falas de uma maneira que se assemelhava mais com a honestidade do que com a imitação.

O aniversário

O peso da história pairava sobre cada tomada das filmagens de Judas. Mas Kaluuya se lembra de um dia em particular como o mais difícil de sua vida profissional.

O elenco e a equipe estavam recriando a noite em que os policiais de Chicago atiraram em um Hampton sedado e assassinado enquanto dormia (O'Neal tinha colocado um sedativo em sua bebida durante o jantar) no 50º aniversário dos eventos na vida real.

“Foi uma noite difícil para todos nós”, disse Stanfield. “A energia era tão pesada que você podia senti-la.”

Kaluuya, que havia trabalhado muito para criar e manter as fronteiras entre ele e seu personagem, sentiu que elas começavam a ruir. De repente, ele estava vendo a cena não como um homem negro em 1969, mas como alguém em 2019, com meio século de dados adicionais sobre as chances de sobrevivência em um mundo branco.

Seu primeiro instinto foi reprimir as emoções que cresciam dentro dele. “Se você se envolve demais com seus próprios sentimentos, isso pode começar a confundi-lo”, disse Kaluuya. Mas ele decidiu que eles pertenciam à tela. Era a única coisa que ele tinha para dar.

“É aí que o tempo dedicado ao trabalho aparece. É aí que a arte se mostra”, ele disse. “Você não nega esse sentimento; você o utiliza, porque é a verdade.” /Tradução de Romina Cácia

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