Amanda Perombelli/Estadão
Amanda Perombelli/Estadão

"Como atriz, não tenho sexo", diz Carolina Ferraz, que vive trans em novo filme

Atriz comenta, em entrevista ao Estado, as resistências que teve de vencer para concluir ‘A Glória e a Graça’, dirigido pelo amigo Tambellini

Entrevista com

Carolina Ferraz

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

01 Abril 2017 | 05h00

Carolina Ferraz reage como uma tigresa ao que entende como provocação do repórter. A frase referia-se às personagens de ricaças, mulheres lindas e glamourosas que ela costuma fazer nas novelas... “Peraí, não pensa que é fácil.” E não deve ser mesmo. Durante todo o tempo da entrevista, por telefone, do Rio, Carolina está em dupla (tripla?) jornada. Divide-se entre o repórter e a filha. Elas acabam de chegar do médico, a menina está enjoadinha, com uma virose. Carolina está sem babá, mas não é só o profissionalismo que a impele a falar sobre o papel em A Glória e a Graça, que estreou na quinta, 30. O filme dirigido por Flávio R. Tambellini é um projeto que demorou nove anos para se viabilizar.

É o tipo de personagem diferente do que Carolina costuma fazer na TV e no cinema, e não, como ressalta, que os outros sejam fáceis. É uma transgênero, a Glória. Há nove anos, o filme escrito por um brasileiro quase foi feito por uma equipe norte-americana. O projeto não saiu, mas, a essa altura, Carolina já estava tão fascinada pela personagem que comprou os direitos e resolveu ela própria produzir. Não é sua primeira experiência de produção em audiovisual. Há anos, produziu uma série na GNT, Mulher Invisível. Produz para teatro e a próxima peça deve sair em maio. Glória e Graça são irmãs. Estão distantes há anos e, agora, Graça, que está morrendo, procura a irmã para que ela crie seus filhos. Glória é bem sucedida, mas despreparada para o que Graça lhe pede.

“Fiquei tocada pela história porque não é só o desafio de fazer uma trans, sendo eu uma cisgênero. O filme fala de segunda chance, de novas estruturas familiares. É um tema muito contemporâneo”, diz. Lá atrás, quando começou a se interessar pelo assunto, Carolina saiu a campo e fez entrevistas com 62 travestis. Receberam-na muito bem. Agora é que tem havido certo burburinho. Surgiu até um manifesto, não como reação ao filme, dizendo que trans devem ser interpretadas por trans. Foi a posição defendida pelo diretor chileno Sebastian Lelio, em Berlim, em fevereiro, ao apresentar seu filme, Una Mujer Fantástica. O filme sobre uma travesti é interpretado por uma trans. Havia a expectativa de que Aline Kuppenheim recebesse o prêmio de melhor atriz, porque é realmente fantástica, mas o júri a ignorou.

Preconceito? Pode ser. Carolina sabe o que isso representa. “Em busca de patrocínio, bati em muitas portas ouvindo ‘não’. Ninguém queria ligar sua empresa a um filme sobre uma travesti. Diziam que era loucura minha, que podia pegar mal para minha carreira.” Carolina entende perfeitamente a luta das trans para se autorrepresentar. Diz que, se não houvesse o preconceito – que ela experimentou de um outro jeito –, seria o caminho natural. Mas existe, ela deu duro para produzir o filme e, no limite, acha que merece o papel. “Como atriz, não tenho sexo. Artista nenhum tem sexo na hora de representar um papel. É uma questão de entrega. É uma trans como poderia ser um homem, um pássaro, um objeto. A gente vive fazendo isso no palco.”

Para ela, se desafio havia, era fazer de Glória um ser humano integral, uma pessoa, não uma caricatura. “O que me fascinou foi o arco emocional da Glória. Travestis podem ser tão mulheres quanto eu.” Como preparação, usou uma prótese que expõe sua gengiva. “Dizem que fiz isso para dar uma feição masculina ao rosto, mas não foi bem isso. Queria me distanciar de mim, modificar o sorriso, que é uma coisa que o público identifica muito. Não queria o sorriso da Carolina. Queria a Glória.” De novo, ela volta aos papéis da TV. “Pensa comigo. Se eu não tivesse batalhado, algum produtor se lembraria de mim para o papel? Eu ia receber uma chamada – ‘Carolina tenho aqui um papel perfeito de travesti para você?’ Claro que não. Como artista, tenho necessidade de me reinventar, de ousar. Qual artista não tem?”

O filme está entregue. “O bom desse projeto é que, apesar de tudo, conseguimos!” O plural engloba o diretor Tambellini, com quem fez O Passageiro, em 2006. “O Flávio é um querido. Embarcou nessa história comigo, com a Sandra (Corvelloni, a Graça), que também está desde o começo. Precisava de um diretor que fosse inteligente, delicado.” E a TV, Carolina? “Terminei uma novela em novembro (Haja Coração). Nessa maratona de lançamento, nem quero pensar. Logo virá a peça. Mas a Globo me chama para alguma coisa, é só esperar.”

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