Hunter Kerhart/The New York Times
Hunter Kerhart/The New York Times

Como a Netflix supera Hollywood com uma geração de conteúdo para a comunidade preta

Alguns serviços de streaming liberaram para todos indistintamente a programação referente ao tema dos direitos civis, e, ao mesmo tempo, os estúdios correm para assinar novos projetos de diretores pretos

Ben Smith, The New York Times

07 de julho de 2020 | 11h00

O documentarista preto Stanley Nelson afirma que o seu telefone está enlouquecendo desde que os Estados Unidos voltaram a analisar o racismo e a experiência negra. Justin Simien, o criador de Cara Gente Branca, diz que as reações aos seus argumentos cinematográficos ficaram mais calorosas. E a diretora Ava DuVernay conta ter recebido uma quantidade de telefonemas, “não só eu, mas todo preto que já pegou uma câmera na mão”.

Hollywood está tratando, da sua maneira tradicional - tardia, liberal, meio atabalhoada -  de recuperar o tempo cultural perdido. Alguns serviços de streaming liberaram para todos indistintamente a programação referente ao tema dos direitos civis, e, ao mesmo tempo, os estúdios correm para assinar novos projetos de diretores pretos. E para imensa frustração da maioria de executivos predominantemente brancos da cidade, também estão - mais uma vez! - se precipitando para a Netflix, que já constitui uma ameaça para a sua tecnologia e seu modelo de negócios, e agora está ganhando a corrida para o centro da conversa também.

No dia 10 de junho, a Netflix flexibilizou a sua programação voltada à comunidade preta exibindo uma coleção de Black Lives Matter de 56 programas, filmes e documentários, como também minisséries de DuVernay sobre as falsas convicções do Central Park Five, When They See Us [Olhos que condenam] e o seu documentários sobre racismo sistêmico e as prisões em massa, 13th.



“A Netflix não precisa repetir algumas coisas, mas tem uma biblioteca que é um imenso corte transversal dos gostos e de conteúdos que toca a subestimação sentida por este público”, afirmou DuVernay, que atualmente produz uma nova série para a Netflix sobre Colin Kaepernick, o antigo quarterback da Liga de Futebol Americano. Ela definiu o serviço como “a principal e mais forte distribuidora de imagens pretas do mundo”.

O diretor de conteúdo da Netflix, Ted Sarandos, e outros executivos não quiseram falar comigo para esta coluna, temendo talvez serem vistos como se buscassem crédito. Mas eles me apresentaram a diretores pretos e ao seu trabalho.

A história da trajetória da companhia até chegar aonde chegou não é particularmente uma história de moralidade elogiável. Ela não começou com uma decisão de algum fundador idealista, um memorando do Vale do Silício ou uma cultura de promoção dos executivos pretos. Ao contrário, é uma história reconhecível de interrupções e recomeços, tensões internas, concorrência corporativa, e relações pessoais e mídias sociais, incluindo um homem conhecido como o “Padrinho Negro” de Hollywood - tudo isto facilitado pelo enorme orçamento da companhia em termos de conteúdo. 

Mas este é um momento em que Hollywood, talvez mais até do que outras áreas da mídia, está fazendo as contas com uma liderança homogênea - retratada rigorosamente em um “um tour fotográfico através das páginas de Leadership/Management dos principais estúdios e os de suas controladores corporativas”, publicadas pelo boletim iconoclasta The Ankler. As histórias da Netflix proporcionam um vislumbre da indústria como ela é e não está mudando.

E a Netflix não é a única em sua sintonia com o momento. A série Watchman, da HBO, de 2019, um complexo tratamento do racismo nos EUA, vem sendo muito discutida nos últimos meses, embora a companhia tenha começado o seu novo serviço HBO Max com maior ênfase no apelo para a massa do que na relevância cultural. E na Viacom, que lutou para competir com companhias de streaming maiores, segundo soube, a BET+ tem sido um considerável destaque com séries que incluem Ruthless do diretor Tyler Perry.

Quando a Netflix começou usar material original em 2013, a companhia não estava particularmente preocupada em conteúdo voltado para pretas e pretos. Tampouco precisava se preocupar com os anunciantes ou com horário nobre semanal, e o seu critério era “alguma coisa para todos". O primeiro sinal de que o serviço tinha uma oportunidade com o público preto surgiu principalmente com a segunda série original do serviço. Orange Is the New Black, (House of Cards foi a primeira) que contava entre os personagens mais importantes as atrizes Laverne Cox e Uzo Aduba

O programa provocou uma onda de discussões na Netflix sobre a possibilidade de um elenco diferenciado poderia fazer grande sucesso nos Estados Unidos e no mundo todo, conectando-se particularmente com as redes sociais, onde as vozes pretas no Twitter muitas vezes determinam a conversação cultural.

Olhando para o público preto, a jovem Netflix estava seguindo um velho padrão em matéria de negócios na televisão. Nos anos 90, Fox e UPN criaram as suas redes com programas como In Living Color e Malcolm & Eddie.

Um ano depois de Orange Is the New Black ter se tornado um grande sucesso, a Netflix começou a conversar com Simien a respeito de transformar o seu filme Cara Gente Branca um programa que seria o pioneiro em um gênero agora familiar, que Simien descreveu como “um conjunto de ativistas pretos articulados, da geração do milênio em um mundo de brancos". Agora, ele disse, “vemos isto em qualquer lugar”.

Ele atribui a posição do programa na Netflix a uma executiva preta que trabalha lá, Tara Duncan. “É a clássica ponderação: vocês já têm gente preta trabalhando na sua companhia”, ele disse. O diretor Spike Lee falou mais ou menos a mesma coisa ao Hollywood Reporter em 2017: “Nos outros lugares, não havia pretos na sala”.

Na realidade, a Netflix não tem necessariamente um número maior de executivos pretos comprando conteúdo do que os outros estúdios. Mas ela tinha muita gente que comprava conteúdo, e uma abordagem incomum na distribuição de poder para tomar decisões. Em 2015, havia cinco executivos pretos encarregados de comprar conteúdo, e alguns deles criaram um relacionamento com diretores e produtores pretos. Um antigo funcionário disse que os executivos pretos, às vezes, eram chamados para as reuniões com diretores ou atores pretos para serem exibidos.

No entanto, o serviço continuou procurando um canal: O documentário de 2015 What Happened, Miss Simone? foi indicado para um Oscar, e um programa com um super-herói preto, Luke Cage, foi exibido por duas temporadas e criou uma sequência cult. O filme de Dee Rees, de 2017, Mudbound, foi indicado para quatro Oscars. Alguns dos seus maiores negócios foram com comédias com atores pretos, como Kevin Hart e Chris Rock, além de Dave Chappelle, que se tornou um elemento fundamental da plataforma. A companhia começou a enfatizar a ideia de que todo mundo deveria poder se ver na tela.

Em 2018, com gerentes gerais de shows e diretores que ocupam uma fatia em expansão na conversação cultural e na Netflix às voltas com guerras de streaming, a companhia percebeu que estava diante de uma oportunidade. Começou então a dedicar um canal de marketing chamado Strong Black Lead para a conexão com a comunidade preta.

Mas - antecipando os vários conflitos que ocorrem atualmente - estas iniciativas também alimentaram uma sensação de que o seu marketing enquanto ambiente natural de conteúdo preto não estava em sintonia com a sua cultura interna. A crise eclodiu em junho de 2018 quando dois executivos pretos anunciaram que estavam se demitindo. Dias mais tarde, reclamações que circulavam discretamente levaram à saída de um executivo que havia ofendido colegas usando o termo ofensivo aos pretos conversando sobre conteúdo insultuoso. A demissão, segundo três funcionários, não foi tanto uma questão de recursos humanos de rotina, quanto uma medida enfática do principal executivo Reed Hastings, para que a cultura interna da empresa fosse coerente com o seu conteúdo.

Desde 2018, Sarandos contratou grupos heterogêneos de executivos nos altos escalões, como o ex-presidente da ABC Entertainment Channing Dungey e o ex-presidente de produção da Disney, Tendo Nagenda. A companhia tem também gigantescos acordos com Shonda Rhimes e Kenya Barris, as gerentes de programas mais conhecidas do país, e um acordo para a realização de documentários com os Obama. Um dos maiores lançamentos deste verão, com um orçamento de aproximadamente US$ 40 milhões, foi a história dos veteranos de Spike Lee que retornam do Vietnã, Da 5 Bloods. Diretores que chegavam para participar de reuniões ficaram impressionados com a diversidade do pessoal.

Na falta de uma única explicação clara pelo acúmulo de conteúdo pra pretos da gigante do streaming, alguns criadores da Netflix me indicaram um documentário de 2019 intitulado The Black Godfather. Trata-se de um retrato do negociador Clarence Avant da indústria do entretenimento Clarence Avant, que teve um papel fundamental em momentos diferentes, quando criou a carreira de Janet Jackson e tirou Sean Combs de Los Angeles depois do assassinato do Notorious B.I.G.

Mas o filme, um original da Netflix, não revela apenas um tipo de conexão: de fato, a filha de Avant, Nicole, é casada com Sarandos. Trata-se de uma ligação que Sarandos revelou apenas aos mais íntimos. Em 2018, duas pessoas a par do encontro disseram que ele promoveu uma exibição do filme para os funcionários pretos, e disse a eles, com uma mistura de bajulação e simpatia, que tinha vasta experiência a respeito do que é ser o único não-preto em uma sala - porque é o que ele vivencia em todas as comemorações do Dia de Ação de Graça. E acrescentou que não é a mesma coisa que ser o único preto em uma sala de brancos.

“Não estou falando que o motivo pelo qual a Netflix está fazendo o que está fazendo porque ele está casado com uma mulher preta - mas acredito que ser casado e apaixonado por alguém não-branco faz certa diferença”, disse Perry. “ E o fato de o pai dela ser literalmente o Padrinho que todo mundo procura para todo tipo de coisa é realmente algo muito sério”.

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

 

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