Comédias elegantes marcaram carreira de Lemmon

Como sex symbol, ele sabia que jamais teria chances de triunfar em Hollywood. Mas, na pele de personagens sensíveis em tragicomédias existenciais, Jack Lemmon tornou-se um dos principais e mais respeitados atores americanos garantindo um sucesso de cinco décadas. Sua morte, acontecida às 22 horas da quarta-feira no hospital USC Norris, em Los Angeles (2 horas da madrugada de hoje, horário de Brasília), foi comunicada hoje. "Foi um dos maiores atores que trabalharam no cinema", comentou seu porta-voz Warren Cowan, ao anunciar a morte de Lemmon, por complicações decorrentes de um câncer. Junto do ator estavam sua mulher, Felicia, os filhos Christopher e Courtney, e a enteada Denise.Jack Lemmon estava com 76 anos e participou de 69 filmes, que lhe garantiram os principais prêmios do cinema mundial (Oscar, Palma, Leão e Globo de Ouro), desde a estréia, em 1954, com Demônio de Mulher, comédia de George Cukor, até Lendas da Vida, em uma ponta (não creditada nos letreiros) no filme dirigido no ano passado por Robert Redford.A notícia da morte do ator provocou reações imediatas. O festival de cinema de Taormina, na Itália, que abrirá amanhã, vai homenageá-lo com a exibição do filme Macaroni, que ele interpretou ao lado de Marcello Mastroianni. O diretor do longa, Ettore Scola, vai acompanhar a projeção.A persistência em continuar filmando era uma das marcas mais nobres de Lemmon. "Continuarei trabalhando até que um caminhão ou os críticos me atropelem", brincou no ano passado, durante a comemoração de seu aniversário.A comédia elegante, aliás, confundiu-se com sua carreira e ajudou a moldar sua imagem. Especialmente os filmes que rodou com o diretor austríaco Billy Wilder (Quanto mais Quente Melhor, Se Meu Apartamento Falasse, Irma la Douce, A Primeira Página, entre outros) ou as cenas que dividiu com Walther Matthau (O Estranho Casal, Dois Velhos Rabugentos), um de seus melhores amigos, morto no ano passado. "Nunca tive o carisma elegante de Tyrone Power ou Clark Gable", afirmou, certa vez. "Na verdade, sempre estive mais interessado sobre o que as pessoas pensavam da minha atuação."O envolvimento com situações curiosas, porém, marcaram sua vida desde o nascimento, acontecido em um elevador na cidade Boston, Massachussets, no dia 8 de fevereiro de 1925. Registrado como John Uhler Lemmon III, estudou em Harvard, ingressou na Marinha e lutou na 2ª Guerra Mundial como oficial de comunicações até estrear na carreira artística, justamente em um filme de propaganda, financiado pelo Exército.Em seguida, colecionou uma série de comédias que o consagraram como ator e o tornaram um dos artistas mais respeitados e queridos pelos colegas. Lemmon soube também amadurecer artisticamente quando, a partir da década de 70, passou a aceitar uma série de papéis dramáticos, que ressaltaram sua versatilidade como ator. Intensificou também as atuações no teatro, como em Tributo e Morte de um Caixeiro Viajante, em que dividiu o palco com atores emergentes, como Kevin Spacey.Nos últimos anos, não escondia sua revolta com a ascensão da violência e da intromissão da tecnologia nos filmes de Hollywood que ocupavam o espaço do talento. "Só com o dinheiro que se gasta com sangue artificial em um longa de Schwarzenegger seria possível fazer um Shakespeare extraordinário", dizia.

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