Comediante Steve Carell se revela um extraordinário ator dramático em ‘Foxcatcher’

Longa exibido em Cannes é do diretor Bennett Miller, o mesmo de 'Capote'

Luiz Carlos Merten, Enviado Especial a Cannes - O Estado de S. Paulo

19 de maio de 2014 | 18h30

E a temporada do Oscar 2015 começou ontem aqui na Croisette. Pode parecer prematuro, e até arriscado, mas vamos apostar que Foxcatcher, o novo filme de Bennett Miller, vai recolher importantes indicações no ano que vem. Miller é o diretor de Capote, que valeu a Philip Seymour Hoffman o prêmio de melhor ator da Academia de Hollywood. Steve Carell tem todas as condições de concorrer no ano que vem. Steve quem? Carell - sim, o comediante. O Virgem de 40 Anos. Ele se revela um extraordinário ator dramático.

Na coletiva, foi modesto. Disse que conversou muito com o diretor sobre o papel. Obteve indicações precisas. Na verdade, nunca viu, entre a intenção e o resultado, um filme que tenha saído tão de acordo com o que o diretor queria. E Carell arrematou - drama ou comédia, o importante é a história que se quer contar, e a de Foxcatcher é boa.

No fim dos anos 1980, o milionário da indústria de armamentos John du Pont contratou os irmãos Mark e Dave Schultz, que haviam recebido a medalha de Ouro de lutadores na Olimpíada de 1984. Mais do que um projeto de ser treinador, Du Pont tinha a fantasia patriótica de restabelecer a grandeza da ‘América’, fazendo com que seus atletas obtivessem reconhecimento e subissem ao pódio. Seu objetivo nada secreto era fazer com que Mark ganhasse o ouro de Seul, em 1988. Dave, o irmão, era o treinador, mas oficialmente, quem aparecia era Du Pont. As coisas não saíram como planejadas. Mark sentia-se à sombra de Dave e o próprio Du Pont começou a desconfiar do antagonismo do irmão de seu lutador. Matou-o a tiros. Condenado a 30 anos, morreu na cadeia em 2010.

Muitos filmes da seleção 2014 de Cannes têm se perguntado sobre o que é, afinal, o amor? Outros tantos têm colocado em discussão a família. Já não se trata de discutir a família tradicional, mas de mostrar como os conflitos de sexo, poder e dinheiro repercutem na família. Du Pont, o personagem de Carell, é sinistro. De cara você vê que existe alguma coisa muito errada com o discurso desse cara. O patriotismo exacerbado, a exaltação dos valores, o autoritarismo disfarçado de camaradagem, tudo isso e a presença onipotente da velha mãe (Vanessa Redgrave) prenuncia que isso vai acabar mal. Uma tragédia americana. Com os pequenos problemas que possa ter, o filme é um sólido competidor à Palma. Channing Tatum e Mark Ruffalo, como Mark e Dave, estão ótimos, mas o show é de Carell.

Com o Nuri Bilge Ceylan (Winter Sleep) e o africano Abderrahmane Sissako (Timbuktu), Foxcatcher forma trinca de melhores filmes, até agora. E ah, sim, tem o argentino Relatos Salvajes, mas o humor de Damian Szifrón está longe de ser unanimidade. Não faz mal, a unanimidade é burra, advertia Nelson Rodrigues.

Para seu primeiro filme em Hollywood, o canadense David Cronenberg também se voltou para uma família disfuncional. Mas depois de dois grandes filmes (História de Violência e Os Senhores do Crime) e um terceiro bom (Um Método Perigoso), todos com Viggo Mortensen, o segundo filme do autor com Robert Pattinson, após Cosmópolis, é... Qual é a palavra? Inócuo? O olhar de Cronenberg sobre a indústria do entretenimento, seu mapa para as estrelas - Maps to the Stars é o título -, somente reafirma o estado do mundo. A sociedade vai mal, a família e o cinema, também. Cronenberg sempre gostou de histórias sobre personagens que operam transformações em seus corpos para virar monstros aos olhos de seus semelhantes. De perto, você sabe que ninguém é normal, mas Cronenberg, desta vez, resolveu transformar o pathos em humor. Uma comédia? É por aí.

Revelações sobre um casal - ele é guru das estrelas e ambos têm um filho contratado para estrelar a nova versão de um horror cult. A filha da atriz que fez o papel no original quer repetir a performance da mãe. E há uma maluquinha com o corpo marcado por cicatrizes, interpretada por Mia Wasikowska, a Alice de Tim Burton. Incesto, assassinato, droga, nada que a psicanálise não ajude a iluminar. Ela - a psicanálise - também pode ser invocada pelo filme de Bennett Miller. O homoerotismo faz parte da ligação de Du Pont (Carell) com seus lutadores, mas Foxcatcher é mais denso, e é isso, afinal, que faz a diferença.

Cronenberg desenvolveu alguma espécie de tara pelo astro da série Crepúsculo. Em seu segundo filme com Robert Pattinson, de novo ele coloca o ator numa cena de sexo anal no banco traseiro de um carro de luxo. Em Cosmópolis, era com Juliette Binoche. Em Maps to the Stars, com Julianne Moore. Nem isso levanta o filme. Cronenberg há anos persegue a Palma. Ele só ganha desta vez se der a louca no júri de Jane Campion.

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