Comédia não é presente de grego

Casamento Grego está quase alcançando o posto de A Bruxa de Blair na categoria "Hollywood, uma caixinha de surpresas". A comédia romântica, que entra em cartaz na cidade amanhã, está a apenas um passo de se tornar a produção independente de maior arrecadação de todos os tempos. O filme, que estreou timidamente em 108 saladas de cinema dos Estados Unidos no dia 19 de abril, foi produzido com um orçamento de US$ 5 milhões - quase uma mixaria para os padrões hollywoodianos. Hoje, 29 semanas depois, ocupa 1.977 salas de exibição americanas, e permanece há 13 semanas no Top Ten dos filmes mais assistidos. Resultado: arrecadou US$ 185 milhões nas bilheterias. A história não tem nada de original. É uma espécie de Cinderela dos tempos modernos temperada com uma pitada de comédia. O roteiro foi escrito originalmente para o teatro por Nia Vardalos, atriz canadense descendente de gregos que se inspirou em fatos de sua própria vida - inclusive seu casamento com o ator Ian Gomez, que não é grego. A protagonista, Toula Portokalos - interpretada pela própria Nia -, é uma solteirona malcuidada de 30 anos, que leva uma vida sem graça e escuta desde pequena o pai dizer que ela parece uma velha. O pai, Gus Portokalos, é um grego ortodoxo que encontra uma raiz grega para todas as palavras e tem a bizarra crença de que um limpa-vidros chamado Windex é capaz de curar qualquer machucado. Apesar de atormentar a filha por causa de sua solteirice, espera encontrar um "bom marido grego" para Toula. A balzaquiana feiosa e infeliz que aparece no começo do filme resolve dar uma reviravolta na vida quando apaixona-se à primeira vista pelo professor de inglês Ian Miller, que vai ao restaurante da família onde ela trabalha. Apesar de não correspondida - Ian sequer a nota -, Toula resolve matricular-se em um curso de computação, troca o guarda-roupa, faz sua estréia na maquiagem e troca os enormes óculos por um par de lentes de contato. Com o curso concluído, ela convence a família a deixá-la trabalhar na agência de viagens da tia, onde reencontra seu amor que, desta vez, corresponde ao seus olhares. A partir de então o filme segue com as dificuldades que os dois enfrentam para convencer a farta e barulhenta família dela a aceitá-lo, tudo regado a muitos exageros e algumas boas risadas. Descoberta pela "sra. Tom Hanks" - Foi enquanto encenava a peça, na verdade um monólogo que ficou em cartaz por quatro anos, a maior parte do tempo no Teatro La Brea, em Los Angeles, que aconteceu o que Nia chama de "milagre". Na platéia, repleta de descendentes de gregos, estava uma atriz em especial, também descendente de gregos: Rita Wilson, mulher de Tom Hanks. Rita havia levado sua mãe para assistir ao show e, impressionada com o talento de Nia, foi cumprimentá-la no camarim. Uma semana depois, levou o marido que, em vez de ir ao camarim, mandou para Nia uma carta na qual falava sobre como é ser casado "com uma mulher grega e como se relacionar com uma família grega mudou sua vida". Meses depois, Rita e Hanks voltariam a procurar Nia, desta vez com a proposta de transformar a sua história em filme, junto com Gary Goetzman, sócio deles na produtora The Playtone Company. A produtora de Hanks, na verdade, não foi a única a se oferecer para produzir o filme, mas o que a fez vencer a concorrência, segundo Nia, foi o fato de ter sido a única a lhe oferecer a oportunidade de interpretar o papel principal. "Ela foi inteligente", explica Tom Hanks. "Ela disse: ´essa história é minha e quero interpretá-la´. Isso deu integridade à peça, que já era a versão de Nia de sua própria vida e experiência. Acho que isso as pessoas percebem na tela." "Quando olho para trás, tudo o que posso dizer é que tenho muita sorte", diz Nia. "Muitos acham que, por ter uma família engraçada, vale a pena aparecer num filme, mas sou eu que estou tendo essa oportunidade rara." Nia nasceu em uma comunidade grega em Winnipeg, no Canadá, e integrou durante nove anos (de 1986 a 1995) um consagrado grupo de teatro de Chicago, o Second City, onde conheceu o marido. Sucesso no teatro, cinema e, em breve, na TV - Ela já participou de diversos seriados de televisão, entre eles The Drew Carrey Show, exibido no Brasil pela Sony. No cinema, também chegou a fazer participações especiais em algumas comédias, mas nada que fizesse seu nome despontar. Casamento Grego pode ser considerada sua grande estréia. Graças a ele, Nia está cotada de uma produção um pouco maior: a comédia Connie and Carla do L.A., no qual ela faria o papel de Connie. Além de novas propostas, Nia já está tendo de lidar com a badalação, uma vez que seu nome está cotado para entrar na briga pelo Oscar por melhor roteiro. A televisão também já mostrou interesse em pegar carona nesse sucesso. A rede de tevê americana CBS já encomendou a Nia o piloto de uma adaptação de Casamento Grego para a tevê. A série, porém, terá início quando a jovem grega começa o namoro escondido com o professor de inglês.

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