Comédia judaica arrebata público de Locarno

Com sabor de filme de Woody Allen, o casal de cineastas Teresa de Pelegri e Dominic Harari fez a melhor comédia do Festival de Locarno, Seres Queridos, explorando a fundo o humor judaico mas utilizando um tema explosivo - as relações com os palestinos. O filme, que se passa na maior parte do tempo dentro de uma família judia espanhola, mostra o reencontro da filha, que vem de Israel, com o noivo palestino, justamente numa noite de shabat, cuja liturgia o irmão mais novo procura preservar."O que você vai fazer com um marido palestino?", pergunta a mãe escandalizada. Se tiverem um filho ele vai se explodir". Ao que responde a filha sorrindo: "É como se eu decidisse jogar pedras sobre mim mesma!". As gags e situações ridículas ou humorísticas se sucedem, praticamente sem parar, provocando na Piazza Grande um arrebentar de risos e mesmo gargalhadas.Indagado pela reportagem se a utilização do humor nas relações com os palestinos proviria da crença na crença numa solução do atual conflito, o casal cineasta mostrou confiança num próximo entendimento. Teresa e Dominic, que participaram juntos de toda fase de construção do filme, são defensores do Acordo de Genebra, que prevê dois Estados na região. "Existe uma minoria pela paz, entre os israelenses e palestinos, e uma minoria pela radicalização. A terceira minoria, no momento indecisa, é que decidirá a questão nos próximos anos. Nós acreditamos ser possível uma coexistência pacífica e um entendimento, mesmo porque, na Espanha, onde vivemos, havia franca colaboração entre árabes e judeus, na Idade Média".Sem dúvida, esta questão foi o tema principal dos filmes do Festival de Locarno. Mas a mensagem deixada é extremamente otimista. Se nos anos passados, os filmes palestinos e israelenses acentuavam os choques, atentados e pontos de discórdia, este ano a tônica é o convívio, a paz e o entendimento. Alguns filmes, provando esse clima, tinham israelenses e palestinos no seu casting. Foi o caso do italiano Private e de A Noiva Síria, do israelense Eran Riklis, no qual a principal atriz e alguns atores são palestinos.Como todos os anos, não faltou a contribuição iraniana. Dastan Natamam, de Hassan de Yektapanh revelou a emigração clandestina. O tema do fundamentalismo muçulmano e as reações contra comunidades muçulmanas na Inglaterra, em represália ao ataque das Torres Gêmeas de Nova York, inspirou o filme Yasmin, do inglês Kenney Glenaan, comparado a Ken Loach. Sua preocupação foi "mostrar a dificuldade de ser inglês, muçulmano e mulher na Gra-Bretanha de hoje". Archie Panjabi, cotada para o prêmio de melhor atriz, interpreta a jovem que aceita o desejo do pai, muçulmano tradicionalista, de casar com um primo com passaporte britanico, e vive no norte da Inglaterra, onde sua família será alvo de ataques racistas depois dos atentados contra os EUA.O balanço do Festival, que termina hoje com uma mesa redonda sobre direitos humanos das mulheres, é positivo. Seus filmes denunciaram, revelaram e provocaram o debate sobre os principais problemas nos países da periferia do mundo rico ocidental. Houve também espaço para filmes europeus e americanos, mostrando questões ocidentais, como a atuação do jornalismo no cinema.

Agencia Estado,

14 de agosto de 2004 | 12h24

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