Comédia italiana revê divisão política entre anos 60 e 2000

'Meu Irmão é Filho Único', de Daniele Lucchetti, venceu 4 prêmios David de Donatello, o principal da Itália

Neusa Barbosa, da Reuters,

08 de julho de 2031 | 13h00

O título Meu Irmão é Filho Único sugere uma comédia italiana à moda antiga. Mas o filme assinado pelo diretor Daniele Lucchetti avança além do humor para retratar uma família operária dividida por questões ideológicas e morais entre os anos 1960 e 2000. O filme estréia em São Paulo e Rio de Janeiro nesta sexta-feira, 1.   Veja também:  Trailer de 'Meu Irmão é Filho Único'  Aos 48 anos, Lucchetti é, ao lado de Nanni Moretti, um dos principais diretores italianos da atualidade. Ele venceu quatro prêmios David de Donatello, o principal da Itália, para Meu Irmão é Filho Único, seu 12.º filme. Os prêmios foram de melhor ator (Elio Germano), atriz coadjuvante (Angela Finocchiaro), montagem e roteiro. O roteiro, aliás, foi adaptado do livro Il Fasciocomunista, de Antonio Pennacchi, pelo próprio diretor com a parceria da dupla Sandro Petraglia e Stefano Rulli, autores do script da minissérie A Melhor Juventude (2003), de Marco Tullio Giordana, exibida na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Nada melhor do que uma história em torno de dois irmãos para simbolizar a divisão que no começo dos anos 60 agitava a Itália. Na família Benassi, moradora de Latina, cidade-modelo perto de Roma criada por ninguém menos que Benito Mussollini, Manrico (Riccardo Scamarcio) é o filho mais velho. Bonito, carismático, operário e de esquerda, assim como o pai (Massimo Popolizio), ele é querido por todo mundo. O filho caçula, Accio (quando adulto, interpretado por Elio Germano, de Respiro), é o contrário. Rebelde e teimoso, tenta muitos caminhos e fracassa não por incapacidade mas por sua maneira muito pessoal de ver as coisas. Quando garoto, Accio pensava em tornar-se padre, mas acaba expulso do seminário por mau comportamento. Universidade e Exército também não são para ele. O rapaz termina seduzido pelo discurso falsamente grandioso das brigadas neofascistas de sua cidade, sufocada pela pobreza e a falta de horizontes. Comunistas e sindicalistas, líderes de greves, o pai e o irmão reagem violentamente a esta escolha. A mãe (Angela Finocchiaro) e a irmã Violetta (Alba Rohrwacher) também não compreendem Accio. Mas, como nas melhores comédias italianas, todo mundo briga e a família continua morando sob o mesmo teto. De maneira consistente, o diretor passa em revista algumas das décadas mais incendiárias da história recente da Itália. Examina inclusive a radicalização da esquerda italiana em direção ao terrorismo, em movimentos como as Brigadas Vermelhas. Ao mesmo tempo, mantém o foco no intimismo, expondo os sentimentos complexos que mantêm sempre em contato os dois irmãos, por mais opostos que sejam. Evitando o maniqueísmo, o filme não perde o ritmo. E o que é melhor, a história prossegue sempre temperada por ironia e humor que atenuam, mas não banalizam, os assuntos densos que aborda.

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