Yale Productions
Yale Productions

Comédia ‘I Used to Go Here’ faz uma divertida viagem aos tempos de universidade

Filme brinca com a nostalgia que se abate sobre os jovens adultos quando eles revisitam um lugar de sua juventude não muito distante

Ann Hornaday, The Washington Post

22 de agosto de 2020 | 05h00

Deve haver alguma palavra alemã para isso: aquele sentimento de familiaridade instantânea e deslocamento progressivo que se abate sobre os jovens adultos quando eles revisitam um lugar de sua juventude não muito distante.

Pode ser o quarto da sua infância. Ou o bar que era seu favorito. Ou a cidade onde você fez faculdade – como Carbondale, Illinois, o cenário de I Used to Go Here, da roteirista e diretora Kris Rey, uma comédia divertida que capta com requinte o clima emocional da sensação de pertencer e, ao mesmo tempo, não pertencer – ainda sem previsão de lançamento no Brasil.

Gillian Jacobs interpreta Kate, uma autora de 35 anos cujo primeiro romance acaba de ser publicado. Ela deveria estar nas nuvens, mas seu mundo está desmoronando: sua turnê de lançamento acaba de ser cancelada, todas as suas amigas estão grávidas e ela não consegue parar de olhar o Instagram do seu ex.

Momento perfeito, então, para Kate voltar ao campus (presumivelmente, a Southern Illinois University, embora o nome nunca seja dito em voz alta), onde ela é saudada como celebridade e convidada a fazer uma leitura triunfante de seu livro no curso ministrado por seu antigo mentor, um professor carismático interpretado com impecável autoestima por Jemaine Clement. Aterrorizada pelo mandão que administra a pousada onde ela está hospedada, Kate encontra comunhão do outro lado da rua, numa casa onde ela morou 15 anos antes, quando o futuro era feito de promessas, e não de vergonha, confusão e desapontamento.

Para uma mulher de 35 anos, 15 não são quase nada: Kate sente que se encaixa perfeitamente com os caras que agora vivem na sua antiga residência, e ela toma cerveja e fuma com uma hábil indiferença. Para eles, ela é muito mais velha, claro, mas eles gostam da brincadeira de recebê-la em seu círculo. Rey transmite essa cisão psíquica com fluência e um humor indulgente em I Used to Go Here – e também com a dupla consciência de ser tratada como heroína na velha cidade, ao mesmo tempo em que nutre secretamente a certeza de que é um fracasso abjeto em tudo, menos na arte de fingir sucesso.

Apoiada por um conjunto de jovens atores, entre eles Josh Wiggins, Forrest Goodluck, Brandon Daley e Rammel Chan, Jacobs oferece um retrato vitorioso de uma jovem presa entre dois mundos, tanto por dentro quanto por fora. Tem uma cena maravilhosa: ela posando com as amigas num chá de bebê, segurando seu novo livro na frente do corpo, como se fosse sua barriguinha. Felizmente, Rey evita sobrecarregar Kate com o tema do relógio biológico, dando à personagem seu próprio conjunto específico de dúvidas e ambivalências.

No meio de I Used to Go Here, uma subtrama envolvendo uma trapaça nada convincente ameaça descarrilar o filme numa comédia meio maluca e esquisita. Mas, na maior parte do tempo, Rey mantém o controle sobre as principais qualidades do enredo. Como Garotos Incríveis, a que faz uma referência melancólica, o filme de Rey funciona melhor como um estudo dos caprichos caleidoscópicos do tempo, o qual de alguma forma nos obriga a envelhecer mesmo quando continuamos os mesmos.

Com modéstia, precisão e compaixão irônica, I Used to Go Here descreve a natureza humana em sua forma mais contraditória e indefinível, constituindo um belo exemplo dessa natureza – pelo menos até que apareça a palavra alemã que vai defini-la da maneira correta. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

Tudo o que sabemos sobre:
cinema

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.