Começam hoje as homenagens a Gláuber Rocha

As homenagens a Gláuber Rocha, cujos 20 anos de morte completam-se quarta-feira, começam hoje, na Sala Cinemateca (Largo Senador Raul Cardoso, 207), às 20h, com o lançamento de A Revista, com capa dedicada ao cineasta, acompanhada de um CD com trechos de filmes, entrevistas e making of de suas obras, e o relançamento do cartaz de Deus e o Diabo na Terra do Sol, desenhado por Rogério Duarte. Em seguida, será exibido Deus e o Diabo, o segundo longa-metragem de Gláuber, tido como um dos mais influentes filmes do cinema nacional. A Revista, um produto da Takano Editora Gráfica, é editada pela jornalista Regina Echeverria, que também assina o texto de capa, e nele chama Gláuber de "nosso maior e genial cineasta de todos os tempos", lembrando que o diretor voltou ao Brasil "para morrer". De fato, Gláuber saiu de Sintra, Portugal, em estado desesperador, chegou ao Rio muito enfraquecido, para finalmente morrer a 22 de agosto de 1981, na clínica Bambina, em Botafogo. Seu corpo foi velado no Parque Lage, local de filmagens de sua segunda obra-prima, Terra em Transe, de 1966, lançado em 1967. Deus e o Diabo na Terra do Sol não é apenas um dos grandes filmes do cinema brasileiro. Rendeu também um dos seus cartazes mais inspirados. Quem o conhece sabe do impacto visual da figura de Othon Bastos, no papel de Corisco, segurando a lâmina da faca na altura do rosto e ladeado por um sol causticante. Não é apenas um cartaz bonito, para se colocar na parede - os conceitos da obra estão contidos nele. O cangaceirismo, o sol do sertão, a miséria e a violência, o messianismo e o sonho de Gláuber (aliás, de toda uma geração) de que essas condições adversas poderiam gerar a sua própria superação. Deu no que deu, como se sabe, mas o sonho de Gláuber ficou gravado nesta imagem emblemática criada por Rogério Duarte, que estará a partir das 20h, na Cinemateca, assinando os cartazes. Junto com a revista, informa Regina, será lançado o CD sobre Gláuber, aliás, um "CDDV, pois ele pode ser visto tanto no computador, desde que seja um PC, quanto num DVD player". Os autores do disco são Marcos Weinstock e Geraldo Santos. Weinstock é dublê de publicitário e homem de cinema, tendo trabalhado em alguns dos importantes títulos do cinema brasileiro, como Os Deuses e os Mortos, de Ruy Guerra, Eu Te Amo, de Arnaldo Jabor, e Eles não Usam Black-tie, de Leon Hirszman. "Naquele tempo", diz Weinstock, "não havia tanto essa cisão entre publicidade e cinema, e podia-se transitar de uma área para outra". Sua idéia ao lançar este CD junto com A Revista é muito simples: "Motiva os jovens a assistirem ao cinema de Gláuber Rocha, pois eles o conhecem meio de ouvir falar, mas ver os seus filmes é que é importante". Para formatar o CD, que dura 14 minutos, Weinstock solicitou material a dona Lúcia Rocha, mãe do cineasta e ativíssima diretora do Tempo Gláuber, o memorial do cineasta que existe na Rua Sorocaba, em Botafogo, no Rio de Janeiro. "Ela nos mandou o material, precário, em uma caixa de papelão", diz. Ali havia fitas VHS, com imagens conhecidas, mas também com preciosidades, como algumas cenas em que Gláuber aparece dirigindo Deus e o Diabo e Terra em Transe. Numa delas, curiosa, o diretor dá instruções ao ator Paulo Autran, que faz o tirano Porfírio Diaz em Terra em Transe. A cena, tal como é vista no CD, dá razão ao depoimento de Autran, publicado ontem no Estado: Gláuber, ao contrário do que reza a fama, era gentilíssimo no contato com seus atores. Montagem - Para fazer o CD, Weinstock procurou nos filmes os momentos correspondentes aos making of que tinha, e montou-os em seqüência. Montou também, em estilo pessoal, algumas cenas de Deus e o Diabo, alterando a colocação de música, etc. Em especial, naqueles momentos finais do filme, quando depois de haver passado pelo fanatismo religioso e pela violência em estado bruto, o vaqueiro Manuel, interpretado por Geraldo Del Rey corre em direção ao mar. Um mar inquieto e incerto, que, na época em que o filme foi lançado, bem poderia ser um símbolo da revolução com que Gláuber sonhava. Apenas uma curiosidade histórica, digna de registro: Deus e o Diabo na Terra do Sol, o filme que será apresentado hoje na Cinemateca, foi mostrado pela primeira vez aos jornalistas a 13 de março de 1964, dia do comício do então presidente João Goulart na Central do Brasil. Pouco depois, na madrugada de 31 de março para 1.º de abril, seria deflagrado o movimento militar, que depôs o governo civil, inaugurando um ciclo de generais que iria durar 20 anos.

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