Começa o 9.º Festival do Cinema Judaico

São 20 filmes inéditos (e premiados) na mostra competitiva. O 9.º Festival do Cinema Judaico, que começa hoje e vai até domingo, vai mostrar, em quatro espaços da cidade (Clube Hebraica, Museu da Imagem e do Som, Centro da Cultura Judaica e Museu AfroBrasil), um pouco da cultura judaica, em seus múltiplos aspectos. Haverá uma mostra de ficção e outra de documentários. Um programa especial de oito títulos, sugestivamente chamado de Entre o Quilombo e o Kibutz, abordará o relacionamento entre negros e judeus. Pelo menos três filmes, que estão entre as pérolas da programação, são assinados por mulheres. O festival é uma realização do Clube Hebraica. Não é um evento fechado da entidade, mas aberto a todos os que quiserem entender (e discutir) graves questões políticas contemporâneas. Embora o Holocausto continue sendo um tema decisivo do cinema judaico, até porque ele radicaliza os temas da identidade e do sentimento de ser diferente, existem outras abordagens que vale conferir. O filme de abertura chama-se Doce Ilusão e é uma ficção dirigida por Paul Morrison. Foi premiado no Festival de Cinema Judaico de Boston de 2004 e trata de uma família judia que é hostilizada pelos novos vizinhos jamaicanos. Morrison não fez seu filme para insistir no dogma do povo judeu como eleito e perseguido, mas para fazer uma ponte sugestiva - os jamaicanos também são marginalizados pela fechada sociedade de Boston. É um tema crucial na questão judaica, sempre invocado quando se analisa a complexa situação do Oriente Médio - como a vítima, o povo judeu que sofreu tanto ao longo da história, pode-se transformar ele próprio em algoz de seus vizinhos. O programa de encerramento, no domingo, será o documentário 18-J, que já foi exibido em festivais realizados no Brasil, no ano passado. O filme homenageia as vítimas do atentado à Asociación Mutual Israelita Argentina (Amia), em Buenos Aires, no dia 18 de julho de 1994. O bárbaro ataque terrorista é evocado por meio de dez curtas de dez minutos cada um, assinados por importantes diretores do cinema argentino, entre eles Daniel Burman, de O Abraço Partido. O projeto aproxima-se de outro documentário impactante - o que reuniu diretores de todo o mundo para debater o ataque às torres gêmeas, em Nova York, no fatídico 11 de setembro de 2001. O "olhar feminino" poderá ser avaliado em quatro ou cinco dos melhores títulos da programação. Rosentrasse chega ao Festival do Cinema Judaico de São Paulo carregado de prêmios - recebeu o Davi di Donatello, o Oscar italiano, de melhor filme estrangeiro, foi premiado em Berlim, no ano passado, e no Festival de Toronto, em 2003. Conta a história de uma mulher, Hannah, que investiga o passado de sua mãe, após a morte do pai, e descobre a existência de um movimento formado por mulheres não judias para libertar seus maridos judeus aprisionados pelos nazistas na Rosentrasse, a Rua da Rosa. Escrito e dirigido por Margarethe Von Trotta, o filme prossegue com temas que há muito preocupam a ex-atriz de Rainer Werner Fassbinder e Volker Scholondorff (com quem esteve casada). Margarethe teve importante participação num dos melhores filmes do marido - A Honra Perdida de Uma Mulher. Sozinha, fez o pesado, mas forte, Os Anos de Chumbo, sobre duas irmãs que divergem politicamente (uma delas torna-se terrorista), mas sempre mantendo o afeto. Se A Promessa, sobre a queda do Muro de Berlim, foi decepcionante (porque um tanto açucarado, na sua recriação de Romeu e Julieta), a austera cinebiografia de Rosa Luxemburgo dava a medida da complexa personagem. Margarethe Von Trotta volta, agora, a falar de mulheres na guerra. Marceline Loridan-Ivens carrega o nome de Joris Ivens, o lendário documentarista de quem foi mulher e colaboradora, tendo percorrido com ele a geografia de espaços míticos da revolução (China, Vietnã, Cuba). Há críticos e historiadores que consideram Joris Ivens o maior de todos os documentaristas. Marceline esteve com ele em vários frontes de luta - estética e política. Ela dirige agora O Pequeno Campo de Bétulas, sobre uma mulher que volta ao complexo de extermínio de Auschwitz-Birkenau. Marceline, que deve ter visto o documentário Nuit et Brouillard, de Alain Resnais, teve duas colaborações preciosas - a da atriz Anouk Aimée, que faz a protagonista, e a de Jeanne Moreau, citada nos créditos por sua participação ´amigável´ no roteiro. Como fazer para não esquecer? Como criar poesia a partir do horror? O próprio título tem a ver com isso, prepare-se. Há mais ficções merecedoras de atenção, como Luz, de Keren Yedaya, sobre uma garota israelense cuja mãe se prostitui nas ruas. E também documentários como A Estrela Oculta do Sertão, de Elaine Eiger e Luize Valente, do Brasil, que viaja rumo às origens judaicas no sertão nordestino, onde elas sobrevivem por meios de ritos e costumes seculares. É um belo filme que já integrou a programação de mostras até no exterior. 9.º Festival de Cinema Judaico. Centro de Cultura Judaica. R. Oscar Freire, 2.500, Sumaré, 3065-4333. CineSesc (326 lugares) Rua Augusta, 2.075, Cerq. César, 3064-1668. A Hebraica. R. Hungria, 1.000, 3818-8800. MIS. Avenida Europa, 158, Jd. Europa, 3062-9197. Museu Afro-Brasil. Pq. do Ibirapuera, portão 10, 5579-6099. R$ 6 (grátis p/ vídeo e Museu Afro; 1 kg de alimento no Centro de Cultura Judaica). Até 14/8

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