Começa Festival de Curta-Metragens de São Paulo

Em tempos em que a Lei do Curta nunca foi tão discutida e tem chances de voltar a ser cumprida, um evento como o Festival Internacional de Curta-Metragens de São Paulo, um dos mais aguardados no ano, que começa nesta quarta-feira para convidados e na sexta-feira ao público, é ótima oportunidade para se ver o que de mais novo o cinema nacional tem produzido no formato. Mais que isso, é a ocasião para se refletir sobre tudo que perdemos ao longo do ano. Afinal, salvo o Curta Petrobras às Seis, que tem sessão, diariamente, às 18 horas, em várias salas do País, e raros festivais como este, restam poucas chances para se ver curtas no cinema.Um esclarecimento: A Lei do Curta prevê que toda sessãocomercial em que for exibido um filme estrangeiro deve serprecedida pela exibição de um curta brasileiro. Tendo em vista afatia ocupada pelo cinema internacional nas salas brasileiras,não seriam poucos curtas que encontrariam, finalmente, o público.Produção não falta. Só no Festival Internacional deCurta-Metragens, serão exibidos 123 títulos nacionais, desde osque integraram festas como Cannes, Berlim e Roterdã, até osfilmados em esquema quase caseiro. A diretora do festival, ZitaCarvalhosa, orgulha-se do fato de o evento ser um dos maisaguardados do País, ponto de encontro para jovens realizadoresbrasileiros e internacionais. "Seria ótimo se a Lei do Curtavoltasse a ser executada. Lembro-me de quando ela era cumprida,no fim dos anos 80. A produção nacional revigorou-se. Foi ótimo" afirma Zita, que também ressalta a importância do espetáculoque organiza. "Enquanto a lei não volta, o festival é a maior vitrinedo País, para curtas. Programação e temas são os mais vastospossíveis."Ao todo, serão exibidos 424 filmes de 51 países. Sem contar aprogramação paralela, que destaca as Oficinas Kinoforum, cujodestaque é a produção e a formação do olhar de jovens de váriascomunidades; a Manifesta; o Workshop Desvendando Tecnologias, eas Noites de Kino, que reúne alunos de cinema na produção decurtas em apenas um dia. Se a produção e o conjunto de filmes primam peladiversidade, os suportes são mais variados ainda. Vale tudo parase contar uma boa história: película, digital, celular. Aocontrário dos tradicionais no Brasil, que exigem que os filmessejam finalizados em película 35mm ou 16mm, o Festival de Curtas democraticamente, como fazem grandes eventos na Europa comoRoterdã (Holanda) e Locarno (Suíça), aceitam suportes variados.Nesta linha, entra o Curta o Formato, que abriga títulos como ojá hit "Tapa na Pantera", de Esmir Filho (que também dirige"Alguma Coisa assim"), Rafael Gomes e Mariana Bastos. O curtavirou fenômeno no Orkut e no You Tube (página em que qualquer usuário pode acessar e tornar disponíveisvídeos). O filme traz um hilário depoimento fictício da atrizMaria Alice Vergueiro sobre o uso da maconha. A diretora do festival não vê todos os curtas, tarefahumanamente impossível, mas sempre contou com uma equipe deolheiros em festivais nacionais e internacionais. "Não há comoclassificar, necessariamente, a produção deste ano. Há muitoscurtas com temática política, principalmente na seleçãointernacional. Mas há também temas variadíssimos. O que quisemosressaltar, desta vez, foi o porquê e como cada curta é feito.Esta é uma pergunta que eu e minha equipe sempre fazemos quandoselecionamos um filme e que queremos que o público também faça." Os brasileiros estão agrupados ainda nos programas"Panorama Brasil", "Cinema em Curso" e "Formação do Olhar". Nãoperca os que destacam a produção de Eduardo Valente, que estevecom o recente "Monstro" em Cannes; e Christian Caselli com oscurtas experimentais. Entre os internacionais, não faltam ospremiados em Cannes ("Sniffer", de Bobbie Peers; e "Conto deBairro", de Florence Miailhe); Veneza ("Pequena Estação", deChien-Ping Lin); Berlim ("Nunca como da Primeira Vez", de JonasOdell); Clermont Ferrand ("Hibernação", de John Williams). A diversidade atinge também a forma de contar ashistórias. "Está nascendo um novo gênero, que poderia se chamarcurta musical. Em parceria com o The British Council, criamos oprograma Kino Lounge Skyy - Filmes sensoriais", conta aprodutora. "Estes curtas estão muito ligados com a músicaeletrônica, misturam a trilha com a imagem, mas não sãovideoclipes. Não é porque não têm diálogos que não contam umahistória. Muito pelo contrário."

Agencia Estado,

23 de agosto de 2006 | 17h46

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