Começa amanhã Mostra do Audiovisual Paulista

Começa nesta terça-feira e vai até domingo a Mostra do Audiovisual Paulista, no Museu da Imagem e do Som e no Centro Cultural São Paulo. Criado há 14 anos pelo cineasta e produtor cultural Francisco César Filho, o evento tinha como vocação fazer um amplo apanhado da produção anual de curtas no Estado. "Era o formato em que se experimentava", diz ele. "Hoje, é apenas um dos meios de que o audiovisual dispõe, porque a experimentação surge também de outras mídias." Não é por outra razão que a edição deste ano abrange desde filmes de curta-metragem até web art, passando por videoclipe, publicidade, série de tevê, filme super-8, videoarte, documentário, making of demo, trailer, animação e até CD-Rom. São 94 produções, das quais 39 em pré-estréia. No Museu da Imagem e do Som ficarão concentrados os trabalhos de formato alternativo. No Centro Cultural São Paulo, o CSP, serão exibidos os 37 mais importantes curtas-metragens da última safra.Se a Mostra do Audiovisual Paulista não fosse um evento cultural, não seria possível exibir A Marcha, que Osvaldo Sampaio adaptou do romance de Afonso Schmidt. O filme, de 1970, foi a produção mais cara do cinema brasileiro na época. Assinalava o retorno de Sampaio à direção, 13 anos depois do seu filme anterior - O Preço da Vitória. Depois de uma ficção celebrando o futebol, o diretor recorreu ao maior ícone brasileiro do esporte, Pelé, colocando-o no papel do Chico Bondade, o alforriado pela luta pela emancipação de seus irmãos negros em A Marcha.Embora sério, o filme teve a sua carreira prejudicada por uma pendenga judicial. Parte da família do escritor, sentindo-se lesada na questão dos direitos autorais, entrou na Justiça e o filme foi embargado até 2024. Isso ocorreu às vésperas da estréia de A Marcha, em 27 de julho de 1972. O diretor entrou com um mandado assegurando o lançamento, mas pouco adiantou. O épico terminou saindo de cena e agora volta para o que Vera Sampaio, viúva do diretor, e Francisco César Filho, o Chiquinho, criador da Mostra do Audiovisual Paulista, esperam que seja uma redescoberta.Sampaio morreu em janeiro de 1996, no mesmo fim de semana que marcou a morte de Rubem Biáfora. Os dois ligaram seu nome à Vera Cruz, a companhia paulista que, nos anos 50, tentou criar a Cinecittà dos trópicos, desenvolvendo um modelo de cinema ´industrial´ baseado na qualidade técnica. Infelizmente, a Vera Cruz não conseguiu resolver o problema da distribuição dos próprios filmes que fazia. O mais popular, entre eles - O Cangaceiro, de Lima Barreto -, terminou enchendo de dinheiros os cofres da distribuidora americana Columbia.Primeiro no teatro, como cenógrafo - integrou a companhia de Procópio Ferreira -, Sampaio começou na Vera Cruz como roteirista, escrevendo Tico-Tico no Fubá, de Alfo Celi, com Anselmo Duarte como o compositor Zequinha de Abreu. Estreou na direção, co-assinando, com Tom Payne, Sinhá Moça, que também escreveu. Este foi outro filme muito famoso da Vera Cruz, cujo prestígio foi estabelecido quando ganhou um prêmio no Festival de Veneza. Após o fechamento da companhia, Sampaio transferiu-se para a Maristela e lá fez seus outros filmes - A Estrada e O Preço da Vitória. Após mais de dez anos afastado da direção, voltou com A Marcha.É curioso que A Marcha retome Sinha Moça para discutir, novamente, a luta dos abolicionistas brasileiros. Como o romance de Afionso Schmidt em que se baseia, A Marcha concentra sua narrativa no péríodo entre novembro de 1887 a março de 1888, quando se acirraram as disputas entre partidários e opositores da causa da Abolição da Escravatura. A história gira quase toda em torno da ligação entre os personagens de Paulo Goulart e Nicette Bruno, mas não se pode deixar de destacar Édson Arantes do Nascimento, o Pelé, como Chico Bondade. O personagem é algo equivalente ao que Henricão interpretou em Sinhá Moça.Rodado em Bragança Paulista, no Museu de Arte Sacra de São Paulo, na igreja de Valongos, na estação de Santos-Jundiaí e em fazendas de Itatiba e Bragança, em Paranapiacaba, Alto da Serra, A Marcha encerra considerável esforço de produção. É um filme cuidado e pode-se dizer que bem-feito, no seu capricho, mas sem alma, um problema comum à maioria dos filmes da Vera Cruz, que foi o nascedouro de Sampaio. Na preocupação de respeitar o tal padrão de qualidade defendido pela companhia, o filme termina aprisionando-se na camisa-de-força de uma narrativa acadêmica.Em todos os filmes que realizou, Sampaio procurou sempre fazer um cinema popular, capaz de falar ao grande público. Não por acaso, em 1958, aproveitando o clima que culminou com a conquista da Copa do Mundo pelo Brasil, lançou com estardalhaço O Preço da Vitória. Pelo mesmo motivo, capitalizou a popularidade de Pelé para A Marcha.Mostra do Audiovisual Paulista - Ano 14. Amanhã (05)e às 18 horas, ´Um Ladrão´, de Arlindo de Almeida Jr., ´Uma Cartada de Morte´, de Afonso Bernarde, ´Pormenores´, de Flávio Frederico, ´Que É Meu do Mundo´, de Íris Gomes Bertoni e Giuliano Miki Montagnoli, ´Tipos Intrometidos´, de Fábio Durand, e ´Três Minutos de Imponderabilidade mais um Epílogo´, de Élcio Verçosa Filho e Francisco Costábile; às 20 horas, ´1.500´, de Maurício Squarisi, ´A Caravela´, de Rodolfo Lopez, ´A Queridinha do Papai´, de Guilherme Outsuka, ´Ao Ser Tocado´, de Íris Gomes Bertoni, e ´Almas em Chamas´, de Arnaldo Galvão. Grátis. Centro Cultural São Paulo - Sala Lima Barreto. Rua Vergueiro, 1.000, tel. 3277-3611. Amanhã (05), às 21 horas, ´Distraída para a Morte´, de Jeferson De, ´Do Amor, de Gisela Callas´, e ´Palíndromo´, de Philippe Barcinski. Grátis. MIS - Auditório. Avenida Europa, 158, tel. 3062-9197. Até 10/6.

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