Começa a corrida pelo Leão de Ouro de Veneza

Michael Moore, Patrice Chéreau; Giuseppe Tornatore e outros grandes nomes estão na mostra

Luiz Zanin Oricchio, de O Estado de S. Paulo,

02 de setembro de 2009 | 07h03

Não é ainda desta vez que o Brasil disputará o Leão de Ouro. Numa mostra cheia de nomes famosos como Patrice Chéreau, Werner Herzog, Michael Moore, Jacques Rivette e Giuseppe Tornatore, coube aos brasileiros o consolo de ter dois na mostra paralela Horizontes. Ambos dirigidos em duplas: "Viajo porque Preciso, Volto por que Te Amo", de Karin Aïnouz e Marcelo Gomes; e "Insolação", de Daniela Thomas e Felipe Hirsch.

 

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A mostra Horizontes é importante. Define-se como a seção que privilegia "as novas correntes do cinema mundial". E distribui troféus: o Prêmio Horizontes e o Horizontes Doc, para os documentários. Mas não leva ao Leão de Ouro, ainda inédito no País. Dos três grandes festivais, o Brasil já faturou uma Palma de Ouro em Cannes ("O Pagador de Promessas") e dois Ursos de Ouro em Berlim ("Central do Brasil" e "Tropa de Elite"). Mas o prêmio principal de Veneza terá de esperar outra ocasião.

 

A presença brasileira no 66.º Festival de Veneza não se restringe aos filmes que participarão da mostra Horizontes. Na seção Corto Cortissimo entra "O Teu Sorriso", de Pedro Freire, com Paulo José e Juliana Carneiro da Cunha. E coube ao diretor Walter Salles o privilégio de ser distinguido com o prêmio Robert Bresson, que lhe será entregue dia 4. Walter já havia participado de Veneza como concorrente, com "Abril Despedaçado".

 

Agora vai receber uma distinção destinada a obras que trazem valores espirituais em seu conteúdo, e já foi outorgada a cineastas como Manoel de Oliveira, Alexandr Sokúrov e Theo Angelopoulos. É mais um sinal do reconhecimento internacional do diretor de "Central do Brasil" e "Linha de Passe".

 

Na noite desta quarta-feira, 2, o Festival começa em grande estilo, com todo o glamour peninsular: apresentação da diva Maria Gracia Cuccinotta (de "O Carteiro e o Poeta") e estreia mundial do novo filme de Giuseppe Tornatore, "Baarìa", primeiro concorrente ao Leão de Ouro. O título refere-se ao nome fenício da cidade de Bagheria, na Sicília, província de Palermo, terra natal de Tornatore. Filho ilustre, aliás, vencedor do Oscar com Cinema Paradiso. Com essa volta às suas raízes, Tornatore tem grandes ambições: faz um filme de época, com três gerações de uma família em Bagheria, cobrindo um século de história italiana e passando por duas guerras mundiais, a ascensão e queda do fascismo, o sonho socialista, a democracia cristã, luta armada e fim das ilusões. Ufa! Se vai entregar tudo o que promete é o que se verá.

 

Tornatore entrará na disputa pelo Leão contra alguns pesos-pesados, tais como o veterano Jacques Rivette, um dos fundadores da nouvelle vague, no ano em que o movimento francês completa seu 50.º aniversário. Ele traz ao Lido um filme chamado "Pic Saint Loup", com a atriz cult Jane Birkin e o italiano Sergio Castellitto no elenco. Há mais franceses na disputa, como Patrice Chéreau ("Persécution"), Jaco van Dormael ("Mr. Nobody") e Claire Denis ("White Material"), com Isabelle Huppert no elenco, uma devoradora de prêmios.

 

A seleção contempla também várias produções: "A Single Man", de Tom Ford, Bad Lieutenant, do alemão Werner Herzog, agora filmando nos EUA, "Survival of the Dead", de George Romero, "Life During Wartime", de Todd Solondz e "The Road", de John Hillcoat. Também dos EUA vem o único documentário do concurso: "The Capitalism", do provocador Michael Moore que, com certeza, provocará frisson no Lido com suas declarações bombásticas e frases de efeito. Tomara o filme, que se pretende crítico ao sistema econômico dominante, tenha substância que justifique o discurso do cineasta.

 

O perfil da mostra veneziana de 2009 é semelhante ao de outros anos. Veneza será uma mostra europeia, com grande participação norte-americana e olhar voltado para o Oriente. É a marca do diretor Marco Müller, romano, sinólogo de formação e filho de brasileira. Como qualquer diretor de festival de ponta europeu, ele privilegia a produção do continente, abre espaço generoso para os Estados Unidos e procura alternativas de linguagem cinematográfica em outras paragens. Seu olhar tem se fixado no Oriente, até por uma questão de formação e gosto. E prestado pouca atenção à América Latina, pelo menos na competição principal.

 

Ano passado, Müller foi acusado de proteger demais a produção italiana e sobrecarregar o festival com filmes sem condições de competir. Em 2009 aliviou um pouco a dose. Além de Tornatore, disputam o Leão mais dois italianos: "La Doppia Ora", de Giuseppe Capotondi, e "Il Grande Sogno", de Michele Plácido. Mas, claro, um batalhão de italianos se distribui generosamente pelas outras mostras de Veneza. Quanto aos filmes de "outras geografias", estão mais raros este ano: "Tetsuo Bullet Man", do Japão, "Lei Wangzi", da China, "Between Two Worlds", do Sri Lanka, "Levanon", de Israel e "El Mosafer", do Egito.

 

Mas estamos falando apenas do concurso principal, 24 títulos selecionados de 2.519 pretendentes. Veneza, na verdade, é uma maratona do cinema. Há vários filmes fora de concurso, entre eles alguns obrigatórios, como o novo Abel Ferrara ("Napoli, Napoli, Napoli") e "The Hole", do também cult Joe Dante, além da nova star do clã iraniano Makhmalbaf, Hana, que dirige seu "Green Days". A destacar, entre os fora de concurso, um incrível "Rambo", agora sob a forma do director’s CUT. "Versão do diretor" de "Rambo", com a devida homenagem do festival a Sylvester Stallone. Ora, se Gramado homenageou a Xuxa, por que Veneza não pode prestar tributo a Stallone, não é mesmo?

 

Entre bizarrices dessa ordem, sobra espaço e muito espaço para o que é de fato importante. Akira Kurosawa (1910-1998) é lembrado por seu centenário de nascimento. Centenário antecipado, diga-se, pois o diretor japonês nasceu em março de 1910. Mas compreende-se: foi em Veneza que Kurosawa começou a ser conhecido no Ocidente ao vencer o Leão de Ouro em 1951 com "Rashomon". Ele voltou a ganhar um Leão de Ouro, desta vez pela carreira, em 1982. É, portanto, um personagem importante da história do festival, que não quis perder a efeméride.

 

O festival começa para valer nesta quarta. Mas na terça, 1, houve uma homenagem a Mario Monicelli, que continua ativo e de ótimo humor, em seus esplêndidos 94 anos. Para saudá-lo, o festival reservou aquela que é a mais mágica das suas noites de gala: uma projeção ao ar livre em uma das lindas praças da cidade - o Campo San Polo, onde a multidão poderia ver no telão um dos clássicos do velho diretor, "A Grande Guerra", que, há exatos 50 anos, dividia o Leão de Ouro com "De Crápula a Herói", de Roberto Rossellini. Que tempos aqueles, do cinema italiano...

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