Começa a 24ª Mostra Internacional de Cinema de SP

A 24.ª Mostra Internacional de Cinema São Paulo será aberta hoje para convidados, na Sala São Paulo, com a exibição de Palavra e Utopia e a presença de seu diretor, o português Manoel de Oliveira. Um dos filmes mais aguardados na lista dos 180 longas da programação é Dançando no Escuro, do dinamarquês Lars Von Trier, com Björk e Catherine Deneuve, vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes deste ano. Outro convidado de honra da Mostra é o iraniano Jafar Panahi, que vem para a exibição de O Círculo, vencedor do Festival de Veneza.Dançando no Escuro - Em toda a história do Festival de Cannes, foi a primeira vez que isso ocorreu. Os filmes são sempre precedidos pela vinheta do festival, uma animação com o fundo do Carnaval dos Animais. Com Dançando no Escuro, o famoso Dancer in the Dark, foi diferente. Lars Von Trier pediu e o diretor-geral do festival, Gilles Jacob, concordou que as cortinas permanecessem fechadas enquanto se ouvia uma suíte composta para o filme. Quando as cortinas se abriram, rolaram os créditos. A vinheta foi esquecida.Houve protestos. Muita gente achou que houve uma pré-disposição da organização do festival para premiar o musical de Von Trier. Talvez não fosse verdade, mas o debate sobre o cinema digital que precedeu a abertura de Cannes 2000, a deferência ao autor que desfigurou um dos ícones do festival, tudo isso virou suspeito. De qualquer maneira, se há um filme que nasceu cult foi esse. A personalidade um tanto mítica do diretor, a da atriz, na verdade cantora e compositora, Björk, tudo contribuiu para criar a expectativa em torno de Dançando no Escuro.Verifica-se em relação a esse filme um fenômeno curioso. Dançando no Escuro incita ao radicalismo. As reações são do tipo ´ame-o ou rejeite-o´. A sessão especial realizada no Festival do Rio BR 2000, na sexta-feira à noite, não só lotou como teve gente de pé e ainda uma centena de espectadores que ficaram de fora do cinema Odeon BR, sem conseguir entrar. No final, formavam-se os grupos de pró e contra. Não há por que imaginar que em São Paulo será diferente.Neste sentido, o filme de Von Trier concretiza o sonho de qualquer autor. Ganhou a Palma de Ouro, anima polêmicas. Não há unanimidade em relação ao filme. Dançando no Escuro fecha o que não deixa de ser uma trilogia de Von Trier sobre o sacrifício das mulheres. Começou com Ondas do Destino, prosseguiu com Os Idiotas e chega agora ao musical com Björk e Catherine Deneuve. Um musical nada lírico e, a bem da verdade, bastante sombrio sobre a via-crúcis de uma estrangeira na América, Björk.Com Ondas do Destino, o diretor alcançou o máximo da suntuosidade plástica e formal. Com Os Idiotas, deu sua contribuição ao Dogma, o movimento dos monges-cineastas da Dinamarca. O Dogma prevê, entre outras coisas, que os filmes não se enquadrem em gêneros. Von Trier subverte o próprio Dogma assinando um musical. Vai além. O voto de castidade dos monges-cineastas cai por terra quando se anuncia que a grande ousadia de Dançando no Escuro é a famosa cena da coreografia na fábrica, na qual teriam sido usadas cem câmeras. Criou-se, em torno disso, um marketing, um mito. Björk é maravilhosa (e não se pode esquecer que ela foi melhor atriz em Cannes). E o filme, embora usando uma tecnologia que aponta para o futuro do cinema, na verdade é uma soma de ousadias estilísticas e clichês melodramáticos. Von Trier é atraído pelo martírio das mulheres, como seu mestre, Carl Theodor Dreyer, o homem que radiografou a alma em O Martírio de Joana D´Arc. Mas, não por acaso, o filme que é citado dentro do filme é A Noviça Rebelde, o musical de Robert Wise. Não deixa de ser revelador.

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