Começa 54.ª edição do Festival de Cannes

Em sua 54.ª edição, o Festival de Cannes 2001 começa quarta-feira e ilumina o terceiro milênio com nada menos que 1.798 filmes, sendo 854 de longa-metragem e 944 de curta duração. No entanto, são apenas 22 longas de 11 nacionalidades na competição oficial e no centro das atenções dos cerca de 4 mil jornalistas que invadem este belo balneário banhado pelas águas de tonalidade azul-turquesa do Mediterrâneo. A mostra tem orçamento girando em torno de US$ 5,5 milhões e representantes de 76 países.A maratona cinematográfica promete uma rara celebração da chamada sétima arte, essa linguagem tão misteriosa e envolvente que ultimamente vem sendo confundida com meras peças publicitárias de parques temáticos hollywoodianos. Cannes 2001 terá festas com grandes estrelas, mas vai projetar a exuberância do cinema por meio das obras de grandes diretores que fazem parte da competição oficial e das mostras paralelas.A atriz e cineasta Liv Ullmann, que esteve à frente de inúmeros filmes de Ingmar Bergman, preside o júri e promete zelar pela qualidade artística na hora da entrega da Palma de Ouro no dia 20. Liv substitui Jodie Foster, que inicialmente havia concordado, mas acabou declinando por ter aceito convite para encabeçar o elenco de um filme de David Fincher.Na competição oficial, veteranos como Manoel de Oliveira (Je Rentre à la Maison), Jean-Luc Godard (Éloge de L´Amour), Jacques Rivette (Va Savoir!) e Shohei Imamura (De L´Eau Tide Sous un Pont Rouge). Todos cineastas que jamais se renderam às receitas de sucesso fácil do cinema contemporâneo, sempre optando pela maneira mais digna e mais autoral de se expressar por meio da linguagem cinematográfica. Ainda na lista dos veteranos, Ermanno Olmi (Il Mestiere Delle Armi), que já ganhou a Palma de Ouro com A Árvore dos Tamancos.Há talentos mais jovens, como Joel Coen (The Man Who Wasn´t There), Tsai Ming-liang (Et Là-bas, Quelle Heure Est-il?), Sean Penn (The Pledge) e Shinji Aoyama (Desert Moon), este último o diretor japonês de Eureka, um dos grandes destaques da Mostra Internacional de Cinema São Paulo do ano passado. Há também a espalhafatosa purpurina do australiano Baz Luhrmann, com sua estética barroca e pós-moderna, que vai abrir o festival quarta-feira à noite com um musical intitulado Moulin Rouge.Diários explícitos - O italiano Nanni Moretti, adepto da radicalização do cinema de autor, que costuma ter a coragem e a cara-de-pau de expor a sua vida em explícitos diários cinematográficos, apresenta na competição oficial La Stanza del Figlio. Cédric Khan exibe Roberto Succo, sobre a vida de um famoso serial killer italiano que também inspirou peça teatral de Bernard-Marie Kolts.O americano David Lynch, autor de um dos melhores filmes da década, Estrada Perdida, trouxe a mostra competitiva Mulholland Drive. O cinema americano também está representado pela animação Shrek, projeto de Victoria Jenson e Andrew Adamson para a DreamWorks, o primeiro desenho a competir em Cannes desde 1953, quando a Disney exibiu Peter Pan.Um dos filmes mais aguardados da competição é Taurus do russo Alexander Sokurov, o diretor de Moloch. Para o encenador Antunes Filho, é o maior gênio do cinema contemporâneo. Em Taurus, Sokurov recria o fim da vida de Lenin, nos anos 20, quando foi enviado por Stalin para uma mansão czarista no vilarejo de Gorki, nas cercanias de Moscou.Liv Ullmann deverá ter empatia imediata com esse filme. Sokurov é discípulo de Tarkovski, que também foi reverenciado por Bergman, ex-marido de Liv. A direção de elenco de Sokurov é sempre esplendorosa e a linguagem de Taurus é enevoada como uma pintura a óleo esmaecida, quase que uma câmera subjetiva de Lenin, que sofria de catarata no fim da vida. Um dos mais fortes concorrentes à Palma de Ouro.Fazendo companhia a Liv Ullmann no júri, presenças jovens que podem mudar o resultado final, como Charlotte Gainsbourg, atriz que é filha de Jane Birkin com Serge Gainsbourg; Edward Yang, o realizador do comovente As Coisas Simples da Vida; a atriz inglesa Julia Ormond; e Mathieu Kassovitz, "enfant terrible" do cinema francês, autor de O Ódio. Ainda no júri, o exacerbado Terry Gilliam, que, ao lado das presenças mais jovens, pode fazer Liv Ullmann também contemplar estéticas com uma pulsação bem mais contemporânea que os filmes de Sokurov.De Sica e Sautet - Serão homenageados os cineastas Vittorio De Sica, um dos mestres do neo-realismo, e Claude Sautet, autor do amargo Um Coração no Inverno. Erick Zonca é o presidente do júri de curta-metragem, que conta com a presença de Samira Makhmalbaf. Seu pai, Mohsen Makhmalbaf, está na competição oficial com o longa Kandahar, sobre refugiados afegãos que voltam ao seu país. Outro iraniano, Abbas Kiarostami apresenta fora de competição um documentário intitulado ABC Africa, focalizando crianças com Aids em Uganda.Martin Scorsese vai apresentar seu documentário sobre a história do cinema italiano, Il Mio Viaggio nel Cinema Italiano. Wong Kar-wai (Felizes Juntos e Amor à Flor da Pele) ministra uma aula de cinema para falar da sua sempre exuberante mise-en-scène.A atriz e diretora portuguesa Maria de Medeiros é a presidente do júri que vai entregar a Caméra d´Or a um jovem realizador, expandindo as possibilidades da linguagem cinematográfica. Melanie Griffith, acompanhada de Antonio Banderas, também será uma das convidadas de honra do festival.Fora de competição, serão exibidos como hors-concours Les Âmes Fortes, de Raoul Ruiz, The Center of the World, de Wayne Wang, Trouble Every Day, de Claire Denis, e Apocalipse Now, de Francis Ford Coppola, entre outros.O grande destaque fora de competição é, sem dúvida, a obra-prima de Coppola, com 40 minutos a mais da versão que chegou aos cinemas e que dividiu a Palma de Ouro em 79 com O Tambor, de Volker Schlondorff.Na mostra paralela Un Certain Regard, destacam-se R-Xmas, do underground Abel Ferrara, No Such Thing, do talentoso e antiilusionista Hal Hartley, Storytelling, de Todd Solondz, e The Aniversary Party, dirigido pela dupla de atores Jennifer Jason Leigh e Alan Cumming, que trabalharam juntos na última montagem de Cabaret na Broadway.Brasil - O País está representado em Cannes apenas com o curta-metragem As Mulheres Choradeiras, de Jorane Castro, co-produção com a França, com exibição programada para a Quinzena dos Realizadores.Haverá também uma retrospectiva intitulada A Era de Ouro da Comédia Americana, com filmes de Charles Chaplin, Frank Capra, George Cukor, Ernest Lubitsch e Billy Wilder.Há ainda as projeções do concorrido mercado de filmes, com mais de 2 mil títulos, por onde devem passar mais de 5 mil participantes de 70 países.

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