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Com personagens dignos de filme de terror, 'O Banquete' coloca em discussão a elite brasileira

Filme de Daniela Thomas tem ousadia estética e faz retrato feroz da burguesia nacional

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

17 Setembro 2018 | 06h00

Na apresentação de O Banquete para uma plateia de convidados, em São Paulo, Daniela Thomas reconheceu que conhecia todo o mundo e estava entre amigos – “Vocês vão ser tolerantes com os defeitos do filme.” Acrescentou que o grande desafio de O Banquete foi também o melhor presente que o filme lhe proporcionou – o trabalho com os atores. “Não estou querendo me comparar a (Ingmar) Bergman, gente, mas acho que conseguiu aqui uma cumplicidade e uma entrega dos atores que é o que mais me encanta nos filmes dele.”

Há quase um ano, após a polêmica que Vazante provocou no Festival de Brasília, Daniela foi entrevistada pelo Estado. Antecipou o compromisso estético de O Banquete. ”Queria fazer o filme todo num único plano e ensaiamos bastante para isso, mas não deu. Fui obrigada a cortar, e mesmo assim quis manter os planos longos, que favorecem a interpretação.” O Banquete passa-se num só ambiente, ao redor de uma mesa, na qual se reúnem os convidados para uma celebração. O que se celebra são os dez anos de relacionamento do dono de um jornal com atriz de teatro. Mas justamente nesta noite há uma crise anunciada – ele afrontou o Presidente da República com uma carta aberta e agora corre o risco de ser preso.

Pelo menos esse episódio é real, e inspira-se no que ocorreu com o jornalista Otávio Frias Filho no governo de Fernando Collor de Mello. No filme, Frias é identificado com outro nome, mas não há dúvida de quem se trata. Para complicar, ele morreu pouco antes da apresentação do filme no Festival de Gramado. A diretora retirou O Banquete de concurso, e o filme não foi exibido. Polêmica, de novo, após Vazante, não, foi o que pensou Daniela. Polêmica, de qualquer maneira, haveria, e há. Se o partido técnico e estético de O Banquete é ousado – planos sequência, câmera grudada nos atores, muito diálogo (teatralidade?) –, tudo isso pode ser discutido, mas é interessante. O problema está no Brasil que queremos e o que o filme revela. Ao redor da mesa, a elite. Servindo, a classe... Operária? “Menino, garoto”, chama a anfitriã, que sequer se dá ao trabalho de descobrir o nome do garçom. A ‘tal’ celebração é uma armadilha, e vira lavagem de roupa suja.

O jornalista priápico já foi amante da anfitriã, da crítica de teatro. Apesar disso, ele é dos personagens íntegros à mesa, com a crítica e a atriz, que, humilhada, vira o jogo e usa sua arte para se impor. De resto, ninguém presta, ninguém é normal, e a dona da casa, interpretada por Drica Moraes, é um monstro. Se Otávio Frias Filho é o homenageado, quem é ela? Independentemente de quem seja, essa visão da elite, na véspera da eleição, conclama o público a votar em candidatos populares.

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