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Com o filme 'Beiço de Estrada', Darlene Glória retoma a carreira abandonada em 1974

Atriz alcançou o estrelato do cinema brasileiro com Toda Nudez Será Castigad

Lúcio Vilar - ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

25 Dezembro 2016 | 04h00

JOÃO PESSOA  - Quatro décadas atrás, um filme fez história e marcou definitivamente a trajetória de uma atriz no ápice de seu esplendor juvenil e profissional. Pelas mãos - e lentes - do cineasta Arnaldo Jabor, Darlene Glória alcançaria o estrelato do cinema brasileiro com Toda Nudez Será Castigada, baseado em obra homônima do dramaturgo Nelson Rodrigues. Recordista de bilheteria, no Brasil, o longa-metragem integrou a mostra competitiva dos festivais de Berlim e Gramado, de onde saiu duplamente premiado, inclusive com um Kikito de melhor atriz para ela. Nunca mais a vida seria a mesma para a menina do interior do Espírito Santo que encarnou a prostituta Geni, personagem que incendiou literalmente o imaginário nacional da época.

Todavia, entre ocupar um privilegiado lugar no star system brasileiro, com ressonâncias internacionais, e o inesperado mergulho no ocaso, foi apenas um pulo: a atriz - cuja iniciação precoce aos 16 anos passou pelo circo e concursos de miss - abandonaria a carreira em 1974 em meio a problemas derivados do álcool e abuso de outras substâncias químicas, tornando-se reclusa e inacessível na condição de evangélica adotada a partir de então.

“Eu tinha um sonho, mas sempre trabalhei para postergar a glória, porque sempre me diziam que ao chegar ao topo, o que vem em seguida é a descida, é a queda”, revelou a atriz que esteve na Paraíba em novembro e dezembro, no município de Cabaceiras, para as filmagens do longa-metragem Beiço de Estrada, do diretor local Eliézer Filho. Foi o paraibano quem lhe propôs um novo recomeço; na pele, outra vez, de uma prostituta. Agora, com sotaque nordestino.

Darlene contou que abraçou o roteiro “com paixão”, assim como lhe ocorreu em Toda Nudez..., e que uma sinergia envolveu a todos da equipe na Paraíba, sentimento análogo ao que lembrou ter permeado a direção de Jabor e a atmosfera de “comunhão total” no set. “Toda a equipe entrou no mesmo espírito em 1973, e isso se repetiu aqui no Cariri paraibano”, reiterou.

Outra semelhança, e que a atriz ainda não havia se dado conta, é que ambos os filmes têm base dramatúrgica teatral e procedem de montagens bem-sucedidas nos palcos brasileiros em épocas históricas distintas. A peça de Nelson Rodriguez fez estrondoso sucesso em 1965, com a saudosa Cleide Yáconis no papel de Geni; Beiço de Estrada, por sua vez, espetáculo concebido pelo encenador Eliézer Filho, conquistou a crítica do Sudeste e foi premiada pelo projeto Mambembão, em 1984.

Seu receio para assumir o papel de Madame Lili na produção paraibana era a escassa familiaridade com a região, sua cultura e respectivos falares. A solução encontrada foram aulas intensivas com uma fonoaudióloga e com o próprio diretor, que consumiram 15 dias da pré-produção, mas com efeitos extraordinários, segundo ele. Embora tenha reclamado, na entrevista, do “confinamento”, em João Pessoa, para dar conta do laboratório nordestinês, admitiu que a estratégia meio que “juntou a fome com a vontade de comer”. No elenco do filme, que vai discutir a prostituição infantil e que tem previsão de lançamento até o fim de 2017, Darlene Glória contracena com dois rostos conhecidos da televisão brasileira, o ator Jackson Antunes e a atriz Mayana Neiva.

Serena, mais comedida com o álcool, embora sem abrir mão de um bom vinho, Darlene Glória revisitou o passado e expôs o que pensa, hoje, na entrevista que concedeu após a solenidade de encerramento do 11.º Fest Aruanda, de João Pessoa. Confira trechos de principais tópicos abordados.

PS

“Fui parar no Pinel e me diagnosticaram com PS (abreviatura para Potencial Suicida). A verdade é que nunca desejei morrer, acontece que a minha carência interior era maior que a droga mais potente. Tomava remédio para dormir, pra acordar, para ficar feliz... Ou seja, eu me matava quimicamente, daí que passei pelo candomblé, psicanálise, orientalismos, etc., até encontrar Jesus Cristo.”

Mídia

“Corro da mídia como o diabo foge da cruz... Por quê? Por um sentimento único de autopreservação. Fui muito ingênua no passado, o próprio Lima Duarte já me disse isso.”

Desafios?

“Não vou mais trabalhar de graça. Enriqueci muita gente da área de produção, de direção, de maneira que não vou mais sair de casa por qualquer quantia. Aliás, não tenho que provar mais nada, vamos combinar. Eu nunca fiz um papel pequeno, eu brilhava... Portanto, pode anunciar aí: morreu a ‘rainha’ das participações especiais, fiz muito isso a vida toda; agora, meu bem, never!”

Filme Aquarius

“Não vi, nem quero ver... Aquele protesto deles em Cannes execrou a imagem dos brasileiros, não dignificou em nada o Brasil, em minha opinião; deveriam estar isentos de qualquer manifestação política naquele local tão especial.”

Telenovela

“Jamais assisto a novelas, aliás, quase nunca assisto à tevê aberta, prefiro as tevês a cabo, onde aprecio muito filmes antigos, a Netflix; é por aí que estão minhas afinidades e consumo na tranquilidade de nosso pequeno paraíso que é Teresópolis.”

Brasil

“Está tudo muito deteriorado: Câmara, Senado e aquele outro edifício da praça... Esperança? Só com a volta de Jesus Cristo e no ‘apocalipse now’... E podem apostar: vai piorar.”

Igrejas evangélicas

“Há um comércio generalizado das coisas santas, do sagrado, tudo muito decepcionante. Hoje, me basta Jesus Cristo, meu único herói.”

Atua como possuída em 'Toda Nudez Será Castigada' - Luiz Zanin Oricchio

Há um grão de loucura na interpretação de Darlene Glória em Toda Nudez Será Castigada, no qual dá vida à prostituta Geni, casada com um burguês decadente. O filme abre com o marido dirigindo o carro pelo Rio até ganhar o subúrbio rumo ao casarão da família. Ao chegar, buquê de flores na mão, encontra o gravador no qual a esposa deixou recado. Volta a fita e ouve (ouvimos) a voz rouca e desesperada de Darlene: “Herculano, quem fala é uma morta! Eu me matei”...Você pensa que sabe de tudo e você não sabe de nada…”. Tem início então o longo flashback, que se encerra com a volta à cena inicial e já com as imagens de Darlene Glória, pulsos cortados, envolta no lençol branco tinto de sangue. Tango de Piazzolla ao fundo e fotografia de Lauro Escorel puxada no vermelho para esta tragédia de Nelson Rodrigues adaptada por Arnaldo Jabor.

 

O conjunto do filme é fantástico, mas o que permanece na memória é mesmo Darlene, com seu olhar ao mesmo tempo espantado, malicioso, voraz e desesperado. A voz, a imagem corporal, o andar, os gestos, a composição genial da mulher trágica. Nunca, antes ou depois, atingiu tamanha verdade em personagem dramática. 

Papéis não faltaram nessa carreira iniciada ainda em Cachoeiro de Itapemirim, com presença em grandes filmes como São Paulo S/A, de Luís Sérgio Person, e uma ponta em Terra em Transe, de Glauber Rocha. A vida intensa, irregular, complicada, a ligação com o policial do Esquadrão da Morte Mariel Mariscot (com quem teve um filho), a conversão religiosa, as idas e vindas, entre drogas e álcool - tudo isso compõe a paisagem agreste da trajetória artística de Darlene, expressa naqueles olhos inquietantes de Geni. O ator Selton Mello teve olho para escalá-la em seu filme de estreia como diretor, o decadentista Feliz Natal. Nele, Darlene, agora como matriarca, está de novo magnífica. É como se a Geni de 1973 reencarnasse na Mércia de 2008, 35 anos mais velha, mas ainda fiel depositária de todos os males, pulsões, taras e contradições da família. Só Darlene mesmo para carregar esse carma. 

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