Pagu Pictures
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Com o filme 'A Vida em Família', diretor Edoardo Winspeare quer celebrar o bem

Diretor de ‘A Vida em Família’ conta como a região da Puglia e o papa Francisco foram inspiradores para ele

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

06 Setembro 2018 | 06h00

No original, chama-se La Vita in Comune, A Vida em Comum. No Brasil, ficou A Vida em Família. O longa de Edoardo Winspeare integrou a recente 8 1/2 Festa do Cinema Italiano. Em Veneza, no ano passado, integrou a programação das mostras paralelas. Winspeare conversa pelo telefone com o repórter do Estado. Arrisca algumas palavras em português. “Aprendi com uma namorada brasileira”, conta. Há 25 anos, foi assistente de direção de um longa europeu rodado no Brasil – nov a oportunidade para incrementar a língua.

Vida em Comum, Vida em Família. Um assaltante vai preso depois de ficar paralisado numa tentativa de assalto que resultou na morte de um cão. Na cadeia, desenvolve sua veia poética num curso ministrado pelo prefeito da cidade. Lá fora, seu irmão tenta convencer o sobrinho – filho do apenado – a seguir a carreira familiar no crime. O irmão preso resolve pedir a ajuda divina para salvar o filho. Escreve uma carta ao papa. E Francisco intervém.

Winspeare conversa com o repórter de Depressa, uma cidadezinha de 1.500 habitantes situada na região da Puglia. É onde mora, é onde gosta de filmar. Depressa, no filme, vira Disperata. Embora o nome evoque desespero, Winspeare filma para afirmar o bem. “Sou esse sujeito que não perdeu o idealismo e ainda acredita na humanidade. Posso ser meio anacrônico nesse mundo cínico, mas como me cerco de pessoas também do bem me sinto blindado.” O protagonista é interpretado por seu sócio na empresa produtora. A única mulher importante na trama é sua mulher de verdade. No filme, todo mundo fala um dialeto – o salentino. “A Itália deve ser um dos países com mais dialetos do mundo. Toda região tem o seu, e até vários. Em casa, falamos o salentino, o vêneto e o italiano.”

A ideia desse filme há muito tempo perseguia Winspeare. “Desde sempre – quando jovem, passei um ano interno num instituto. É o tipo de experiência que pode ser traumática ou transformadora. Para mim foi transformadora. Como o cinema é o meu métier, cheguei a pensar num curso de roteiro, em vez de poesia. Optei pelo último. Embora ficcional, baseada no meu desejo de transformar as pessoas e o mundo, a história é embasada na realidade. Não sei se você sabe, mas Francisco, no seu papado, tem selecionado pessoas anônimas com as quais se comunica. Acho seu exemplo inspirador.” Winspeare admira os cineastas que define como ‘empenhados’, mas se poderia dizer também engajados. Sergei M. Eisenstein, Glauber Rocha, Luchino Visconti estão todos no seu panteão, mas há um mestre – italiano – por quem ele tem um encanto especial.

“Gosto muito de Vittorio de Sica porque, embora fizesse um cinema comprometido socialmente, se permitia sonhar. Milagre em Milão é um dos meus filmes do coração. De Sica não tinha medo de ser realista, mas fugindo ao dogmatismo. Sabia ser poético, grotesco. O que lhe interessava era servir ao humano.”

Quando vir o filme, você vai perceber de cara sua riqueza cromática. A igreja na praça central é feita de pedra rosada e o bar, quase ao lado, possui uma tonalidade de azul muito interessante. “Que bom que você notou isso. O rosa é de uma pedra tradicional, um tipo de mármore da Puglia. O bar não existe. Foi criado para o filme, com aquela cor. Você sabe. O cinema é uma arte visual. É preciso pensar nesses detalhes.” O filme é totalmente escrito ou...? “Sempre houve espaço para improvisação. A briga dos irmãos bandidos, quando um conta que quer acabar com a vida no crime, foi quase toda improvisada.”

 

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