Fox Film do Brasil
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Com Melissa McCarthy, ‘Poderia me Perdoar?’ mostra a volta por cima de uma falsária

Melissa McCarthy está ótima como a escritora falida que encontra um meio de subsistência pouco ortodoxo

Luiz Zanin Oricchio, Impresso

22 de fevereiro de 2019 | 06h00

Poderia me Perdoar? conta uma história de redenção encantadora e pouco exemplar. O filme de Marielle Heller é baseado na trajetória da americana Lee Israel (1939-2014). Autora de biografias que vendiam bem, Lee tornou-se fora de moda. Ninguém desejava mais editar seus livros e sua agente lhe recomendou mudança de forma de escrever e uma boa repaginada nas roupas e no comportamento social para reintegrar-se ao mercado. Lee bebe demais e não parece empenhada em fazer afagos às pessoas certas.

Em falta de opção, encontra um meio de subsistência pouco ortodoxo ao perceber o fetiche do público por cartas assinadas por personalidades como Katharine Hepburn e Dorothy Parker. Aliás, a frase que dá título ao filme consta de uma das cartas de Dorothy, roteirista, escritora e uma das penas mais ferinas de Nova York nos tempos do Bar do Hotel Algonquin, em cuja mesa redonda também pontificavam Harpo Marx, Georges Kaufmann e Noël Coward.

Quem está ótima no filme é Melissa McCarthy como Lee Israel. Trata-se de um papel que exige um anticharme absoluto. Melissa faz alguém que não se conforma com a sombra e o fim. Em um apartamento em ruínas e atulhado de papéis, vive com um gato e está sempre com o aluguel atrasado e perseguida pelo senhorio.

Melissa não brilha sozinha. Contracena com o grande cômico inglês Richard E. Grant, este no papel de um outsider encantador, Jack Hoch. Ambos estão indicados para o Oscar, Melissa ao de melhor atriz e Grant ao de ator coadjuvante. O filme ainda concorre à estatueta de roteiro adaptado.

É um filme de sutilezas e, por isso, precisava de um par tão afinado quanto Melissa e Grant para não destoar. São dois “perdedores”, habitantes da periferia social em uma sociedade que só pensa no sucesso. São personagens dramáticos, mas a história deles é temperada por aquela comicidade lúcida e seca, típica de gente inteligente capaz de olhar a si mesma com humor e distanciamento.

Lee faz o que faz porque precisa sobreviver. O mesmo para Hock, que também precisa satisfazer seus caprichos aristocráticos e, na prática, não tem onde cair morto. Curiosamente, os delitos de Lee estão baseados numa fraqueza da sociedade, a paixão por objetos fetiches, que foram escritos e assinados por pessoas famosas e já mortas. Há todo um mercado em torno dessas raridades e o filme de Marielle Heller descortina algumas picaretagens meio que aceitas por todos, como o tráfico de “autenticações” de documentos de origem duvidosa.

Quando Lee passa a ser alvo de suspeitas, ela muda de técnica. Em vez da falsificação pura e simples, opta pelo furto de papéis autênticos, colocando cópias em seu lugar. O mesmo procedimento foi adotado pelo brasileiro Laéssio Rodrigues de Oliveira, retratado no documentário Cartas para um Ladrão de Livros, de Caio Cavechini. Apresentando-se como pesquisador, Laéssio tinha acesso às raridades e substituía documentos autênticos por cópias. Vendia os originais a colecionadores.

Desmascarada e processada, Leonore Carol ‘Lee’ Israel redimiu-se escrevendo sua autobiografia. O título ela tirou de uma frase de Dorothy ParkerCan You Ever Forgive Me? Paradoxalmente, foram seus delitos que a devolveram à sua profissão de origem. O livro autêntico da falsária foi um sucesso e esta foi de fato a sua volta por cima.

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