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Com Juliette Binoche, filme 'Vision' faz jornada de indagação existencial

Longa da diretora japonesa Naomi Kawase estreia nesta quinta-feira, 5; filme mostra mulher que procura, numa floresta, flor rara que nasce a cada 997 anos

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

05 de setembro de 2019 | 03h00

Há dois anos, Naomi Kawase participava da competição de Cannes com seu longa Esplendor. Interpretado por um ator fetiche, Masatoshi Nagase, conta a história de um fotógrafo que perde a visão e se envolve com mulher que trabalha na narração de filmes para deficientes visuais.

Naomi venceu o prêmio do júri ecumênico, que entendeu seu filme como um apelo à compaixão e à fraternidade, e como reflexão sobre o próprio cinema. De que maneira a imagem vira palavra? Naomi encontrou-se com o repórter do Estado. O assessor informara – “Ela sofre de problemas de coluna e está tendo uma crise terrível.” Mesmo assim, decidiria que não ia cancelar seus compromissos.

Ocorreu uma coisa curiosa. Naomi, sentada diante do repórter, falava com evidente dificuldade. Chegou o marido – ela o apresentou –, que se encaixou atrás dela e iniciou uma massagem. Naomi começou a relaxar. Suspirava e interrompia sua fala com pequenos gritinhos.

Para o repórter, era como se estivesse assistindo, como voyeur, a uma relação íntima do casal. Nenhum dos dois parecia minimamente perturbado com o que estava ocorrendo. Por que contar isso? Por causa de Vision, que estreia nesta quinta, 5, nos cinemas brasileiros. De novo Masatoshi Nagase e, agora, Juliette Binoche. Os dois têm uma ousada cena de sexo. Difícil não pensar naquele breve momento em Cannes.

Naomi encara o sexo como integração. Seu cinema busca sempre uma elevação. Em sua brilhante carreira, Juliette Binoche tem trabalhado com diretores que buscam colocar na tela o indizível e o invisível. Krzysztof Kieslowski (A Liberdade É Azul), Abbas Kiarostami (Cópia Fiel), Bruno Dumont (Camille Claudel).

Vision mostra mulher que procura, numa floresta, flor rara que nasce a cada 997 anos. Vision, a planta – mítica como aquela que o explorador procurava na floresta amazônica em O Abraço da Serpente, do colombiano Ciro Guerra – possui propriedades terapêuticas. Cura a dor, ilumina o conhecimento. Pode ser a salvação da humanidade.

Juliette, aparentemente, já esteve nessa floresta. Havia um homem – japonês – mais novo. Seu amante? Agora ela busca a idosa que é a guardiã das floresta. Encontra o homem, Masatoshi. O diálogo é muitas vezes intencionalmente vago. A guardiã cega diz que nasceu há mil anos (como a flor?) e afirma que é preciso enxergar com os olhos do coração, um tema presente em Esplendor. Diante de Jeanne/Juliette, faz uma afirmação enigmática – “Então, era você!” 

Muito ou nada

Dependendo do olhar de quem assiste aos filmes de Naomi, ou que esteja familiarizado com o universo contemplativo da autora, tudo isso pode significar muita coisa, ou nada. Desde que estreou no curta, com Em Seus Braços, em 1992, Naomi tem alternado ficção e documentário.

Tornou-se habitué em Cannes, onde recebeu a Caméra d’Or, a Palma de Ouro dos diretores iniciantes, por seu primeiro longa em 35 mm, Suzaku. Naomi fez história como a mais jovem diretora a vencer o prêmio – tinha 28 anos. Voltou muitas vezes à Croisette, inclusive com Floresta dos Lamentos, em 2007, e Still the Water, em 2014.

Pelo segundo, provocou o movimento inverso ao que certamente pretendia. Disse que era sua obra-prima e que, mais que tudo, após a Caméra d’Or, sonhava com a Palma de Ouro. Chegou a sugerir que a merecia, jogando para o júri a responsabilidade de atribuí-la, ou não. O júri, imune à pressão, a ignorou. No ano seguinte, de volta a Cannes com O Sabor da Vida, estava escaldada, mas não escondia a decepção.

Apesar do prestígio, Naomi faz um cinema considerado exigente demais para o grande público, na contracorrente das tendências mais comerciais. Em Nara, onde reside, promove todo ano um festival de cinema de autor que tem a cara dela. Filmou Vision ali perto, numa floresta que afirma conhecer.

A presença de Juliette Binoche no elenco e o fato de o filme haver estreado em Toronto, e não em Cannes, levou a crítica a atribuir ao filme uma espécie de flerte da autora com um segmento mais popular. Toronto, afinal, costuma ser uma das vitrines do Oscar.

Há 12 anos, em Floresta dos Lamentos, Naomi contara a história de um idoso num asilo. Há 33 anos ele escreve cartas para a mulher que morreu. Com base em ensinamentos budistas, acha que chegou o tempo de partir. Acompanhado por sua cuidadora, embarca numa jornada de dois dias que os conduz à floresta do título. Perdem-se, e o conceito do filme é que, às vezes, é preciso abrir mão de tudo para se encontrar interiormente, ou encontrar o sentido da vida.

É, outra vez, o que está em discussão na floresta de Vision. A humanidade tem esperança? De forma não narrativa, nem linear, Naomi Kawase valoriza o silêncio – Masatoshi e Juliette quase não se falam – e cria cenas que encantam pelo apuro audiovisual. A trilha de Makoto Ozone e o desenho de som de Roman Dymny viram personagens, como a floresta misteriosa. É como se o espectador estivesse sonhando acordado. Naomi faz um cinema de perguntas, não de respostas.

Veja o trailer de Vision:

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