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Com 'Horizonte Profundo', Peter Berg propõe trama de sobreviventes

Diretor lança formato diferente para o protocolo de segurança desse tipo de filme

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

10 de novembro de 2016 | 22h50

Como ator, Peter Berg participou de filmes como Colateral, de Michael Mann, com Tom Cruise, e Cop Land, de James Mangold, com Arnold Schwarzenegger. Não chegou a marcar muito, ou a corresponder à impressão que havia deixado antes em O Poder da Sedução, de John Dahl, como o otário seduzido por Linda Fiorentino como parte de um plano para extorquir dinheiro do marido. Linda talvez tenha sido a femme fatale mais ordinária de Hollywood, e numa cena-chave pegava a genitália de Berg e cheirava a mão para ver se ele era limpinho, portanto, aproveitável. Uma cenas dessas (em 1994) seria inimaginável na Hollywood do auge do filme noir.

Peter Berg virou diretor – de ação. O Reino, com Jamie Foxx; Battleship – Batalha nos Mares, com Taylor Kitsch; O Grande Herói, com Mark Wahlberg. Sua nova parceria com Wahlberg, Horizonte Profundo – Tragédia no Golfo, desvia-o um pouco dessa trajetória, e para melhor. O trailer não vende uma ideia muito correta do filme. Parece um disaster movie daqueles bem heroicos. Explode a plataforma marítima e Wahlberg fica gritando que precisa voltar para a mulher e a filha. O drama, pois é um drama, é muito mais resistente.

Logo na abertura, o som precede a imagem, e é um interrogatório. Uma comissão do Senado investiga o tal desastre no golfo, do México, quando uma plataforma de petróleo explodiu, matando 11 pessoas e produzindo um desastre ecológico. Quando vem a imagem, rapidamente se desenha uma situação de conflito. A equipe (Wahlberg, o superintendente Kurt Russell, a oficial Gina Rodriguez) está voltando de uma folga para a plataforma. Russell está preocupado com o protocolo de segurança. Interpela John Malkovich, que representa a empresa a bordo. A norma de Malkovich é economia. Por que uma empresa de US$ 14 bilhões vai despender US$ 140 mil (1% de seu faturamento) num teste de segurança?

Ocorre o que você imagina – a explosão, a morte de um monte de gente. No começo dos anos 1970, em plena crise produzida pelo escândalo Watergate, os disaster movies obedeciam a um protocolo, e era de segurança. O policial, o bombeiro estavam a postos para garantir a lei e a ordem em Terremoto, O Inferno na Torre, Pânico na Multidão e Domingo Negro. Quase nos anos 2000, em Inferno de Dante, a ideia era celebrar a tecnologia – aviões indestrutíveis, pneus que resistiam à lava de vulcões. E, agora, o disaster movie, cai na real. No mundo global, vidas são sacrificadas em nome da lucratividade e da competitividade.

Nesse quadro, Horizonte Profundo é menos um filme sobre heróis que um filme, na tradição de Sam Fuller, sobre sobreviventes. Sólido, vigoroso, bem feito. A enquete do começo termina com um letreiro no final. Tudo o que o filme mostra não serviu de nada para a Justiça. O capitalismo é absolvido, pobres mortos. O gosto não é de vitória, mas sobreviver é preciso.

 

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