Hannibal Hanschke/Pool via Reuters
Hannibal Hanschke/Pool via Reuters

Com 'Drive My Car', Ryusuke Hamaguchi trilha caminho de sucesso de 'Parasita', de Bon Joon-ho

O filme do diretor japonês trata de luto e arte e se tornou o mais provável sucesso do Oscar da temporada

Kyle Buchanan, The New York Times

05 de março de 2022 | 10h00

Em janeiro de 2020, apenas algumas semanas antes de seu filme Parasita fazer história no Oscar, o diretor Bong Joon-ho estava em Tóquio fazendo uma entrevista para uma revista. Naquele momento, que acabou se tornando uma longa coletiva de imprensa, Bong obedientemente se sentou para dezenas de perfis, mas pelo menos um deles era intrigante: o entrevistador de Bong era Ryusuke Hamaguchi, um diretor em ascensão.

Para Bong, fã dos filmes de Hamaguchi Asako I & II e Happy Hour, esta foi uma boa chance de misturar as coisas. “Eu tinha muitas perguntas que queria fazer a ele”, lembrou Bong, “especialmente porque eu estava há muitos meses no processo de divulgação e estava muito cansado de falar sobre meu próprio filme”.

Mas Hamaguchi não seria dissuadido. Ele era um homem com uma missão - “agradavelmente teimoso e persistente”, como Bong se lembrava dele - e toda vez que um Bong brincalhão tentava virar a mesa e fazer algumas perguntas ao diretor mais jovem sobre sua carreira, Hamaguchi ficava cada vez mais sério e insistia que eles falassem apenas sobre Parasita.

“Eu realmente queria saber como ele fez um filme tão incrível, mesmo sabendo o quanto ele estava cansado de falar sobre Parasita”, disse Hamaguchi. “Eu senti pena dele, mas ainda queria lhe fazer perguntas!”

Agora, dois anos depois, Bong finalmente conseguiu o que queria: Hamaguchi, de 43 anos, é o homem do momento, e Bong está muito feliz em pegar o telefone e falar sobre ele. O filme de Hamaguchi, Drive My Car, um drama japonês de três horas sobre luto e arte, tornou-se o mais improvável sucesso do Oscar da temporada, recebendo indicações para melhor filme e filme estrangeiro, além de indicações para roteiro e direção.

Essas são as mesmas coisas pelas quais Parasita foi homenageado há dois anos, quando aquele thriller de luta de classes sul-coreano ganhou quatro Oscars e se tornou o primeiro filme em língua não inglesa a ganhar o prêmio de melhor filme.

Parasita abriu aquela porta muito pesada que permanecia fechada”, disse Hamaguchi por meio de um intérprete esta semana. “Sem ‘Parasita e suas vitórias, não acho que nosso filme teria sido tão bem recebido.”

Chamado de “obra-prima silenciosa” pela crítica do New York Times Manohla Dargis, Drive My Car segue Yusuke (Hidetoshi Nishijima), um diretor de teatro que lida com a morte de sua esposa enquanto monta uma produção de Tio Vânia em Hiroshima, Japão. A companhia de teatro atribui a ele um motorista, Misaki (Toko Miura), que o transporta para o trabalho em um Saab vermelho, enquanto guarda vastas reservas emocionais próprias. Embora Yusuke não goste a princípio da presença de Misaki, uma conexão - e depois uma confissão - é finalmente feita.

“Há muitos diretores que são ótimos em retratar personagens, mas há algo peculiar e único em Hamaguchi”, disse Bong por meio de um intérprete por telefone de Seul, Coréia do Sul. “Ele é muito intenso em sua abordagem dos personagens, muito focado e nunca apressa as coisas.”

Embora essa abordagem sem pressa possa resultar em um longo tempo de execução, Bong sentiu que as três horas de duração de Drive My Car apenas enriqueceram seu eventual impacto emocional.

“Eu compararia isso com o som de um sino que ressoa por muito tempo”, ele disse.

Talvez seja apropriado que a jornada da temporada de premiações do filme também esteja sendo construída lentamente. Ao contrário de “Parasita”, que chamou rapidamente a atenção após ganhar a Palma de Ouro no Festival de Cinema de Cannes, o íntimo Drive My Car (adaptado de um conto de Haruki Murakami) emergiu de Cannes no verão passado com um troféu de roteiro e pequenos burburinhos sobre o Oscar. Mas depois que grupos de críticos em Nova York e Los Angeles deram seu prêmio de melhor filme a Hamaguchi, o perfil do filme começou uma ascensão constante.

Ainda assim, o caminho para o Oscar está repleto de favoritos da crítica que não foram tão longe. Quando perguntei a Hamaguchi por que “Drive My Car” provou ser sua revelação, o diretor ficou perplexo.

“Sinceramente, não sei”, disse Hamaguchi. “Eu quero te perguntar. Por que você acha que isso aconteceu?"

Sugeri que, durante a pandemia, ficamos ainda mais afetados assistindo a personagens que desejam se conectar, mas não conseguem. Mesmo quando os personagens de Drive My Car dividem a mesma cama, o mesmo quarto ou o mesmo Saab, há um abismo entre eles que nem sempre pode ser fechado.

Hamaguchi concordou. “Estamos fisicamente separados e ainda assim podemos nos conectar online”, ele disse. “É aquela coisa de estar conectado e, ao mesmo tempo, não estar.” /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

 

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.