Com direção de Stephen Daldry, filme 'Trash' narra uma fábula de forma realista

Diretor Stephen Daldry, roteirista Richard Curtis e elenco do longa explicam como o filme colocou na tela os nossos 'Marlon Brandos'

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

09 de outubro de 2014 | 03h00

Stephen Daldry admitiu para o repórter do Estado que fica sempre nervoso em pré-estreias, mas o caso de Trash - A Esperança Vem do Lixo era especial e ele estava ainda mais ansioso. Citou a diferença de cultura, de idioma. A ansiedade foi-se diluindo durante a sessão oficial de Trash no Festival do Rio, na noite da última terça-feira. A reação do público foi descontraindo o diretor. O aplauso final, mesmo vindo de uma plateia de convidados, lavou sua alma. Na festa, estava feliz. 

Trash estreia nesta quinta-feira e pode até ser que a crítica não seja tão generosa quanto a plateia de vips que aplaudiu o filme no Rio, mas isso também seria compreensível. O filme brasileiro do diretor de Billy Elliot, As Horas e O Leitor propõe o que não deixa de ser uma contradição em termos. Narra uma fantasia - uma fábula - de forma realista. Cidade de Deus de um ângulo em que Zé Pequeno não abre carreira no tráfico, mas combate a violência e a injustiça, a polícia e os políticos violentos e corruptos.

Como disse o roteirista Richard Curtis ao repórter, “pensava que fazíamos um filme sobre a caçada a uma carteira desaparecida, mas descobri que, na verdade, nosso filme fala de esperança.” Um trio de garotos vence tudo e todos. Impossível? Talvez improvável, mas a mágica de Daldry consiste em tornar a fantasia do livro de Andy Mulligan possível.

Wagner Moura, que não tem por hábito elogiar impunemente, disse na coletiva de Trash, no Rio, que Stephen Daldry é um artista “muito genial” e que é muito bacana ter um diretor como ele “olhando o Brasil desse jeito”. E que jeito é esse? Com esperança, como o público poderá verificar a partir desta quinta em salas de todo o País. Selton Mello pagou o que não deixa de ser um tributo ao diretor inglês - “Trash marca meu renascimento como ator. Investi tanto na direção que fui perdendo o interesse pela representação. Stephen me fez recuperar o brilho do olho. E ele me propôs esse personagem violento e corrupto que nunca fiz antes. Nenhum diretor brasileiro jamais me propôs um papel desse. Só posso agradecer.”

Foram estranhos os caminhos que terminaram por fazer de Trash um filme brasileiro. O produtor Kris Thykver tem uma amiga editora que lhe enviou, em 2010, a prova do que seria o novo livro de Andy Mulligan. Ele leu - uma aventura infantojuvenil - e imediatamente tratou de adquirir os direitos. Enviou a sinopse a três ou quatro diretores. Stephen Daldry respondeu de cara. No livro, a ação situa-se num país - pobre, do Terceiro Mundo - que não é identificado. Kris chegou a pensar em parcerias com a Índia e as Filipinas, mas Stephen Daldry conhecia Fernando Meirelles (e admira Cidade de Deus). A O2 tornou-se a parceira internacional de Trash, mas havia um problema - o roteirista Richard Curtis, de Quatro Casamentos e Um Funeral e Simplesmente Amor, não queria apenas traduzir seus diálogos do inglês para o português.

Graças ao empenho de uma equipe - de atores e técnicos - que Daldry, Curtis e Thykver definem como ‘fantástica’, Trash foi se fazendo brasileiro. Dois garotos num lixão. Um deles encontra uma carteira com dinheiro e algo mais, uma mensagem e uma chave. Um terceiro garoto junta-se à dupla original e o trio segue pistas que foram deixadas pelo personagem de Wagner Moura. Os três viram alvo de uma caçada humana, e terminam por expor a corrupção e a violência de policiais e políticos. O livro de Andy Mulligan é uma fantasia - uma fábula. Contra tudo e todos, mas com alguma ajuda - do padre e da voluntária que trabalham na missão do lixão -, os garotos, com risco de vida, conseguem dar a volta por cima. É um filme que tem ação, humor, drama, suspense. É uma aventura, narrada realisticamente, no estilo urgente de Cidade de Deus (ou quase).

Wagner Moura matou a charada. “Não acho que seja um filme político, mas tem a política como um dos elementos presentes. Traz isso na figura do meu personagem, que influencia a ação das crianças. Elas podiam escolher o caminho mais fácil, mas optam pelo mais difícil, guiadas pelo espírito, pela atitude dele”, explicou o ator na coletiva. Existem os garotos, Wagner, com quem eles não contracenam - o personagem aparece rapidamente no começo e, depois, só em flash-back - e o policial violento de Selton Mello, disposto a matar - se preciso - para manter o corrupto sistema vigente. Trash começou a ser filmado em agosto de 2013, no Rio. Antes disso, Daldry e seu roteirista já percorriam a rota Londres/Rio/Londres para fazer pesquisas e escolher atores. Pouco mais de um ano depois, Trash estreia em 250 salas de todo o Brasil. E mesmo que Daldry tenha admitido (no texto da capa) sua ansiedade antes da estreia, seus filhos e os do roteirista Richard Curtis aprovaram Trash. “É bom não esquecer que se trata de um kid’s movie”, adverte Curtis.

Embora importantes, os personagens de Martin Sheen (o padre) e Rooney Mara (a voluntária) são apenas delineados e não oferecem grande possibilidade de criação para a dupla. Ambos são ‘engolidos’ pelos atores brasileiros (Wagner Moura, Selton Mello, José Dumont, André Ramiro). Os garotos, escolhidos em comunidades, são sensacionais. Boa parte, senão toda a emoção do filme, vem do trio formado por Rickson Tevez (Raphael), Eduardo Luís (Gardo) e Gabriel Weinstein (Rato). Na coletiva, José Dumont, a quem Wagner chamou de “maior ator brasileiro”, comparou-os a pérolas e disse que, depois da América, chegou a vez de o Brasil mostrar “nossos Marlon Brandos”. E acrescentou - “Se a gente não olhar para essa juventude com confiança no futuro, então não vale a pena (fazer o filme). Trash recupera a esperança."

TRASH - A ESPERANÇA VEM DO LIXO

Direção: Stephen Daldry. Gênero: Aventura (R.Unido/2014, 114 min.). Classificação: 14 anos.

ENTREVISTAS

Stephen Daldry - DIRETOR

'Gosto de ver o mundo adulto pelos olhos das crianças'

O que havia de tão atraente no projeto para você querer fazer o filme?

O mundo infelizmente se transformou num grande lixão e a possibilidade de contar a história de crianças que conseguem superar a adversidade desse meio hostil me seduziu muito. É o que Richard (Curtis, roteirista) diz - pensávamos estar fazendo um thriller sobre uma carteira desaparecida e descobrimos que estávamos filmando a esperança, uma coisa necessária no mundo atual.

Qual sua maior dificuldade nesse filme?

Filmar em outro país, com outra cultura, outra língua, sempre pode ser difícil, mas tive os melhores colaboradores do mundo. Toda a equipe brasileira foi incrível. Abraçaram o filme como uma coisa deles. Terminei aprendendo um pouco de português, de ouvido, mas o que me emocionava era o brilho no olho das crianças. Mesmo sem entender tudo, eu percebia a sinceridade e sabia que elas haviam chegado lá.

Por que tantos filmes (Billy Elliot, O Leitor, etc.) com crianças?

O primeiro surgiu meio por acaso, mas percebi que era possível retratar o mundo adulto com olhos infantis. É o que venho fazendo, desde então.

Richard Curtis - ROTEIRISTA

'Viver é mais importante que filmar e, por isso, estou parando'

Você ficou conhecido por suas comédias românticas. Como foi mudar o tom para construir agora uma fábula realista?

Mas eu não mudei. Quando escrevi Notting Hill, Simplesmente Amor, não pensava no formato comédia romântica. Pensava nas pessoas e tentava ser verdadeiro. Realista como você diz. Todos os meus filmes falam de afeto, de amizade, de valores, e isso está presente em Trash.

Por que adotar aquele formato do depoimento das crianças para a câmera de Olivia (Rooney Mara)?

Foi minha primeira proposta para Stephen (Daldry). O livro adota os diferentes pontos de vista das crianças e eu queria que isso passasse para o filme. Adoro Woody Allen, (Ingmar) Bergman, quando os atores encaram a câmera.

A adversidade, a pobreza, a superação. Por que filmar isso?

Vivemos num mundo que poderia erradicar a pobreza absoluta, mas falta vontade política para isso. É preciso devolver a esperança, fazer com que os pobres assumam sua força. É o que ocorre no filme.

Você está anunciando que vai parar com o cinema. Por quê?

Para viver a vida. Viver é mais importante que filmar. Quero ver tudo, não apenas imaginar.

Selton Mello, ATOR

'Havia perdido o tesão como ator. Estou achando ótimo de novo'

Agora que você retomou o gosto pela representação, vamos ter mais Selton Mello como ator?

Muito mais. Faço, no ano que vem, meu próximo filme como diretor na serra gaúcha e também vou estar no próximo filme da argentina Lucrécia Martel, a quem admiro muito. Talvez surja uma minissérie como ator. Havia perdido o tesão de representar, mas recuperei com Trash e estou achando ótimo.

Você já dirigiu mais de 100 episódios na série Sessão de Terapia. Qual o reflexo na sua carreira?

Na de diretor, foi ótimo. A gente demora para fazer um filme, tem gente que fica anos captando. A prática enriquece. Embora seja TV e dê a impressão de ser um plano contínuo, Terapia tem decupagem de cinema. Corte, mudança de ângulo da câmera. E eu tenho de me exercitar com o elenco o tempo todo. É estimulante como exercício de criatividade. Aumenta a segurança.

É possível aprender com um diretor como Stephen Daldry?

Cara, ele é um gênio. Veio do teatro, saca tudo sobre o ator. Me propôs um personagem que nunca fiz antes. E tudo surgiu numa conversa. Stephen não precisou de teste. É isso, estou contratado, perguntei? Antes que eu, ele já sabia que daria conta.

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