Com 'Deus e o Diabo', Glauber coloca na tela o homem brasileiro

A ideia foi filmar com a câmera na mão, sem rebatedores, colocando na tela a luz áspera do sertão, a famosa 'estética da fome'

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

10 de julho de 2014 | 10h14

 

Em julho de 1963, há 51 anos, Glauber Rocha iniciou no sertão baiano, em Milagres, a filmagem de Deus e o Diabo na Terra do Sol. Naquele mesmo mês, no Rio, Nelson Pereira dos Santos já estava montando Vidas Secas, que adaptara do romance de Graciliano Ramos. Os dois filmes fariam história no Festival de Cannes do ano seguinte - em 1964 -, lançando internacionalmente o Cinema Novo e sua dilacerada estética da fome. É verdade que Nelson, mais que Glauber, criou o evento, e além dos prêmios, incluindo o da crítica, para Vidas Secas, foi preciso importar do Brasil a cadelinha Baleia, cuja 'morte' cênica provocara comoção no Palais. Naquele mesmo ano, Cacá Diegues integrava a seleção da Semana da Crítica com seu primeiro longa - Ganga Zumba. De volta ao Brasil, e aureolados do prestígio de Cannes, os filmes começaram a estrear.

Há 50 anos! Deus e o Diabo, o primeiro a chegar às telas do Brasil - em 10 de julho de 1964, três meses após a famigerada 'redentora' -, provocou tanta admiração quanta polêmica, mobilizando mais os críticos que o público. Glauber e o Cinema Novo queriam dar a medida do homem brasileiro, colocá-lo na tela, mas as plateias desertavam. Não se sentiam representadas, talvez, e não era porque havia - já - um abismo entre o Brasil urbano e o outro, o profundo, o rural, o sertanejo, o miserável. Era também uma questão de forma. Se havia divórcio entre autor e público, é porque o primeiro, o criador, estava à frente. Em seu livro Vida de Cinema, Cacá reflete sobre aquela fase e admite que, para ele, a mudança só veio em 1973, com Joana Francesa, quando percebeu, enfim, que épico brechtiano, distanciamento crítico e outros babados não deviam sufocar a emoção que passou a colocar na tela, revolucionando, dentro da revolução estética do Cinema Novo, o seu cinema.

Tudo isso é história, que hoje pode ser lembrada com serenidade. E, afinal, ninguém mais seria louco de tentar retirar o clássico de Glauber do panteão que ocupa no Olimpo do Cinema Brasileiro. Glauber, aos 24 anos, fez a sua escadaria de Odessa - em Monte Santo, quando Manuel (Geraldo del Rey) entrega a alma a seu santo - e criou cenas definidoras da nossa identidade. A movimentação antinaturalista de Othon Bastos como Corisco, sua cena de amor ao som das Bachianas, a corrida final de Manuel com a mulher, Rosa (Yoná Magalhães), ao som de Sérgio Ricardo ('O sertão vai virar mar/e o mar virar sertão...'), tudo isso hoje faz parte da brasilidade quanto as igrejas mineiras, os profetas do Aleijadinho, a arquitetura de Brasília, a Bossa Nova e os gols de Garrincha.

Como crítico, escrevendo na revista Mapa, em Salvador, Glauber ficara louco por um filme mítico, mas hoje esquecido - Raíces, do mexicano Benito Alazraki, uma coletânea brutal de histórias que misturava duas tendências antagônicas que haviam estabelecido o que ele chamava de 'maneira cinematográfica universal de pensar' - o formalismo do russo Sergei M. Eisenstein e a urgência neorrealista do italiano Cesare Zavattini. Conciliando as duas tendências ele concebeu a história do vaqueiro Manuel, que, com a mulher Rosa, vivia no sertão. Cultivavam sua terrinha, cuidavam do gado, mas nada daquilo era deles e a chegada do coronel desestabiliza o arranjo. Lançado no mundo, Manuel tenta uma via, a de Deus, por meio do Beato, que o leva a uma vida de penitência, e depois a do Diabo, quando se une ao cangaceiro Corisco para outra vida de pilhagens. As duas o alienam, e Manuel e Rosa terminam o filme correndo para o mar, como o garoto Antoine Doinel em Os Incompreendidos, de François Truffaut, um dos marcos definidores da nouvelle vague, que foi decisiva - por sua conceituação do 'autor' e redefinição dos meios de produção - para o Cinema Novo.

A estrutura bipolar, como na montagem de atrações de Eisenstein - Deus e o Diabo, o ditador e o demagogo em Terra em Transe, O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro -, será uma característica importante do cinema de Glauber, mas o filme que completa seu cinquentenário não teria sua aura particular se não fosse a forma audiovisual como o diretor conta sua história. Glauber filma com a câmera na mão, sem rebatedores, colocando na tela a luz áspera do sertão, a famosa 'estética da fome'. E adota o estilo do cordel, que alimenta a trilha de Sérgio Ricardo, como fio condutor. Isso era novidade em 1964 e continua muito forte hoje. O melhor é constatar que o partido estético do autor e o gosto do público finalmente se encontraram. Em sessões populares como outras de cinéfilos, Deus e o Diabo progressivamente conquistou seu público e hoje faz parte da lenda. Manuel, Rosa, Corisco viraram personagens míticos como o matador de cangaceiros de Maurício do Valle, com aquela capa preta e o parabellum na mão. 'Te entrega, Corisco!' Como um personagem de faroeste, Antônio das Mortes se tornou tão popular que voltou em O Dragão da Maldade, e foi com esse filme que Glauber, de volta a Cannes, ganhou o prêmio de direção. Mais uma vez, ele inovava a própria estética, introduzindo a cor. Não que isso seja necessário, porque, se a estética de Glauber é anticolonialista, fundada no transe (o cataclismo entre dois momentos históricos), não vamos nos impressionar com os admiradores internacionais que o filme dele tem. Mas como pode ser importante para muita gente que o tem em alta conta, vale destacar que Martin Scorsese tem verdadeira devoção por Deus e o Diabo.

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