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Com 'Creepy', Kiyoshi Kurosawa mostra gosto pelo terror psicológico

História é inspirada em caso de mais de 20 anos, em que um senhor pouco sociável escondia segredo sórdido no porão

Elaine Guerini, ESPECIAL PARA O ESTADO

16 de novembro de 2016 | 19h38

TÓQUIO - Na infância, o japonês Kiyoshi Kurosawa tinha medo da escuridão total da sala de cinema, segundos antes da projeção. “Ainda que meus pais me levassem para ver filmes inofensivos em Kobe, cidade onde nasci, sempre tive a impressão de o ambiente ser propício para evocar o obscuro e o impenetrável”, conta o diretor de 61 anos, sem laço de parentesco com o compatriota Akira Kurosawa (1910-1998).

A declaração explica o gosto do cineasta pelo terror psicológico, gênero que o consagrou a partir do fim dos anos 1990. Longe de buscar o susto fácil, ele é mestre em instaurar aos poucos uma atmosfera de mal-estar enquanto filma a vida de pessoas comuns, em que quase inevitavelmente o desconhecido e o sinistro começam a se manifestar.

É exatamente o que acontece em Creepy, a partir desta quinta, 17, nas telas brasileiras. Embora o Japão seja um país com taxas de homicídio entre as menores do mundo, Kurosawa buscou inspiração em caso de mais de 20 anos, em que um senhor pouco sociável escondia segredo sórdido no porão.

“A trama traz um pouco também da estranha relação que o povo japonês tem com seus vizinhos. Geralmente, damos presentes aos moradores próximos assim que nos mudamos. Depois, nunca mais falamos com eles”, contou Kurosawa ao Estado, no 49.º andar da Mori Tower, antes de receber o prêmio Samurai, pela sua contribuição artística, na recém-encerrada 29.ª edição do Festival Internacional de Cinema de Tóquio.

Creepy segue os passos de detetive de polícia (Hidetoshi Nishijima) que, após episódio traumático, opta pela aposentadoria e busca uma vida mais pacata no subúrbio de Tóquio, onde começa a lecionar sobre criminologia. Tudo vai bem até que sua mulher (Yuko Takeuchi) convida um vizinho (Teruyuki Kagawa) para jantar, deixando o marido intrigado com o seu comportamento excêntrico. Ao mesmo tempo, o ex-policial ainda é procurado por antigo colega de trabalho, que precisa de ajuda para resolver caso de sumiço de uma família inteira.

“Meus filmes costumam existir na brecha entre o ordinário e o extraordinário”, afirmou Kurosawa, mais lembrado por A Cura (1997), Pulse (2001) e Crimes Obscuros (2006), títulos com os quais ganhou a reputação de “Brian De Palma japonês”. “Não sei de onde vem isso”, disse, rindo. “Mas talvez faça sentido, já que De Palma se arrisca em outros gêneros, além do terror.”

Queridinho do circuito dos grandes festivais, Kurosawa conquistou o prêmio do júri da mostra Un Certain Regard de Cannes, em 2008, com Sonata de Tóquio, sobre a desestruturação de uma família japonesa com a demissão do patriarca. No ano passado, ele também foi reconhecido no festival francês, na mesma mostra, levando o prêmio de direção por Para o Outro Lado, drama metafísico sobre um marido que volta para casa três anos após ter supostamente morrido afogado.

“Fiquei mais conhecido pelo terror por ter apostado no segmento, ao lado de outros colegas, quando o Japão ainda não tinha essa tradição. Foi antes de Hollywood beber nos nossos filmes”, contou, referindo-se aos remakes de obras de Hideo Nakata, como O Chamado (2002), assinado por Gore Verbinski, e Água Negra (2005), de Walter Salles.

Depois de Creepy, Kurosawa filmou O Segredo da Câmara Escura, que foi uma das atrações da 40.ª Mostra de Cinema de São Paulo. Ainda sem lançamento definido no Brasil, o suspense rodado em francês resgata o mistério do daguerreótipo – aparelho arcaico de fotografia que capturava imagens de modelos que permaneciam horas sem se mover.

A história é ambientada em casa assombrada pelo espírito da mulher que posava obsessivamente para o marido fotógrafo (Olivier Gourmet). A tarefa torturante agora é da filha (Constance Rousseau), por quem o assistente de fotografia (Tahar Rahim) cai de amores, sem imaginar o preço do romance. “O filme é a minha resposta à mentalidade norte-americana que luta para destruir qualquer presença sobrenatural nos filmes. Por que não tentar entendê-los e até coexistir com eles? Talvez possamos aprender algo.”

 

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