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Com brilhante elenco feminino, 'Histórias Cruzadas' trata questão racial

Três atrizes do longa de Tate Taylor disputam o Oscar: Viola Davis, Jessica Chastain e Octavia Spencer

Fernanda Bramnilla - Jornal da Tarde ,

02 de fevereiro de 2012 | 10h03

Ambientar um drama racial em uma cidadezinha do Mississippi, nos anos 60, é dar a ele uma premissa de aridez de fazer espectadores se mexerem, desconfortáveis, em suas poltronas. No borbulhante espectro político americano, o presidente Kennedy bradava discursos sobre direitos civis, Martin Luther King marchava pelo país por liberdade, e ativistas eram mortos nas ruas desse mesmo Mississippi.

 

Nos subúrbios endinheirados, no entanto, essa tensão racial se pulveriza e se esconde atrás de sorrisos femininos bem distintos. De um lado, risos exagerados de moças bem-vestidas em tardes de bridge; do outro, semblantes forçadamente amarelos a combinar com o azul do uniforme de suas empregadas negras.

 

É justamente a suavidade do enfoque pinçado do contexto social histórico que dá força e enobrece a trama de Histórias Cruzadas, que estreia amanhã nos cinemas. E, por que não, aumenta suas chances de se impor como melhor filme na noite do Oscar. O longa, baseado no best-seller A Resposta (livro e filme, em inglês, foram batizados The Help, que remete aos ajudantes, às serviçais), surgiu do encantamento do diretor Tate Taylor pelo livro, que o remeteu à própria infância no Sul segregacionista do país. Assim como a autora Kathryn Stocklett, Taylor cresceu em Jackson, Mississippi, e teve uma empregada nos moldes de suas protagonistas.

 

Ovacionado por Oprah Winfrey na TV, livro mais vendido nos Estados Unidos em 2011 e, por mais de três anos, na lista dos mais vendidos do The New York Times. As credenciais da obra inflam as expectativas para o filme, que prefere manter um caráter intimista, de relações quase familiares.

 

 

Trata-se, então, de um filme de mulheres, e da noção de mundo delas. E as atrizes são, por sua vez, o grande trunfo do filme - não acaso, três delas foram indicadas ao Oscar. Uma simpática Emma Stone apresenta a narrativa no papel da jornalista novata Skeeter, que tem um plano de escrever um livro do ponto de vista das empregadas negras. Afinal, o que pensam essas mulheres que abdicam da criação dos próprios filhos para educar e amar bebês brancos que logo crescerão e se tornarão seus patrões?

 

Nas entrevistas de Skeeter, Emma Stone apresenta o show de interpretações que vêm a seguir. A começar pela protagonista Viola Davis, a Aibileen, empregada de nervos resignados e alma triste pela perda do filho, que cuida de uma bebê de cabelos loiríssimos rejeitada pela mãe, uma dona de casa submersa em frivolidades.

 

A melhor amiga de Aibileen é Minny, empregada corpulenta interpretada por uma hilária Octavia Spencer, grata surpresa no elenco, essa, sim, desbocada e atrevida. Minny paga seus pecados na casa da preconceituosa Sra. Hilly, uma intensa e caricata Bryce Dallas Howard (de A Dama na Água, de 2006), que prega manter criadas à distância e em banheiros separados do restante da casa da patroa. Desfalcada do círculo social, está Celia Foote - uma divertida e abobada Jessica Chastain, bem diferente de A Árvore da Vida - oposta à mentalidade dominante da cidade.

 

Numa grande ironia, é por meio das aspirações profissionais de uma garota branca que essas mulheres negras darão vazão a um fluxo de convivência marcada por injustiças. Nas histórias cruzadas dessas mulheres, tão íntimas no dia a dia e tão díspares em suas realidades, porém, há uma ternura embargada que se sobrepõe à opressão do Mississippi. Um sopro de esperança prevalece para guiar um tema que tinha tudo para ser desesperador em direção a um desfecho belo e gracioso. Digno de Oscar.

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