Coleção Videofilmes resgata Jean Rouch com "Eu, Um Negro"

Jean Rouch morreu em 2004, aos 87 anos. Em 1996, quando esteve no Brasil, para participar de um evento de cinema etnográfico no Rio e em São Paulo, ele concedeu duas humoradas entrevistas ao repórter do Estado. Era um velhinho simpático que dizia coisas inesperadas e até surpreendentes. Por exemplo - Rouch é considerado o pai do cinema-verdade, mas ele dizia que o rótulo não se aplica só ao documentário. A ficção, mesmo a hollywoodiana, quando é feita com sinceridade, é cinema-verdade. Rouch também admitia sua influência sobre a nouvelle-vague e o Cinema Novo, a partir do som direto que marcou sua atividade nos anos 60 - dizia que a contribuição do cinema etnográfico a ambos os movimentos foi o fato de mostrar que a ficção pode ser feita como documentário, com câmera na mão e captação de som direto. Rouch também dizia que o cinema, mais que arte ou indústria, é hobby. E concluía tudo isso afirmando que cinema-verdade e cinema-direto são só rótulos. O que ele buscava, sempre buscou, era o cinema-poesia.Grande Jean Rouch. Dublê de cineasta e etnógrafo, ele pode ser resgatado, agora, por meio de um importante lançamento da Coleção Videofilmes. Está saindo o disco digital com dois clássicos do autor - "Eu, Um Negro" e "Os Mestres Loucos", acrescido de extras como o documentário "Jean Rouch: Subvertendo Fronteiras", de Ana Lúcia M.C. Ferraz, Edgar Teodoro da Cunha, Paula Morgado e Renato Sztutman e o encarte com o texto que a ele dedicou o crítico e teórico André Bazin, justamente a partir de Os Mestres Loucos.Rouch fez a maioria de seus 120 filmes na África, onde chegou como engenheiro de estradas, após a 2.ª Guerra Mundial. Em 1937, na França, ele descobrira a Cinemateca de Henri Langlois e tornara-se cinéfilo. Chegou à África munido de uma câmera portátil. Começou a filmar, mas ainda não estava decidido a tornar-se cineasta. "Eu, Um Negro" e "La Pyramide Humaine", de 1958 e 59, estabeleceram sua fama. Foi quando ele conheceu o sociólogo Edgar Morin e juntos fizeram "Cronique d?un Été", em 1961. Morin propôs uma questão simples e intrigante a Rouch - disse que ele conhecia bem a África, mas não Paris, a cidade em que normalmente vivia. Ambos saíram então munidos de uma câmera, com microfone acoplado, para captar o som diretamente. Perguntavam às pessoas, naquela Paris deserta por causa do verão, qual a expectativa delas em relação à felicidade.Qual é a sua, neste mundo globalizado e conturbado (pós -11 de Setembro)? Na capa do DVD, há uma declaração esclarecedora de Jean Rouch: ?Coloco o cinema a serviço da liberdade de pensar e agir. Deve ser por isso que tantas vezes meus filmes causaram escândalo?. "Eu, Um Negro" foi filmado na Costa do Marfim, acompanhando um grupo de amigos que vivem de biscates. A pedido de Rouch, cada um criou para si um personagem, cuja história encenou. O diretor cuja fama está associada ao som direto, filmou sem som (o recurso ainda estava para ser desenvolvido por Michel Brault) e, mais tarde, os atores, personagens deles mesmos, recriaram em estúdio as falas que haviam improvisado. Os Mestres Loucos foi filmado em Gana, misturando religião e história. Em transe, os integrantes de uma seita personificam figuras do colonialismo inglês.Em ambos os casos, os documentários de Jean Rouch tratam do tema do duplo. Os personagens para os quais o diretor dirige sua câmera são eles e alguma coisa mais. Alguns documentaristas dizem que é sempre assim - diante da câmera, as pessoas criam outra identidade. No caso de Rouch, o procedimento é assumido. Este homem fez história no cinema. Como Robert Flaherty e Friedrich Wilhelm Murnau, quando fizeram Tabu, o cinema etnográfico de Jean Rouch tem o pé no real, mas incorpora a poesia, senão exatamente procedimentos ficcionais.

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