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Cluzaud e Perrin voltam a impressionar com deslumbrante 'Oceanos'

Há tempos não se via um filme sobre a vida aquática tão bom quanto o documentário, que estreia nesta sexta-feira

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

17 de dezembro de 2010 | 06h00

No Rio, em junho, o codiretor Jacques Cluzaud já havia dito ao repórter do Estado que gostava muito do que escrevera um crítico norte-americano sobre Oceanos - que o filme foi realizado e montado como uma ficção. No início, o filme, que estreia nesta sexta-feira em São Paulo, era mesmo para ser ficção, sobre um lendário dirigente do Greenpeace. O roteiro escrito era tradicional, com o tipo de personagens que se espera encontrar numa aventura submarina - o mergulhador, o pescador, o oceanógrafo, o poluidor. Enquanto o roteiro ainda estava sendo escrito, os dois Jacques - o outro, que também codirige, é o ator e produtor Jacques Perrin - começaram a captar as imagens. Elas eram tão deslumbrantes que se deram conta de que a parte ficcional empobrecia a documental. O próprio Perrin, numa entrevista por telefone, de Paris, explica que mudaram de rumo no meio do caminho. O resultado é, simultaneamente, um balé aquático e uma investigação científica sobre o oceano. Imperdível.

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Para o espectador que vai ver Oceanos sabendo que o documentário que estreia hoje é assinado por Jacques Cluzaud e Jacques Perrin, é quase inevitável ver o filme como desdobramento de outro que haviam feito antes, Migração Alada (2001). Depois do voo dos pássaros, por que não um mergulho nos mares? Numa entrevista por telefone, Perrin, ator, produtor e diretor, fala sobre a gênese do projeto e também sobre seu trabalho com grandes diretores, como Valerio Zurlini, Jacques Démy e Costa-Gavras.

Como surgiu o projeto de filmar Oceanos?

Foi logo depois de Migração Alada. Havia, no outro filme, esses momentos em que a câmera acompanhava os pássaros, voando sobre as nuvens ou mergulhando nelas. Nossos operadores ficavam num estado de euforia, como se compartilhassem a sensação de liberdade do voo. Fui marinheiro aos 18 anos e tinha essa vontade antiga de voltar ao fundo do mar, de retomar a experiência de O Mundo do Silêncio (de Jacques Yves Cousteau e Louis Malle, de 1956). Era natural que, de novo, compartilhasse a direção com meu amigo Cluzaud. Mas não sabíamos que filme fazer. Pensamos numa ficção e escolhemos como protagonista um dirigente do Greenpeace. Ocorreram duas coisas - o roteiro ainda estava sendo escrito quando começamos a captar as imagens e elas eram deslumbrantes. A parte ficcional nos dava a impressão de empobrecer a documentária. Também ficamos conhecendo o Census of Marine Life, um esforço colossal de recenseamento das espécies marítimas, realizado com a ajuda de pesquisadores de 80 países, com a previsão de terminar no fim deste ano, após uma década inteira de trabalho. Tudo isso nos deu um objetivo e um rumo, mas foi preciso montar equipes de cinegrafistas mergulhadores, aprimorar técnicas de captação de imagens e sons aquáticos. Foi uma longa e custosa operação, mas valeu a pena.

Foram quatro anos de filmagem ao redor do mundo. Quais os desafios que enfrentaram?

O primeiro desafio é sempre técnico. Tínhamos, não propriamente um roteiro, mas um plano de filmagem. Para responder às perguntas - o que é o oceano? Qual é o estado atual dos mares? Quais os prejuízos que a poluição causa à flora e à fauna marinhas? -, tínhamos de acompanhar ciclos migratórios, acompanhar a destruição e, talvez, o renascimento de certas áreas. Precisávamos de câmeras portáteis, resistentes à água e leves, porque é preciso considerar que o mergulhador, independentemente de ser cinegrafista, já leva o tubo de oxigênio.

A soma desse esforço é o bailado com o grande tubarão branco, mas a batalha dos caranguejos também é impressionante. Como foram feitas?

A batalha nos tomou mais de um ano. Acreditávamos que fosse parte da mitologia dos mares, mas recebemos uma fita cassete com imagens feitas por um operador de Melbourne. Isso nos levou a pesquisar na região, até que nosso mergulhador de Marselha, René Heuzey, descobriu esses milhões de caranguejos, que formavam quase uma montanha. O balé com o tubarão branco desmonta outro mito. Depois de (Steven) Spielberg, as pessoas se acostumaram a aplaudir quando um tubarão era morto na tela. Hoje, há mais consciência. O tubarão integra a cadeia da biodiversidade e cada vez mais pessoas sabem disso.

Adoraria ficar falando só de Oceanos, mas, como ator, você trabalhou com alguns dos maiores diretores. Estou pensando em Zurlini, principalmente...

Era muito jovem quando fizemos A Moça com a Valise e, depois, Dois Destinos (Cronaca Familiare). O sucesso do primeiro foi tão grande que me preparou mal para o segundo e Valerio me forçou à humildade. Disse que Marcello (Mastroianni) estava preocupado porque sentia que eu não ia conseguir passar a emoção do personagem. Eu, que estava me achando o máximo, tive de reaprender tudo de novo. É um dos filmes mais belos já feitos. Valerio impregnou Cronaca Familiare de seu amor pela pintura de (Giorgio) Morandi. Foi maravilhoso. Estamos restaurando outro clássico dele, O Deserto dos Tártaros, para devolver ao filme sua plenitude.

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