Clóvis Vieira produz mais um longa

Quem já ouviu falar do cineasta Clóvis Vieira? Cinéfilos mais nacionalistas e fãs de desenho animado, com certeza, se lembram do nome desse pioneiro diretor. Pena é que a grande maioria dos brasileiros desconhece o maior feito de Vieira, motivo de orgulho para a animação nacional. Ele foi o responsável pelo primeiro longa-metragem feito inteiramente em computação gráfica, Cassiopéia, uma aventura intergalática. Abafado pelo blockbuster Toy Story, do cineasta John Lasseter, que foi lançado antes do filme brasileiro, Vieira volta agora com o segundo filme feito em computador, chamado O Segredo de Galileo.A diferença é que, desta vez, os processos de produção e distribuição de Vieira terão um grande diferencial. Nesses tempos em que computação gráfica virou rotina na programação infantil das televisões, Galileo pretende ir ao extremo da virtualidade, ao ser desenhado e animado por diversos núcleos de computação gráfica pelo Brasil, que se comunicarão pela internet. "Estou mais experiente com os erros que cometi no primeiro filme e, agora, essa produção vai sair com mais tecnologia e menos dinheiro", diz Vieira - os recursos usados em Cassiopéia, entre 1992 e 1995, eram sustentados por PCs 486, que estão sendo substituídos por máquinas de última geração e softwares mais atuais. As novas ferramentas não serão providenciadas pelo diretor: os animadores que se cadastrarem no projeto usarão os próprios meios, certamente melhores que aqueles que ajudaram Vieira anos atrás. Com a queda de preço dos computadores pessoais a cada ano, são poucos os profissionais que não possuem, hoje, um Macintosh com programas de animação modernos. "Nos tempos de Cassiopéia cada micro custava US$ 5 mil, e a licença dos programas, mais US$ 8 mil", lembra o diretor.O Segredo de Galileo será sinônimo de interatividade. Acessando o www.cassiopeia.com.br, leigos, especialistas e outros interessados poderão ter acesso a informações variadas sobre a produção, desde roteiro e storyboard, até criações gráficas e outros detalhes.Além disso, "qualquer pessoa que tiver conhecimento na área pode participar do projeto, escolhendo uma das 1.300 cenas do longa para desenvolver no seu computador", esclarece Vieira, sem especular. Pois existem, confirmadas, seis instituições de ensino e pesquisa que devem cooperar com a produção, como a Faculdade Domus (São Paulo), a Universidade de São Paulo (por meio do professor Marcelo Tassara), a Universidade Federal da Paraíba (com o professor Alberto Lucena Júnior), e talvez até a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), no interior de São Paulo, tudo dirigido pelo cineasta por meio dos laboratórios do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac), de São Paulo.Mesmo quem não está ligado a instituições de ensino pode colaborar. "Outro dia, entrou em contato comigo um diretor de curtas que tinha um belo filme em computação gráfica. Gostei do seu trabalho e ele também aderiu ao projeto." Mas a divisão de trabalho com órgãos de ensino ainda é um dos aspectos mais interessantes, já que aulas de computação gráfica poderão ter uma aplicação real através da realização de um filme de verdade. "O professor Lucena, da Federal da Paraíba, deve conduzir sua tese de doutorado em cima do filme, com o tema Animação de Personagens dentro da Realidade Virtual."Vieira projeta a finalização de Galileo para daqui quatro anos. Com tantas colaborações, esse tempo pode ser reduzido. "Mas quero lidar com a hipótese mais pessimista", previne. Segundo o cineasta, 2001 será um ano quase que exclusivamente dedicado à padronização das técnicas que serão usadas pelos animadores, acompanhadas da implantação dos respectivos softwares.Espera-se produzir, ao fim de cada ano, 20 minutos de filme, que resultarão num total de 80 minutos. As ferramentas gráficas usadas hoje devem permitir o desenho de dimensões, texturas e cores muito melhores que as do filme anterior. O projeto ainda deve contar com o apoio dos Estúdios Mega para a cinescopagem em três formatos diferentes: Cinema 35 milímetros, HDTV e Digital.Na hora da distribuição, Vieira deve também abolir a ajuda de grandes empresas, como aconteceu no primeiro filme: "Primeiro, devo fazer distribuição independente, sozinho em São Paulo e por meio dos animadores pelo País, que levarão os rolos aos cinemas alternativos de suas cidades e negociarão a programação. Depois, pretendo disponibilizar o material digital pela Internet."

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.