Clint Eastwood é homenageado em Veneza

O Festival de Veneza, como costuma acontecer em sua abertura, foi dominado por astros e estrelas de Hollywood. Além de Clint Eastwood, que desembarcou no Lido acompanhado dos três mosqueteiros de sua viagem espacial Space Cowboys - James Garner, Tommy Lee Jones e Donald Sutherland -, veio também a musa Sharon Stone. "La Stone", como dizem os italianos, chegou, como diz a imprensa local, toda divina e vestida de branco.Acompanhada do maridão, o editor Phil Bronstein, Sharon veio à Itália para entregar a Clint o Leão de Ouro especial pela carreira, oferecido pelo Festival de Veneza. Também dos Estados Unidos, e causando frisson nas tietes italianas, chegou o ator Richard Gere, integrante do elenco de Doctor T. and the Women, de Robert Altman, que concorre na mostra competitiva.Concorridíssima, a entrevista coletiva que Clint Eastwood e seus atores concederam à imprensa mundial na manhã de hoje. Comportando-se como astros, e portanto acima de qualquer contingência humana, chegaram com regulamentares 40 minutos de atraso a uma sala lotada (e com temperatura africana) do Casino do Lido, transformado em quartel-general da imprensa que cobre o festival. Clint declarou aquilo que se esperava, ou seja, que tinha forte ligação com o cinema italiano, em especial por ter se tornado conhecido devido a seus trabalhos nos western-spaghetti dirigidos por Sergio Leone nos anos 60 - Por um Punhado de Dólares, Por Alguns Dólares a Mais e Três Homens em Conflito. Disse, sem citar nomes, que mantinha a admiração pelo cinema que se praticava na Itália. E que não era por acaso que, em uma cena de seu novo filme, buscava com seus olhos a Itália quando via a Terra do espaço.Clint Eastwood respondeu a várias perguntas sobre Space Cowboys, seu novo filme que foi escolhido para abrir solenemente o festival.Confirmou que havia certa auto-ironia no fato de os quatro veteranos (intepretados por ele próprio, Garner, Lee Jones e Sutherland) se comportarem como crianças crescidas em determinadas circunstâncias. "Acho que a a arte de interpretar nos remete sempre à infância; podemos continuar brincando mesmo depois de velhos e isso é o que, paradoxalmente, nos conserva jovens", disse.Comparado, pelo tipo de personagem que costuma interpretar, a John Wayne, Clint disse que, dos filmes interpretados por seu colega, seu favorito era Rastros de Ódio. "Nessa obra-prima de John Ford, Wayne interpreta um caubói racista, um personagem complexo, que destoa da imagem simplista que as pessoas tinham dele", diz Clint.Acusado de preferir papéis em filmes violentos, limitou-se a comentar: "A violência faz parte da condição humana e está presente na obra de arte desde o tempo das tragédias gregas; eu me limito a mostrar a sociedade humana, do jeito que ela é, não da maneira como gostaria que fosse", concluiu.Sobre seu filme Space Cowboys, que será lançado no Brasil pela Warner com o título de Caubóis do Espaço, se pode dizer que une os efeitos da mais alta tecnologia a um conteúdo e estilo de narrativa altamente convencionais. Clint é um antigo piloto de provas da Força Aérea Americana. Ele e seus parceiros formam um time da pesada, o Dédalus, que atua pouco antes do começo da era espacial. Arriscam a vida nos jatos que tentam quebrar a barreira do som e depois são preteridos quando começa a corrida espacial.O personagem de Clint também é engenheiro e bolou o sistema de transmissão de um satélite antediluviano. Quando outro satélite, mandado ao espaço em parceria com os russos, começa a dar problemas, a Nasa resolve chamá-lo de volta. Só ele conhece o sistema antigo e, portanto, é o único em condições de repará-lo. Para realizar a missão, Clint resolve reunir o antigo time, formado agora por velhinhos semi-aposentados. Um se tornou um vovô conquistador, outro sofre de câncer no pâncreas, um terceiro é engraçado e inofensivo. Todos parecem fora de forma.O tom da história oscila entre a comédia e o drama. Claro, há por trás de tudo o sempre eficiente tema da segunda chance, com os "velhinhos" tentando mostrar que ainda podem ser úteis à pátria. O filme deve ser visto mais por esse ângulo - o do tema "macho" da segunda chance, tantas vezes explorado pelo western - do que por uma hipotética defesa dos direitos profissionais da terceira idade. Aliás, uma jornalista fez uma pergunta nesse sentido durante a coletiva.Ela queria saber se o roteiro não era alusivo à própria condição dos atores que o interpretavam - ou seja, eles, exatamente como seus personagens, desejavam mostrar-se úteis e ativos numa sociedade que tem a juventude como valor supremo, abaixo apenas do dinheiro. Tommy Lee Jones tomou a palavra e respondeu, secamente, que ali ninguém precisava provar nada a ninguém. Curiosamente, foi aplaudido.Além do mais, Caubóis no Espaço é um claro diálogo com Os Eleitos, livro de Tom Wolfe adaptado para o cinema por Philip Kaufman. Wolfe também narra os primórdios da corrida espacial, quando pioneiros destemidos, como o piloto Chuck Yagger, foram substituídos por gente mais disciplinada e confiável. O contexto era o da guerra fria e a corrida espacial passou a ser o lugar simbólico em que se decidia a supremacia entre as superpotências. Clint retoma o tema e o despolitiza. Além do mote da segunda chance, recoloca a discussão sobre a individualidade versus o espírito de equipe ou a rivalidade versus o companheirismo.Temas comuns no sistema dual que preside o cinema norte-americano, desde o mito da conquista do Oeste. Por isso, apesar de certos momentos de inquietação, não se pode dizer que o filme seja surpreendente ou inesquecível. Admiradores de Clint Eastwood dizem que ele atingiu tal nível de perfeição que não consegue mais errar, mesmo que queira. Talvez não erre porque também não ouse tanto. Talvez por isso se possa definir a acolhida de Caubóis do Espaço nas sessões para jornalistas em Veneza como simpática, mas sem muito calor.

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