Clima de inverno e polêmica marca Festival do Rio

Foram vários dias de frio e chuva, como se o Rio, subitamente, tivesse se transformado em Campos do Jordão e o festival de cinema fosse, na verdade, o festival de inverno. Ontem, voltaram o sol, o céu azul e o calor. O Rio voltou a ser do jeito que os turistas e os próprios cariocas gostam. À noite, o festival vestiu-se de gala para um de seus eventos mais importantes. No Teatro Carlos Gomes, na Praça Tiradentes, às 8 da noite, o maestro Luis Gustavo Petri regeu a Orquestra Sinfônica Brasileira, na apresentação, com música ao vivo, da versão restaurada do clássico O Encouraçado Potemkin, de Sergei M. Eisenstein na mostra Tesouros da Cinemateca.Na véspera, o maestro havia concedido entrevista ao Estado. Contou que logo após a realização do filme, em 1925, o maestro e compositor alemão Meisel compôs uma partitura para o filme de Eisenstein. O cinema ainda era mudo, naquela época, mas os filmes tinham acompanhamento musical ao passar nas salas. Quando o filme foi lançado em vídeo, alguém - que o maestro não consegue identificar, porque o nome não ficou para a história - providenciou outra partitura, com trechos de obras de Shostakovich. ?Era muito bem feita?, ele define. Mas, quando a Cinemateca de Berlim restaurou a obra-prima de Eisenstein - um dos filmes mais influentes da história do cinema, graças, em especial, à célebre cena do massacre popular na escadaria de Odessa -, o compositor Helmut Imig adaptou a partitura de Meisel. Com a nova música (a original), Potemkin foi exibido no Festival de Berlim, em fevereiro, e agora no Rio.Cinéfilo de carteirinha, Petri, aos 43 anos, admite que teve ontem uma das maiores emoções de sua vida. ?Vou me lembrar para sempre.? O que mais o surpreendeu foi o capricho da partitura de Meisel, recriada por Imig. ?O acompanhamento musical ocorre sempre no tempo certo e com uma precisão exemplar, tanto mais interessante porque o compositor tinha de buscar a sincronia vendo o filme na moviola ou na tela, sem a ajuda de computador, como se faz hoje.? O filme, para ele, continua sendo um sonho de cinéfilo. ?Cada vez se descobrem coisas novas e não apenas na cena da escadaria. Os movimentos de massas, por exemplo, antecipam Akira Kurosawa. O próprio Eisenstein foi muito influenciado pela cultura japonesa.?Potemkin - os puristas dizem Potônkin - foi destaque de ontem do Festival do Rio 2005, mas a Premère Brasil também teve suas atrações. O novo documentário de Eduardo Coutinho, O Fim e o Princípio, marca uma nova etapa na evolução do grande diretor. Logo na abertura, dentro de uma van, o próprio Coutinho explica que escolheu, ao azar, uma cidadezinha do interior da Paraíba, partindo, sem pesquisa prévia, à descoberta do que as pessoas tinham para lhe dizer. E Coutinho acrescenta - escolheu aquele lugar só por causa de uma facilidade, digamos, técnica. Os guias de turismo indicavam que ali havia um bom hotel para hospedar a equipe reduzida. Ao chegar, sua primeira providência foi procurar a representante da Pastoral da Criança, convencido de que ela poderia lhe abrir todas as portas do lugar.Resultou outro belo documentário de Coutinho, naquela linha de entrevistas que é o seu forte. Ninguém sabe, como ele, ir ao fundo do que as pessoas, mesmo as mais simples, têm para dizer. E, mesmo que ele advirta que não existia nenhum tema pré-concebido, surge um tema dessas entrevistas. As pessoas falam de suas dificuldades, de família, de morte, mas o que mais impressiona (e emociona) é a saudade com que os velhos falam de sua ligação com a terra e do tempo em que trabalhavam. Muitos eram crianças ao partir para a lavoura, pela primeira vez. Uma velha lembra que tinha 5 anos. Não chora a infância perdida. Na realidade, não chora nada, porque as pessoas não se queixam. O que ela gostaria era de poder voltar a trabalhar. Coutinho fez o pré-Peões, sobre aqueles nordestinos que migraram para São Paulo e foram companheiros de Luiz Inácio Lula da Silva nas fábricas do ABC. Aqui, é a história dos que ficaram e dos que ainda estão. Coutinho não foge ao assunto de tudo o que está ocorrendo com o governo Lula - ?É uma tristeza?, resume.O outro filme muito esperado era Crime Delicado, de Beto Brant. Mais de 20 pessoas subiram ao palco com o diretor, que citou um a um pelo nome, acrescentando o que fez na produção. Na seqüência, Beto pediu que as pessoas fechassem os olhos e se entregassem - o filme é para ser visto com o coração. Toda essa mise-en-scène foi realmente bonita, mas aí veio o filme, sobre um crítico de teatro que reflete sobre os espetáculos a que assiste. Vida e teatro, o teatro da vida. O roteiro, adaptado pelo diretor (e Marçal Aquino) de um original de Sérgio Sant?Anna, cria cenas de palco e outras, nos bares da vida, que configuram o personagem interpretado por Marco Ricca como um espectador, um voyeur. Ele se envolve com uma mulher (Lilian Taublib), que não tem uma perna e serve de modelo para um artista plástico que pretende ser visceral.Parece que o tema de Beto vai ser o colapso da estrutura mental do crítico, esse homem que aspira à perfeição e fica obcecado pela mulher imperfeita. Walter Hugo Khouri, em Estranho Encontro, e Luis Buñuel, em Tristana, já falaram sobre a obsessão pela mutilação. Beto parte daí e o inusitado é que sua atriz realmente não possui uma perna, atirando-se ao papel com o despudor que ele exige. A trama evolui para um julgamento, quando Ricca é arrastado a juízo, acusado pela moça de estupro. Aí, Crime Delicado vira La Condana, de Marco Bellocchio. No fim, talvez seja o Freaks do cinema brasileiro, sem Tod Browning, menos pela moça e mais pelas deformidades morais que afligem os personagens do crítico e do artista. Crime Delicado presta-se a polêmica. Vai dar o que falar quando passar na mostra de São Paulo e, depois, ao estrear nos cinemas. Mas o desconcerto e o desconforto que o filme produz não vêm propriamente da ousadia. Tirando o coro dos amigos, ?O que deu no Beto?? era a frase que mais se ouvia no fim da sessão.

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