Claudia Schiffer rouba a cena em Veneza

A top model alemã Claudia Schiffer deu o toque de charme do dia ao Festival de Veneza. Ela que está no curta-metragem Sound, de Nicolas Roeg, badalou no Lido, deixou os fotógrafos em polvorosa e apareceu para a entrevista coletiva em companhia do diretor (autor do belo Inverno de Sangue em Veneza). No filme, Roeg trabalha e desconstrói a imagem de Claudia por meios eletrônicos. Há uma certa beleza e depois algum cansaço nesse trabalho ora cubista ora publicitário que procura, talvez, definir as linhas que fazem possível a existência de uma bela mulher. No fim, fica a impressão de um certo esquematismo formal. Roeg disse que procura trabalhar na dimensão do sonoro, da audição, sentido menos associado à sensualidade do que à visão. Nessa tensão entre som e imagem, busca a originalidade. O excesso de citações como se quisesse demonstrar uma tese sobre o pós-modernismo, atravanca um pouco a fluidez. Um tipo de beleza que se auto-anula pelo excesso.Se no curta de Roeg a beleza era o fundamental, nos longas o registro foi bem outro. Aridez e Desesperança em Freedom, do lituano Sharunas Bartas; violência bruta em La Virgen de los Sicarios, de Barbet Schoroeder. No primeiro são três pessoas, dois homens e uma mulher que estão em um barco de contrabando de drogas. Descobertos pela polícia, são perseguidos e conseguem escapar. Dão numa praia inóspita, onde ficam expostos ao sol, à fome, ao mar e ao sal. Às intempéries, enfim.Bartas parece artista econômico no uso de seus recursos. Câmera lenta, parada, à espera dos acontecimentos. Produz assim um filme estático, de belas imagens de praia selvagem, mas às vezes difícil de se assistir. Claro, há um trabalho interessante com o tempo - aquele mesmo que não passa para personagens à beira da morte. Dialogam pouco, exibem os lábios rachados pela salinidade, vão-se depauperando, num clima sufocante. O tema é o homem perdido na natureza hostil, tentando sobreviver e para isso tendo de competir com outro homem, ou talvez se associar a ele. No entanto, em Freedom, falha exatamente esse sentido de interação - positivo ou negativo - entre os personagens. Sobra o tédio. O deles e o nosso.Se o longa de Bartas é parado, o de Schroeder tem movimento até demais. Baseado no livro autobiográfico do romancista colombiano Fernando Vallejo (que veio a Veneza em companhia do diretor), La Virgen de los Sicarios narra a volta do personagem à sua terra natal, depois de longa ausência no exterior. O personagem, um homossexual de meia idade (interpretado por German Jaramillo), volta e reencontra uma Medellín devastada pela violência e pelo tráfico de drogas. Junta-se a um garoto de rua, Alexis, e os dois afundam numa trip sangrenta, contribuindo de forma zelosa para as estatísticas de homicídios na cidade.O filme não deixa de impressionar, em um primeiro momento. A crueza das cenas (filmadas em digital) relembram o que vem a ser a vida em uma cidade grande do mundo pobre, seja ela Medellín, São Paulo, Rio ou Calcutá. São relações de forças descontroladas, gangues de desocupados tomando as ruas, drogas, fome, violência, desespero, diante da população impotente. Em meio a tudo isso, o alter ego de Vallejo assume sua condição de niilista. Alguém que acha que não terá outra oportunidade sobre a Terra. Já viveu demais e deve morrer rapidamente.Daí sua falta de perspectiva e total ausência de confiança no futuro. Daí, também, seu anticlericalismo, radical e furioso, que provocou indignação em alguns espectadores italianos. Questionado sobre as ofensas à religião, Vallejo, na entrevista à imprensa, disse simplesmente: "O projeto de Deus para o mundo não deu certo." Nem o projeto comunista e nem o capitalista. Não há solução. Só ódio, tédio e desesperança. Esse filme duro, implacável, fica na memória, apesar de seus notórios problemas. Um deles, o mais visível: o excesso retórico do personagem principal, capaz de expor graves teorias sobre a falta de sentido para a existência enquanto tudo desmorona à sua volta. Pode ser assim mesmo que um intelectual reage quando sente que o solo lhe falta sob os pés. Mas soa inautêntico, de qualquer maneira.

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