Claude Miller filma dois mundos da cena francesa

É costume crítico trabalhar comfiliações e assim Claude Miller tem sido visto, com freqüência,como seguidor de François Truffaut. Sempre há uma perda nessetipo de árvore genealógica artística, pois Truffaut foi odiretor excepcional que Miller não é. Truffaut sabia que aelegância também pode ser selvagem, e essa arte do paradoxo nãoé acessível a todos. Mas não se pode negar a esse antigodiscípulo de Truffaut o gosto pela delicadeza e o tratamentosutil dos personagens. São qualidades que se vêem neste BettyFisher e Outras Histórias, que estréia amanhã em SãoPaulo.O enredo é tirado de um thriller de Ruth Rendell, TheTree of Hands, mas Miller o filtra segundo uma ótica maispreocupada com a subjetividade dos personagens do que com opotencial de suspense da trama.A personagem-título (vivida por Sandrine Kiberlain) teveinfância traumática, por conta de sua mãe, Margot (NicoleGarcia), que apresenta problemas de instabilidade emocional,para usar um eufemismo. Betty perde o filho em um acidente. Amãe vai visitá-la e resolve providenciar um substituto para ogaroto. Encontra-o na figura de um menino que não é exatamentebem tratado por sua mãe biológica, Carole (Mathilde Seigner). Acoisa evolui para um imbróglio policial.Mas não é bem o que interessa no filme, e sim o trabalhode Sandrine, fiel à fragilidade de sua situação. Mãe separada deum marido calhorda, confronta-se com a morte do filho único eagarra-se a qualquer perspectiva que tenha para devolver à suavida a felicidade perdida. Betty Fisher é uma escritora desucesso, mas emocionalmente parece pouco desenvolvida. O dramaem que foi metida parece abrir-lhe os olhos para algumasrealidades da vida.Esse talvez seja um dos aspectos mais interessantesdesse filme ágil, límpido, fácil de acompanhar. Betty evoluidentro da trama, mas o faz com sutileza e não à maneiraamericana, que procura marcar cada passo da curva dramática porum degrau inequívoco. Aqui tudo é na base do matiz.O outro fator de interesse vem da multiplicidade depontos de vista. Se acompanhamos Betty com atenção, não deixamosde ver as razões um tanto disparatadas de sua mãe, Margot. Mas o"outro lado" também fala, vive e pulsa. E não deixa de serencantador ver na tela uma atriz com tamanho magnetismo sensualcomo Mathilde Seigner. Ela tem vida própria, assim como seunamorado Luck Mervil (François Diembele) e um antigo amante, umpequeno bandido, pai provável do menino seqüestrado.Enfim, temos a oposição entre a burguesia bem pensante,representada por Betty Fisher, e uma certa periferia parisiense.Não é bem a marginália, mas gente, como Carole que vive nummundo limítrofe. É garçonete, mas eventualmente prostituta eespera a chegada de um cliente cheio da grana para aplicar umgolpe do baú.Essa fricção entre dois mundos poderia ser melhor seMiller tivesse mais senso documental. Preocupado com a limpezadas imagens, ele não leva a contradição até onde se poderiaesperar. E isso no próprio nível da linguagem do filme, cleandemais, evitando arestas, procurando sempre a forma maisagradável e palatável. Desta vez, o excesso de elegância chega aser quase prejudicial. Betty Fisher e Outras Históriaspoderia ter se beneficiado de uma certa impureza, de uma"sujeira" visual que sublinhasse o contraste entre os doisambientes sociais por onde a trama evolui.Rimbaud escreveu que por delicadeza havia perdido avida. Claude Miller não chega a tanto. Mas por amor à gentilezaele perdeu a chance de fazer um filme mais contundente, como ahistória que tinha em mãos merecia.Betty Fisher e Outras Histórias (Betty Fisher etAutres Histoires). Dir. Claude Miller. Fr-Can/2001. 101 min. 14anos.

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