Clássicos e revelações animam início da Mostra

Entre as atrações do fim de semana, um bom destaque é Brava Gente Brasileira, de Lúcia Murat, que pode ser considerado a boa surpresa nacional desta mostra. A diretora narra o encontro problemático entre "selvagens" e "civilizados" - para usar uma terminologia atual, embora sempre necessitada de aspas. Ou, pode-se dizer, fala da tensão entre colonizados e colonizadores, vocabulário mais próximo dos anos 60, mas nem por isso menos atual. Em particular, Lúcia encena um amor sem futuro entre um colonizador português e uma indiazinha de sangue nobre nas matas do Brasil do século 18. Completanto o quadro para esse caso de amor, há uma aventura movimentada pela cobiça de se encontrar uma mina de prata, alguma ação, e, sobretudo, uma maneira terna, feminina, paciente, de filmar a vida indígena. Lúcia evoca, de fato, um Brasil ainda virgem, inocente, mas selvagem e violento.Clássicos - Para quem preferir o já consagrado, as pedidas são várias. Desde o clássico de Alfred Hitchcock, Janela Indiscreta, até os primeiros títulos da Mostra Luis Buñuel, com filmes como O Anjo Exterminador, O Discreto Charme da Burguesia, La Ilusión Viaja en Tranvía, Subida al Cielo e Él.Janela Indiscreta é velho conhecido dos cinéfilos e chega agora com cópia restaurada. Ou seja, com cores totais e o encanto da história do fotógrafo vivido por James Stewart que, de molho por causa de uma perna quebrada, observa o prédio de apartamentos em frente. Descobre que um crime está prestes a ser cometido e tenta impedir que aconteça. Sua namorada é Grace Kelly e ela é quem age sob o comando de Stewart. Um clássico do voyeurismo, com o velho Hitch criando, não tanto a história de um crime, ou um suspense, mas um ensaio rebuscado sobre a arte de ver.Dos trabalhos de Buñuel em exibição, os destaques ficam para O Anjo Exterminador, Él e O Discreto Charme da Burguesia. No primeiro, uma das obras-primas do mestre do surrealismo, um grupo de ricaços fica preso numa sala sem que haja nenhum motivo aparente para que não saiam. A idéia é mostrar como, sob o verniz das convenções, os instintos básicos continuam mais ativos do que nunca. Quando chegam a fome e a sede, o grupo aristocrático irá se transformar radicalmente. Conta a lenda que Marilyn Monroe visitou o set de filmagem e não conseguia entender porque aquela situação não se resolvia com mais simplicidade. Nada mais estranho para a racionalidade narrativa de Hollywood, a que ela estava acostumada, que a lógica inconsciente usada por Buñuel.O Discreto Charme da Burguesia é parente próximo de O Anjo Exterminador e o elo entre os dois é exatamente essa lógica, que ultrapassa a razão. Em ambos, uma das obsessões de Buñuel - a paralisia, o ato irrealizado, a incapacidade de levar um projeto até o fim. Em O Anjo Exterminador, era a impossibilidade de sair de um aposento. Em O Discreto Charme a incapacidade de um grupo de burgueses de terminar uma refeição em paz. Mas é claro, essa chave, digamos, psicanalítica está a serviço de uma crítica permanente e mordaz da moral burguesa, esse alvo preferencial do cineasta. Él também tem sua interface psicanalítica, sendo um exame em profundidade do fenômeno do ciúme paranóico, que seduzia Jacques Lacan.Antes do Anoitecer, de Julien Schnabel, é um espécime curioso. Não se trata propriamente de um grande filme, mas também não lhe falta interesse. Schnabel é artista plástico e sua primeira tentativa no cinema foi com um docudrama sobre um colega, Basquiat. Agora retorna com este trabalho sobre a vida do escritor cubano Reinaldo Arenas, perseguido em seu país por ser homossexual. Um projeto sincero, ainda que um tanto convencional em sua feitura, mas com uma atuação iluminada do espanhol Javier Bardem, no melhor papel de sua carreira.É também hora de o público assistir a Palavra e Utopia, de Manoel de Oliveira, que abriu a mostra. Não se trata exatamente de uma biografia filmada da vida do padre Antônio Vieira, mas da transposição, para a tela, da substância mesma de seus sermões e cartas. Três atores - Ricardo Trepa, Luís Miguel Cintra e o brasileiro Lima Duarte - vivem o sacerdote em momentos diferentes da sua vida. Oliveira faz um cinema da palavra, respeitoso com o texto que tem em mãos. Não há subversão maior do que a deste artista veterano, dedicando-se a preservar a beleza da língua quando, aparentemente, ninguém mais se preocupa com isso.

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