Clássicos de Lee Thompson e Dmytryk saem em DVD

J. Lee Thompson e Edward Dmytryk não são exatamente diretores nota 10 (estão mais para 0), mas um e outro já tiveram certa importância. Ambos integram agora o novo pacote de lançamento de DVDs de clássicos da empresa Columbia. Thompson assina Os Canhões de Navarone, um dos filmes de aventuras mais populares do começo dos anos 60. Dmytryk é o diretor de Pelo Amor de Meu Amor. Só para deixar claro do que se trata, o título original do segundo é The End of the Affair e é uma adaptação do romance de Graham Greene. Matou a charada? Pelo Amor de Meu Amor é o primeiro Fim de Caso.Ambos, o filme de Dmytryk e o de Neil Jordan (com a admirável interpretação de Julianne Moore, indicada para o Oscar deste ano) contam a mesma história. Quer dizer, basicamente a mesma história. São bastante diferentes. Quem leu o livro sabe que a versão de Jordan, com todas as liberdades tomadas pelo diretor, capta a essência de Graham Greene - o embate entre o desejo carnal e a necessidade de elevação espiritual. Por amor a seu homem, a personagem de Julianne faz um pacto com Deus e paga o alto preço de renunciar a ele. Belo filme.Talvez não se possa dizer o mesmo de Pelo Amor de Meu Amor, mesmo que Deborah Kerr, que faz o papel de Julianne, tenha sido uma das grandes personalidades femininas do cinema dos anos 50, quando o filme de Dmytryk foi feito. Para citar só um exemplo, Deborah foi a protagonista, com Cary Grant, do clássico romântico Tarde Demais para Esquecer, de Leo McCarey, que fez correr um rio de lágrimas pelos cinemas de todo o mundo. Como em Fim de Caso, a protagonista é uma mulher casada que trai o marido com um escritor. Quando ela termina o caso, este último tenta descobrir o que ocorreu. Peter Cushing, o caçador de vampiros na série de terror da empresa britânica Hammer, por volta de 1960, é o marido na versão de Dmytryk, Van Johnson é o amante e não se pode deixar de dizer que a escolha deste último foi equivocada. Johnson não tem vigor nem physique du rôle para o papel. John Mills sai-se melhor como o detetive contratado para vigiar Deborah.Dmytryk é um dos casos mais interessantes de Hollywood no pós-guerra. Parecia um diretor promissor - e era encarado como tal pela crítica -, mas depois que aceitou colaborar com o macarthismo trilhou um caminho sinuoso. Enquanto Elia Kazan, por exemplo, que também delatou, passou a fazer filmes cada vez mais críticos (e melhores) sobre a sociedade americana, Dmytryk tornou-se progressivamente mais medíocre. Ainda fez um ou outro filme interessante (o western Minha Vontade É Lei, maravilhoso), mas foi totalmente cooptado por Hollywood. Como os de Kazan, no entanto, quase todos os seus filmes realizados depois do episódio do macarthismo tratam do tema da segunda chance, expressam uma vontade ou necessidade de renascer.Bronson - Thompson também parecia promissor, no começo de sua carreira, na Inglaterra, quando fez Uma Sombra em Sua Vida (The Woman in a Dressing Gown, com a genial Yvonne Mitchell, ou quando fez Marcados pelo Destino, o policial Tiger Bay, com John Mills e sua filha Hayley, que depois virou estrela da Disney em Hollywood. Thompson, anos mais tarde, virou homem de confiança de Charles Bronson numa série repulsiva de ação feita sob medida para ressaltar o desejo de matar do cara-de-pedra. Quando fez Os Canhões de Navarone, ainda suscitava alguma expectativa. O filme estourou nas bilheterias da época e foi considerado um drama de guerra da estirpe de A Ponte do Rio Kway, de David Lean. Não era, claro, mas virou objeto de culto.A história do comando enviado para destruir os canhões com que os nazistas dominam, desde a fortaleza de Navarone, a circulação naval no Mar Egeu, reúne um elenco de nomes famosos e alguns, muito bons - Gregory Peck, David Niven, Anthony Quinn e Irene Papas. A grande trágica grega fez, no mesmo ano, Electra a Vingadora, primeiro título de uma memorável trilogia de Michael Cacoyannis. E, com o diretor grego, além dos outros dois As Troianas e Ifigênia, ela fez também Zorba, o Grego, ao lado de Anthony Quinn. Mesmo que não seja particularmente brilhante como espetáculo de ação, Os Canhões de Navarone tem certa classe.Para tornar mais atraente o lançamento em DVD, o disco digital é enriquecido com um menu variado que inclui, além das tradicionais escolha de legendas e seleção de cenas, documentários de guerra, o depoimento do diretor Thompson, uma mensagem do produtor e roteirista Carl Foreman (uma das vítimas famosas do macarthismo), além de notas sobre o elenco, trailers e todos os extras a que o público tem direito.Os Canhões de Navarone - (The Guns of Navarone). EUA, 1961. Cor, 157 min. Pelo Amor de Meu Amor (The End of the Affair). Inglaterra, 1955. P&B, 106 min. Ambos DVDs da Columbia, R$ 35 a R$ 45 as lojas especializadas.

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