Clássicos de Fellini voltam à TV

Canal Arte1 exibe, a partir dessa sexta-feira, principais filmes do cineasta italiano

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

05 Setembro 2014 | 10h54

 Completam-se, em 31 de outubro, dez anos da morte de Federico Fellini e o canal Arte1 antecipa-se à data promovendo o evento Setembro Fellini. Durante todo o mês, e sempre às sextas-feiras, a partir das 21h30, será reprisado um clássico do grande autor italiano. A programação começa nesta sexta-feira, 5, com A Doce Vida e prossegue, pela ordem, com A Estrada da Vida (dia 12), Oito e Meio (19) e Julieta dos Espíritos (26). Não se deixe enganar pelo título. Em 1960, Fellini, como um visionário, antecipou as mudanças comportamentais que marcariam a década. Centrando seu relato na figura de um jornalista que frequenta o meio artístico e a alta sociedade, ele antecipou também o culto das celebridades. No futuro, dizia Andy Warhol, todo mundo terá direito a 15 minutos de fama. Fellini percebeu isso antes que o artista norte-americano. O júri de Cannes outorgou-lhe a Palma de Ouro.

Nove entre dez críticos - 11 entre dez - vão recorrer à biografia de Fellini para falar de

A Doce Vida. Ah, sim, o título. A vida daqueles burgueses não é doce. Eles têm a alma cporropídsa pelo vazio e, por isso, agitam-se em festas e numa busca desenfreada do prazer e do dinheiro que só aumenta a própria sensação de inutilidade. De cara, o filme abre-se com a estátua do Cristo que sobrevoa Roma, carregado no helicóptero. Ele paira sobre a cidade, urbi et orbe, mas não como uma benção. Marcello, o protagonista (Marcello Mastroianni), está mais interessado nas mulheres que tomam banho de saol na cobertura do prédio. E, à noite, a milionária Madalena (Anouk Aimée) e ele vão se excitar fazendo sexo na cama miserável da prostituta. Marcello Rubini não é Fellini, mas se é verdade que se pode ver o Moraldo de Os Boas Vidas, de 1953, como o Fellini jovem que foge da mediocridade asfixiante da vida na província, Marcello também tem algumas coisa do Fellini que foi jornalista ao chegar a Roma. E, mais tarde, no Setembro Fellini, Guido Anselmi, Marcello Mastroianni de novo, será o próprio Fellini em crise de criação em Oito e Meio.

Quando iniciou o projeto de A Doce Vida, Fellini imaginou-se fazendo o painel da decadência de Babilônia. Eterno garoto diante da força das mulheres, ele também nunca se libertou da influência castradora da educação religiosa. Os símbolos atravessam seu filme. Sílvia, a estrela de cinema - Anita Ekberg -, veste uma batina estilizada que, ao se abrir, desvenda suas formas voluptuosas. Ela é o próprio pecado, mas na cena emblemática do filme - na Fontana di Trevi -, Marcello segue Sílvia quando ela entra na fonte. Beijam-se debaixo d' água - um sonho de purificação? -, mas o beijo é interrompido quando a água para de jorrar e ambos ficam numa posição ridícula, observados à distância por um transeunte. A cena foi reproduzida por Ettore Scola em Nós Que nos Amávamos Tanto, de 1974, e inspirou o argentino Marcos Carnevale em Elsa e Fred, de 2005.

A água é um motivo recorrente no filme, até o desfecho na praia, quando Marcello não consegue entender o que lhe diz a garota. Ao não atender o chamado de Valeria Ciangottini (a pureza?), ele se condena ao inferno, é isso? Marcello também deixa de atender a outros chamados durante o filme. Em seu encontro com Steiner (Alain Cuny), o intelectual discute com ele questões existenciais. Expressa o vazio. É interessante como Fellini usa os objetos do cenário - e enquadra os dois - de forma a criar um arco para integrá-los (e protegê-los). Mas Marcello é superficial, não entende o que Steiner lhe propõe e o desespero do outro o leva a uma atitude radical. Todo o filme transpira angústia, não doçura. Sua estrutura é fragmentada, e Fellini, cada vez mais, fará seus filmes de forma descontínua. Para Roma, no começo dos anos 1970,. chegou a admitir. "Não tenho um plano (um roteiro?). Terminarei quando não tiver mais dinheiro."

Claro que não era verdade, mas toda obra de Fellini não deixa de ser também uma indagação sobre a veracidade da arte e a honestidade do artista. Ele próprio se definia como 'um grande mentiroso'. Talvez não fosse. Usava a mentira, como componente social na civilização da imagem, para tentar chegar à verdade. E era um barroco, outra característica que se foi acentuando a partir de A Doce Vida - em Oito e Meio, Julieta, Satyricon e Roma. Com o tempo, Fellini virou um gênero e seu nome passou a ser incorporado aos filmes. Fellini Casanova, Fellini Roma. A narrativa, os próprios personagens, tudo foi sendo substituído pela caricatura. Mas ele nunca deixou de buscar - e atingiu - a emoção. O funeral da cantora de E la Nave Va, de 1983, é um adeus (ao mundo, ao grande cinema). Pós-neorrealista, Fellini criou, como Michelangelo Antonioni, um neorrealismo interior (da pessoa). Sua evolução o levou a buscar novas formas (o falso documentário). Quando morreu, virara um misantropo - Ginger e Fred e A Voz da Lua expressam isso -, mas a fama era tanta que, do seu nome, criara-se um adjetivo, felliniano, para designar o maravilhoso do cinema.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.