Clássico 'Lawrence da Arábia' volta ao cinema

Filme que levou sete Oscars em 1963 está em exibição na Rede Cinemark nesta quarta-feira, 27

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

27 de agosto de 2014 | 10h36

Pense na entrada em cena de Silvana Mangano em Morte em Veneza. A mãe de Tadzio irrompe no Grand Salon do Hotel des Bains, no Lido, num impecável figurino de época – inspirado nas cores preferidas de Carla Erba, mãe do diretor Luchino Visconti – e emoldurada por vasos de lírios. A beleza é tanta que corta o fôlego do espectador. Silvana, um monumento de carnalidade – com aquelas coxas às mostra em Arroz Amargo, de Giuseppe de Santis –, tornou-se etérea, sublimando suas carnes, com os grandes autores gays de sua maturidade como atriz (Visconti e Pier-Paolo Pasolini). Cinéfilos poderão lembrar-se de outras entradas assim triunfais, mas como a de Omar Sharif em Lawrence da Arábia, não há.

O clássico de David Lean está de volta nas sessões dos clássicos do Cinemark (passa nesta quarta-feira, 27, às 19h30). Um monumento de cinema, vencedor de sete Oscars – entre eles filme, diretor (David Lean), roteiro (Robert Bolt e Michael Wilson) e fotografia (Freddie Young). Como se filma um enigma? T.E. Lawrence foi sempre um personagem misterioso. O autor de Os Sete Pilares da Sabedoria, por problemas de classe, teria permanecido obscuro na aristocrática sociedade inglesa. No deserto, tornou-se líder entre os homens. O filme dá vestígios de sua persona oculta – narcisista, gay reprimido etc. Ilumina-o, sem revelar tudo. O filme começa pelo fim. Um motociclista, um acidente, um funeral. Mas quem é esse Lawrence que está sendo enterrado com pompa e circunstância?

O filme, narrado em flash-back, faz a autópsia do mito. Da estrada para Londres, o cemitério e o Cairo. Thomas, o obscuro burocrata, olha por uma janela e vê passar o camelo. Sonha com o deserto. Acende aquele fósforo. A chama funde-se com o sol. A tela ampla descortina o deserto. É uma das transições mais famosas da história do cinema, mas o mais impressionante ainda está por vir. David Lean desafiou o diretor de fotografia Frederick Young. “Dê-me uma miragem. Não sei como se faz, mas consiga uma.” Lawrence e seu guia estão no deserto. Chegam a esse poço. Lá no fundo da tela – sempre o deserto – aparece um ponto. O plano é longo (na duração). O ponto transforma-se numa linha bruxuleante, numa forma. É Ali que avança pra a defesa de seu poço, protegendo-o de intrusos. A uma grande distância, ele dispara e mata o acompanhante. E chega, finalmente, metamorfoseado em Omar Sharif. Talvez seja – é? – a mais retumbante das entradas em cena do cinema.

Peter O’Toole era pouco mais que um principiante quando David Lean fez dele o seu Lawrence. Omar Sharif já era um ator conhecido no mundo árabe, mas não no Ocidente. Quando Lawrence da Arábia tomou de assalto os cinemas de todo o mundo – e a Academia de Hollywood –, Lean já havia vencido sua aposta. Tornaram-se grandes astros. Mitos. Em 1926, pressionado por credores, o próprio Lawrence tentara vender os direitos de seu livro, mas foi desaconselhado por um produtor, que lhe disse que seus Sete Pilares poderiam sustentar a sabedoria, mas não um bom filme. No ano seguinte, um diretor interessou-se, mas aí Lawrence não devia mais dinheiro e não estava mais interessado. O curioso é que o Lawrence de 1927 teria sido fotografado por um jovem – que foi o diretor de fotogrtafia de Lean, Frederick Young. Mais alguns anos e, em 1934, o prestigiado diretor e produtor inglês Alexander Korda anunciou que queria filmar a vida de Lawrence. Leslie Howard seria o ator, Lewis Milestone, o diretor. De novo T.E., Thomas Edward, não quis saber.

Após sua morte – em 1935 –, os direitos foram para seu irmão, que também vetou, por mais de 15 anos, as investidas dos produtores. No começo dos anos 1950, Harry Cohn, já poderoso na Columbia, entrou em campo. David Lean já estava interessado, mas só depois que Lean e o produtor Sam Spielgel receberam a chuva de Oscars de A Ponte do Rio Kwai, em 1957, foi que o projeto de Lawrence da Arábia começou a nascer. Com Rio Kwai, Lean já lograra o equilíbrio do épico com o intimista, mas foi com Lawrence que ele chegou ao topo. O grande mistério do filme não é a persona do biografado, mas como Lean usou o muito grande – a tela de 70 mm, o deserto – para mergulhar no interior de um homem que foi sempre indecifrável para os outros.

Conta a lenda que Lean fez Peter O’Toole vestir o figurino branco de Lawrence. Colocou-o no alto daquele vagão de trem, filmando-o contra o sol. Mas algo faltava para colocar na tela o gigantesco narcisismo do bastardo – era filho de um nobre com sua governanta. Uma adaga curva foi providenciada para compor o figurino. E foi um gesto instintivo de O’Toole que forneceu a Lean o que queria. No set , O’Toole sacou da adaga para se olhar no espelho da lâmina. “Clever boy”, Garoto inteligente, teria dito Lean. Na cena decisiva, após ser abusado pelo bei turco, El Aurens, como era chamado pelos árabes, vai banhar sua túnica branca de vermelho ao provocar um banho de sangue. É um homem que vive sempre em conflito. Externa sua violência, matando os outros, mas ela também se volta para dentro, e o destrói. Francis Ford Coppola, Martin Scorsese, Steven Spielberg. Todos amam Lawrence da Arábia e concordam que o filme de Lean é uma grande lição de cinema narrativo. Ao ser lançado, em 1962, o filme tinha 222 minutos de duração, mas as prints foram sendo cortadas e Lawrence chegou a perder 20 minutos, A versão oficial ficou em 216 minutos, mas a restauração digital – que está em cartaz – cravou a duração em 227 minutos, com direito a abertura/intervalo e desfecho sinfônicos (a trilha de Maurice Jarre também recebeu o Oscar, com a montagem e a direção de arte).

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