Clássico francês reestréia em SP

Nem Godard nem Truffaut. Nem Bresson nem Resnais. Nem Renoir nem Vigo. O melhor filme francês de todos os tempos não leva a assinatura de nenhum desses grandes diretores. Uma enquete realizada na França com críticos, diretores e historiadores apontou O Boulevard do Crime como a obra-prima do cinema francês. No original, o filme se chama Les Enfants du Paradis. Foi feito durante a ocupação do país pelos alemães. O Boulevard reestréia na terça-feira, em cópias novas. É o presente de Natal da distribuidora Pandora aos cinéfilos paulistanos. Mas, atenção: por considerar que um filme antigo, em preto-e-branco e com mais de três horas de duração, poderia cansar o público e até afugentá-lo dos cinemas, o dono da Pandora, o cineasta André Sturm, optou por exibi-lo em duas partes.Assim, nesta terça-feira reestréia a primeira parte de O Boulevard do Crime e, em janeiro, reestréia a segunda, a final. Chamam-se, respectivamente, Boulevard do Crime e O Homem Branco. Resistirá o clássico do diretor Marcel Carné a essa interrupção forçada? Sturm lembra que, nos anos 40, foi asssim que O Boulevard estreou na França, em duas partes. Só depois passou a ser exibido em versão integral, mesmo assim, com intervalo. Seja como for, com a volta do filme reacende-se a polêmica, uma das mais famosas do cinema. Quem é o autor de Cidadão Kane: o diretor Orson Welles ou o roteirista Herman Mankiewicz? Uma interrogação semelhante acompanha O Boulevard e todos os filmes que Carné fez com roteiro de Jacques Prévert: quem era o gênio dessa parceria? O diretor ou o roteirista?Foram vários filmes juntos e há os que são marcos da tendência definida como ´realismo poético´: Cais das Sombras Trágico Amanhecer e Os Visitantes da Noite. O último é uma lenda medieval que tenta provar, por meio do coração que bate no peito das estátuas, que o amor é mais forte que a morte. Mas a obra-prima da dupla é O Boulevard. Passa-se na Paris de Luís Felipe. O Boulevard do Templo é a área da cidade em que coabitam criminosos e atores. O mímico Baptiste Debureau ama a atriz Garrance, mas ela só tem olhos para o pretendente a ator Fréderic Lemaitre. É um filme sobre o fascínio do teatro e sobre uma mulher carnal que é idealizada por um homem frágil. Embutida na história está a origem dos mitos de Pierrô e Colombina. Com atores que fazem parte da história do cinema francês (Jean-Louis Barrault e Arlétty), O Boulevard é um monumento de arte, misturando literatura com diversos estilos de narração e interpretação. Apesar da fama, esse filme não é uma unanimidade. François Truffaut o achava um tédio e chamava Carné de esclerosado. Tinha certa razão, você vai ver.

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