Divulgação
Divulgação

Clássico do terror, 'O Exorcista' retorna aos cinemas do País

Longa pode ser visto neste sábado, domingo e quarta-feira

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

04 de abril de 2015 | 18h57

Nem Pinóquio, quando lhe cresceram as orelhas de burro, conseguiu passar uma tal impressão de bestialidade. Pelo contrário, o boneco de Collodi, que queria ser menino, exibiu toda a sua parvoíce. Parecia apalermado. Com Regan, é diferente. A garota possuída pelo Demônio de O Exorcista vomita uma bilis verde, cospe palavrões, masturba-se com o crucifixo, levita sobre o próprio leito e ainda fala com aquela voz terrível, cavernosa, a do demo, que o diretor William Friedkin retirou da atriz Mercedes McCambridge - 'The bitch is mine' (A cadela é minha).

O Exorcista está de volta, neste sábado, domingo e na próxima quarta-feira. Integra a programação dos Clássicos Cinemark. No começo dos anos 1970, quando a Warner anunciou sua decisão de produzir o filme adaptado do best seller de William Peter Blatty, o primeiro diretor chamado para comandar a operação foi Mike Nichols, que já trabalhara na casa em outra adaptação - Quem Tem Medo de Virginia Woolf?, baseado na peça de Edward Albee - e recebera o Oscar por A Primeira Noite de Um Homem/The Graduate. Nichols chegou a colaborar com o escritor no roteiro - e Blatty ganharia o Oscar -, mas desistiu porque, segundo ele, seria impossível encontrar uma garota que pudesse representar a possessão demoníaca de Regan. Em seu livro autobiográfico, Friedkin conta que também já estava quase desistindo - nenhuma garota lhe servia - quando surgiu Linda Blair. Cara de anjo, mas quando ela abriu a boca cuspiu todas as obscenidades que Regan deveria falar. 'Ela nem sabe o que está dizendo', pensou Nichols. Mas sabia, ele descobriu depois. A mãe, ao candidatá-la para o papel, não apenas instruiu a filha como lhe fez saber, detalhadamente, do que se tratava.

Antes e depois de O Exorcista, Friedkin fez filmes melhores que o baseado no livro de Blatty - que, a propósito, num registro totalmente diferente, participara com o diretor Bleke Edwards da elaboração do roteiro da comédia Um Tiro no Escuro, segunda aventura do desastrado Inspetor Clouseau. Por Operação França, ele ganhou o Oscar e mais tarde veio Bug/Possuídos, com aquele veterano de guerra atormentado porque sente, ou pensa, que vermes estão devorando seu cérebro. Friedkin sempre foi atraído pelos aspectos malignos da vida social. Fez filmes polêmicos como Parceiros da Noite/Cruising, com Al Pacino como policial que libera seu lado sombrio ao caçar um assassino que age na comunidade gay. Mas Friedkin nunca foi mais controverso nem fez mais sucesso de público do que com O Exorcista, que se tornou um dos filmes mais influentes de seu tempo.

O terror nunca mais foi o mesmo depois que Regan virou monstro frente às câmeras. Pobre Linda Blair. Ficou marcada pelo papel - como não ficaria? Nos anos 1940, o produtor Val Lewton fez escolas com filmes em que o terror era só sugerido. Nos 50, a empresa britânica Hamer avançou, introduzindo a cor e o sexo em suas fantasias sobre Drácula e Frankenstein. Em 1960, Alfred Hitchcock fez Psicose e a cena do assassinato de Marion Crane no chuveiro dividiu o cinema em antes e depois. Aquelas 70 posições de câmera para poucvpo mais de 40 segundos de filme provocaram uma revolução. Como ir além? Com o máximo de realismo e somando gosma, vômito, palavrões e orgasmo à saga da pobre Regan.

O mundo, em O Exorcista, está à beira do caos. Famílias implodem, grupos atacam nas ruas, a pobreza aumenta, os sem-teto são infinitos. Em 1973, a 'América' estava atolada na Guerra do Vietnã e toldava o horizonte o fantasma de uma crise moral que ia dividir os EUA - o escândalo de Watergate. Era o quadro perfeito para o Diabo dar as caras, e ele veio. Possessa, Regan mata o diretor do filme - de protesto - em que sua mãe, uma atriz, atua. O policial Lee J. Cobb investiga o crime. O padre Karras une-se a outro religioso, Merrin, para fazer o exorcismo. Karras é Jason Miller, Merrin, o bergmaniano Max Von Sydow. Karras está passando por grande provação. Sua mãe morreu porque ele não tinha dinheiro para pagar o tratamento médico. Ele perdeu a fé e, curiosamente, é a presença do Diabo que o convence da existência de Deus.

O velho embate do bem contra o mal. Muito interessante a ideia de Friedkin de refrigerar o quarto de Regan - o bafo que sai da boca das pessoas acentua o clima fantástico. Apesar do exorcismo, o Diabo resiste. É forte. Mas Karras também é, e o enfrenta e expulsa a socos. Mais que um filme, O Exorcista virou um fenômeno social da época. Passados mais de 40 anos, não perdeu nada da tensão, do mal-estar que provoca. Continua forte, um marco do seu gênero. É como tal que volta nos clássicos da rede Cinemark. Acredite, se você só viu em vídeo ou na TV. Na tela grande, é muito melhor.

SERVIÇO

As sessões de O Exorcista serão realizadas no sábado, 4, (às 23h55) domingo, 5, (às 12h) e quarta-feira, 8. (às 20h). Os ingressos podem ser comprados no site www.cinemark.com.br.

Tudo o que sabemos sobre:
O Exorcistacinema

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.