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Clássico do Dia: 'O Intrépido General Custer' desmontou mitos do faroeste

Todo dia um filme será destacado pelo crítico do 'Estadão'; Raoul Walsh desmontou a farsa histórica do general George Custer com sua cinebiografia

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Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

29 de maio de 2020 | 08h00

Por volta de 1940, Errol Flynn disputava com James Cagney o posto de maior atração de bilheteria da Warner. Flynn, o good guy; Cagney, o bad. O interessante é que, na vida, Flynn aprontava muito mais que o outro, cujos personagens violentos eram coisa de cinema. Flynn estava completando um ciclo de oito filmes com Michael Curtiz, mas não aguentava mais o criticismo do diretor, com quem vivia às turras. Em 1941, iniciou outra parceria de sete filmes com Raoul Walsh, incluindo três obras-primas que marcaram a década - O Intrépido General Custer, O Ídolo do Público e Por Um Punhado de Bravos. Um western, um filme de boxe, um de guerra. Pode-se radiografar a Hollywood da época – o cinema de gênero e o de estúdio – só a partir da parceria de Walsh e Flynn.

Sempre haverá alguém para contestar, mas nenhum é melhor que sua cinebiografia do General Custer. Em 1941, quando Walsh fez They Died with Their Boots On, título original, George Armstrong Custer ainda era considerado um herói da conquista do Oeste. Como outras figuras lendárias – o xerife Wyatt Earp -, os anos e décadas seguintes foram decisivos no desmonte de farsas históricas gravadas a ferro e fogo no inconsciente coletivo. Custer foi pintado posteriormente como um celerado e um sanguinário matador de índios, notadamente por Arthur Penn em Pequeno Grande Homem, de 1970. Como peça de ficção sobre um herói sonhado, O Intrépido General Custer é um dos melhores filmes de Hollywood. Um clássico.

Mark Twain definiu o herói como o cara, nos livros, que faz o que outros homens não fazem e casa-se com a mocinha. E Nathaniel Hawthorne acrescentou que há uma realidade do romance que se situa num espaço acima de nossas cabeças, e não no chão que pisamos. Poderiam estar falando de O Intrépido General Custer. Antes de mais nada, é precido contar como as coisas se passavam naquela época. Thomas Ripley escreveu o livro que WillIam Randolph Hearst - o Cidadão Kane real – recomendou a seu amigo, Jack Warner. O livro não obteve aprovação do estúdio, mas Warner gostou do título e comprou os direitos. Encomendou uma história a seu departamento de roteiros. Inicialmente, seria um veículo para Cagney, dirigido por Curtiz e com Joan Fontaine como a mocinha. Cagney declinou e Flynn topou. Como estava brigado com Curtiz, sugeriu Walsh, que já conhecia superficialmente. O principal papel feminino foi para a irmã de Joan, Olivia de Havilland, e seria o oitavo – e último - filme dela com Flynn.

Havia alguma coisa entre ambos, que terminou definitivamente nesse filme. Talvez seja o que dê um caráter tão especial às cenas dos dois. Na trama de Walsh, o jovem Custer, na contramão da história real, é um defensor dos índios. Morre por eles. Na véspera da batalha de Little Big Horn, em que tombou com seus comandados do 7. Regimento de Cavalaria, diz a seu amigo inglês, Butler, que os peles-verrmelhas são os verdadeiros americanos. True americans – o conceito voltaria no último Walsh, de 1964. Em Um Clarim ao Longe, o tenente Matt Hazard/Troy Donahue também faz de tudo para preservar o território dos índios. Walsh começa o filme com a chegada de Custer a West Point em garboso uniforme copiado de um oficial de Napoleão. Será, durante todo o curso, um aluno medíocre, mas audaz cavaleiro. (Walsh também adorava os cavalos. Possuía um estábulo, talvez viesse daí sua identificação com o personagem.)

Custer se envolve com a personagem de Olivia. Graças a um erro de nomeação, vê-se à frente da Brigada de Michigan e derrota os confederados numa importante batalha. Seguem-se novas vitórias, mostradas em rápida montagem. Com o fim da Guerra Civil, Custer fica sem cargo. Por influência da mulher, torna-se tenente-coronel do recém-formado 7.º Regimento e é enviado para Fort Lincoln, em Dakota, ao território dos índios. Denuncia a violação do tratado com os peles-vermelhas para beneficiar colonos que avançavam sobre suas terras (e direitos). Acirra as denúncias e vira persona non grata de todos – do presidente aos comandados. Tenta evitar a guerra contra os índios, fracassa. Na véspera da batalha decisiva, e sabendo que morrerá com seu rregimento, despede-se da mulher. Segundo a biógrafa de Walsh, Marilyn Ann Moss, o diretor não estava satisfeito com a cena no roteiro de Wally Kline e Aeneas MacKenzie e chamou uma mulher que fazia trabalhos avulsos no estúdio, Lenore Coffee, para lhe dar um toque mais delicado.

A reescrita pode ter ajudado, mas é a forma de filmar, e o elenco, que fazem da cena uma das mais belas já filmadas. A câmera avança com Flynn em direção a Olivia. Ele faz um gesto galante e diz, cerimoniosamente, tratando-a como 'madame', que foi um privilégio amá-la e viver a seu lado. A câmera está colocada atrás do ombro de Flynn, na altura dos olhos. Ele se vira, sai de cena e Olivia, expressando a intensa emoção da mulher de Custer, tem um desfalecimento, e cai ao solo. Depois da batalha, e de luto, ela consegue, com a carta que ele lhe deixou – pressionando o presidente, o Congresso e a opinião pública -, restabelecer o tratado com os índios. O Custer ficcional carrega para o campo de batalha o especulador interpretado por Arthur Kennedy. Diz-lhe que o dinheiro é efêmero, a glória é eterna. O final é uma evocação de Custer à frente de seus cavalarianos. Marcial, mitificado. Custer com certeza não foi o herói pintado por Walsh, mas terá sido o militarista covarde de Richard Mulligan no Arthur Penn, feito no auge da Guerra do Vietnã por um dos autores reconhecidamrente mais críticos contra o establishment militar e político da 'América'? De concreto, sabe-se que, ao morrer, estava prestes a enfrentar uma corte-marcial, por suas denúncias que estavam sendo vistas como insubordinação. Resolver o imbróglio com os índios era fundamental para seu projeto de se candidatar a presidente.

Retrato do herói quando jovem. Custer impressiona Olivia. Ele tem o péssimo hábito de mastigar cebolinhas cruas. Ela finge que adora, para espanto de sua mucama, interpretada pela mesma Hattie McDaniel que recebera o Oscar de coadjuvante pela Mummy de ...E o Vento Levou, no ano precedente. A curva dramática faz do jovem imaturo e insolente um homem maduro, cada vez mais grave, sombrio e decepcionado com a corrupçãso e a politicalha que contamina o tratamento da questão do índio. Custer ruma para a morte com a certeza de quem está disposto a sacrificar a própria vida por uma causa, e esse é o desenho do herói, capaz de se sacrificar por um bem maior. O mitólogo e professor de religião comparada Joseph Campbell terminaria a década de 1940 lançando o Herói de Mil Faces, em que aborda a construção do herói – das sociedades arcaicas à moderna. Poderia ter conceituado o livro só a partir desse filme.

Walsh teve uma trajetória que o tornou lendário entre os grandes diretores que vieram do cinema mudo. Conheceu Pancho Villa no México, foi ator de David W. Griffith – o assassino de Lincoln em O Nascimento de Uma Nação, de 1915. Perdeu o olho direito num acidente de carro, durante a filmagem, em 1928, e passou a usar venda. No seu círculo, era o 'one-eyed bandit'. Da fase do teatro guardou a capacidade de dirigir atores e o conhecimento da obra de Shakespeare, que impregna seu romance La Colère des Justes, de 1972, escrito depois que se aposentou como diretor. Teria dado um grande filme walshiano. Seu cinema de ação tem abertura para mulheres de comportamento libertário, que muitas vezes desafiavam os códigos de Hollywood. Sua trilogia com Dolores Del Rio – Os Amores de Carmen, Sangue por Glória e The Red Dance, nos anos 1920 – foi o canto do cisne de um cinema dionisíaco, antes que a censura da indústria instituísse o 'código'. A trama do terceiro beira o absurdo. Uma dançarina pobre ama o príncipe herdeiro, a quem só vê de longe. A revolução comunista o bane do trono e ela pode, enfim, dar vazão a seu amor.

Walsh celebrou Mae West como A Sereia do Alasca, nos anos 1930, e legitimou o desejo feminino por meio de Ida Lupino em Meu Único Amor, de 1946. Dez anos mais tarde, fez de Jane Russell 'a descarada' de The Revolt of Mamie Stover, que monta um bordel em Pearl Harbor e fatura alto com a soldadama. Embora limitado pela censura, o foco da personagem, pelo diretor, é bem ousado. Ao contrário de John Ford, que cultivava as mães, nunca houve muito espaço para elas na obra de Walsh. A mais significativa está longe de ser redentora e é uma das criminosas mais sinistras que passaram pela tela. James Cagney faz um gângster psicótico em Fúria Sanguinária, de 1949. Como Code Jarrett, é um produto da degeneração de sua mãe, que o impulsiona a ser quem é (e a subir naquela torre para gritar – “Veja, ,mãe. Sou rei do mundo.”) 'Ma' Jarrett/Margaret Wycherly só encontrou uma sucessora à altura na Bloody Mamma de Roger Corman, que Shelley Winters interpretou em Os Cinco de Chicago, 20 anos mais tarde.

Olivia De Havilland é magnífica como Elizabeth Bacon Custer. Durante toda a vida essa atriz cultivada teve de lutar contra o clichê da boa esposa para dar força a personagens que poderiam ser só sombras. Considerando-se que a heroicização de Custer, além de ter respaldo na realidade da época, serve a um propósito estético, o aspecto mais polêmico do filme, 80 anos depois, talvez seja a personagem de McDaniel, Callie. Mummy e ela pertencem a um tempo em que a representação do negro, na tela, era marcada pelo preconceito. Anos mais tarde – em 1957 -,Walsh fez o que não deixa de ter sido o anti-...E o Vento Levou. A escrava livre Yvonne De Carlo, de Meu Pecado Foi Nascer/Band of Angels, marcou a tentativa do diretor de se libertar do estereótipo da negra submissa, criando uma mulher empoderada e à frente do seu tempo.

Esse destempero do diretor produziu um diálogo que vale lembrar. Em O Ídolo do Público, de 1942, o lutador Jim Corbett, conhecido como Gentleman Jim, considera-se predestinado (como Custer). Errol Flynn é genial. Ao identificar no antagonista, Sullivan/Ward Bond, o próprio limite, ele desce do pedestal e diz - “Não sou um gentleman.” E a mocinha, Alexis Smith - “Eu também não sou uma lady.” Podem, então, se entregar ao hedonismo, que era o que interessava a Walsh. Se não conseguiu ir mais longe, ele foi, mesmo assim, um transgressor. Morreu em 31 de dezembro de 1980, aos 93 anos.

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