Clássico do crítico francês de cinema André Bazin ganha reedição

Com acréscimo de 9 artigos inéditos em português, 'O que é o cinema?', publicado recentemente pela Cosac Naify, investiga a essência da arte

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

03 de agosto de 2014 | 07h00

É de André Bazin (1918-1958) a frase famosa sobre a crítica de cinema: “A função do crítico não é trazer numa bandeja de prata uma verdade que não existe, mas prolongar o máximo possível, na inteligência e na sensibilidade dos que o leem, o impacto da obra de arte”. 

Muito além da crítica haicai e autossuficiente, da resenha de bonequinhos e estrelinhas, do texto ralo e rapidamente valorativo, a prosa de Bazin procura entender a estrutura e a essência da obra cinematográfica. Foi, como dele disse François Truffaut, um divisor de águas na crítica de cinema. Antes, diz Truffaut, os críticos se limitavam a contar o enredo dos filmes; Bazin passou a olhar para o modo como eles eram feitos e como expressavam a visão de mundo do diretor. Por isso, é de particular importância a reedição, com acréscimo de nove artigos inéditos em português do Brasil, do seu clássico O Que É o Cinema?, pela Cosac Naify.

Bazin teve enorme influência não só sobre a crítica, mas sobre o cinema francês e internacional em sua época. Com Jacques Doniol Volcroze e Lo Duca fundou em 1951 a revista Cahiers du Cinéma, a chamada “bíblia dos cinéfilos”, como diz a expressão clichê.

Apadrinhou toda uma geração de jovens críticos, como François Truffaut, Jean-Luc Godard, Claude Chabrol, Eric Rohmer (este não tão jovem) e Jacques Rivette, que viriam a formar o núcleo duro da chamada nouvelle vague na virada dos anos 1950 para os 1960.

Morto precocemente, aos 40 anos, Bazin não teve oportunidade de fruir os frutos que semeou. Morreu antes do sucesso de estreia de Truffaut com Os Incompreendidos, ou de Godard com Acossado. Foi-se antes de outro turning point do cinema mundial como Hiroshima, Mon Amour, de Alain Resnais. De certa forma, não chegou a ver filmes que ele próprio preconizara e antecipara em seus artigos.

Crítico militante, isto é, ocupado menos com a reflexão histórica e mais com o cinema seu contemporâneo, que lhe exigia intervenção no dia a dia, Bazin não deixou uma obra sistemática, algum tratado completo ou coisa do tipo. O Que É o Cinema? compõe-se de artigos de dimensões variadas, a maior parte lançados pelo autor em diversos veículos, como jornais e revistas especializadas. Participou da organização dos três primeiros volumes de Qu’Est-ce Que le Cinéma?, pelas Éditions Du Cerf. O quarto, após sua morte, foi editado por Jacques Rivette. No total, a série trazia 64 artigos. Em 1975, a própria Cerf lançou uma seleta desses artigos, em volume único, com 27 textos. Essa última obra, compacta, é a que foi traduzida em português e aqui lançada com o título de O Que É o Cinema? pela Editora Brasiliense em 1991, há muito esgotada.

O volume que agora chega às livrarias traz em seu apêndice um artigo inédito, Bazin no Brasil, do professor Ismail Xavier, que também assina o prefácio. De Bazin aparecem no volume os textos só agora traduzidos: O Mito de Stalin no Cinema Soviético, Why We Fight, Entomologia da Pin-up, Jean Gabin e Seu Destino, Morte de Humphrey Bogart, Due Soldi di Speranza, De Sica e Rossellini, Sedução da Carne e A Profunda Originalidade dos Vitelloni. Eles se somam aos da edição de 1981, alguns deles já tidos como clássicos, fundamentais para a reflexão estética do cinema contemporâneo. São os casos de Ontologia da Imagem Fotográfica, Montagem Proibida, A Evolução da Imagem Cinematográfica e O Western ou o Cinema Americano por Excelência, entre outros.

Cada um desses ensaios mereceria uma resenha em separado. Na impossibilidade, cabe destacar que os “novos” textos permitem entrever um Bazin talvez menos teórico e mais próximo aos aspectos mais visíveis do mundo do cinema, mas nem por isso menos acurado. Por exemplo, em suas reflexões sobre atores, como o francês Jean Gabin e o norte-americano Humphrey Bogart, que acabara de falecer.

Nesses “perfis” nota-se quanto pode ser enriquecedora a percepção de um crítico de cinema quando aplicada a personas cinematográficas mais em evidência, como são os grandes atores. Do “durão” Bogart, ele diz ter ficado intrigado em como se podia admirá-lo, para além do caráter dos seus personagens. Tanto os moralmente ambivalentes detetives de Relíquia Macabra (Sam Spade) e À Beira do Abismo (Philip Marlowe) como o patife indefensável de O Tesouro de Sierra Madre são dignos de interesse. E por quê? Em tom de interrogação (mais do que de certeza), Bazin reflete: “... Nossa simpatia (a Bogart) se dirigia, para além das biografias imaginárias e das virtudes morais ou ausência delas, para alguma sabedoria mais profunda, para certa maneira de aceitar a condição humana que pode ser compartilhada tanto pelo canalha quanto pelo homem honesto, tanto pelo fracassado como pelo herói?”.

Pelo trecho, pode-se notar outra característica do texto de Bazin, razão adicional de sua permanência, além da profundidade de análise – a clareza de estilo, a ausência de jargão, a densidade que não se ostenta, porque vivida e assimilada por um espírito de fato inovador e habituado à meditação. Ao lermos os escritos de Bazin temos exemplo de uma vocação de ensaísta, à maneira do seu conterrâneo Michel de Montaigne. Menos um sistema fechado e teses prontas que uma lúcida e trabalhosa caminhada em terreno tão fértil quanto desconhecido.

Conexão. Por fim, cabe dizer que são múltiplas as conexões de Bazin com o Brasil, como escreve Ismail Xavier em seu posfácio. Suas ideias começaram a ser debatidas por aqui através dos críticos intelectuais que escreviam na influente Revista de Cinema, de Belo Horizonte. (Por sinal, está sendo publicada uma preciosa seleta de artigos desta revista, que teve papel fundamental na reflexão brasileira sobre o cinema.) Bazin tinha muito a dizer sobre as questões cinematográficas mais urgentes da época, como o legado do neorrealismo e sua influência no cinema contemporâneo, tendo a questão do realismo como eixo fundamental na discussão do cinema do após-guerra. Direta ou indiretamente, essas discussões estão na origem da revolução do Cinema Novo, para a maioria dos críticos o período mais importante da história do cinema brasileiro.

Houve também a aproximação entre Bazin e Paulo Emilio Salles Gomes, o nosso crítico maior. Como se sabe, Paulo Emilio, morando em Paris, escrevera, em francês, uma obra pioneira sobre o cineasta Jean Vigo, e também sobre seu pai, o anarquista Almereyda (há uma ótima edição dessas obras pela Cosac Naify, acompanhada dos DVDs com a pequena, porém fundamental, filmografia de Vigo). Bazin leu a obra e escreveu um artigo elogioso no France-Observateur sobre o livro. Cabe lembrar que, até que Paulo Emilio o elegesse a objeto de estudo, Vigo era relegado a condição secundária pela crítica francesa.

A convite de Paulo Emilio, Bazin esteve no Brasil para o Festival de Cinema de São Paulo, e escreveu dois artigos sobre a visita. Um, fazendo a crônica do festival, outro, bem mais ameno, contando suas peripécias para levar à Europa um papagaio que comprara como souvenir do país tropical.

Anedotas à parte, a reedição com acréscimos da obra de Bazin é particularmente bem-vinda neste momento em que a carência de reflexão sobre o cinema se faz sentir de modo particular, tanto no Brasil como em outros países. Produz-se muito cinema e pensa-se pouco sobre ele.

E, quando quem realiza ou quem escreve pensa pouco sobre o que faz, é o cinema que sai perdendo.

O QUE É O CINEMA?

Autor: André Bazin

Tradução: Eloisa Araújo Ribeiro

Editora: Cosac Naify (416 págs., R$ 49,90)

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