Ique Esteves
Ique Esteves

Clássico de Nelson Rodrigues, 'Boca de Ouro' chega aos cinemas

Dirigido por Daniel Filho, filme tem Marcos Palmeira, Malu Mader e Guilherme Fontes no elenco

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

12 de novembro de 2020 | 05h00

Nelson Rodrigues, ele tira de letra. Daniel Filho tinha 25 anos – nasceu em 1937 – quando fez Boca de Ouro, com direção de Nelson Pereira dos Santos. Quase 60 anos depois, ele volta a Nelson e ao Boca, agora como diretor. Marcos Palmeira é quem faz o papel. Daniel conta que sua geração era fascinada por Nelson – “Jece Valadão, Hugo Carvana, Ivan Cândido. Para nós, os jovens, ele era o nosso Shakespeare pela grandiosidade do texto, da dramaturgia. Nelson expunha as misérias da classe média. Mas o outro Nelson (o Pereira dos Santos) não o admirava como pessoa. Foi algo que parecia improvável. O encontro do comunista com o grande reacionário.”

Boca de Ouro – a morte do bicheiro retratada de três diferentes pontos de vista, segundo as narrativas de Guigui, a ex-amante que alterna os relatos com seus estados emocionais. “Norma Bengell seria a Guigui, mas aí houve o sucesso de O Pagador de Promessas, ela foi filmar na Europa e a Odete Lara a substituiu.” Malu Mader é a nova Guigui. Boca de Ouro – “O nosso Rashomon!”, define Daniel, citando o filme clássico de Akira Kurosawa, de 1950. Boca de Ouro foi filmado há dois anos, em 2018. Foi feito rapidamente, com economia de tempo e dinheiro, uma produção da Lereby, de Daniel, com a Globo. O diretor fez valer seu método do “take one”. A menos que houvesse algum problema técnico, as cenas – os planos – eram filmadas uma única vez. “Não sei de você”, Daniel comenta para o repórter, “mas eu, quando leio Fernando Pessoa, tenho de imitar o sotaque português. Com o Nelson (Rodrigues), ocorre uma coisa parecida. O texto do Nelson, tem aquele carioquês muito forte. Para servir ao texto, isso tem de aparecer no trabalho dos atores. Trabalhei com um elenco muito bom, e alguns deles já tinham feito A Vida Como Ela É comigo, na televisão.”

A Vida Como Ela É era o nome da coluna que Nelson Rodrigues mantinha no jornal Última Hora, no Rio. Cenas da vida cotidiana. Euclydes Marinho fez a série com Daniel e agora assina o roteiro do filme. Os diálogos estão ali, taco no taco. 

Cinema e teatro

Como se desteatraliza no cinema um grande texto? Daniel explica que foi na contramão. “Na verdade, teatralizei as cenas de morte, que são essenciais na trama.” A cada um seu Nelson. O Pereira dos Santos foi realista, Daniel busca a coloquialidade do texto para jogar a tragédia na cara do espectador. Entre ambos, houve uma versão fraca de Walter Avancini com Tarcísio Meira. Grandes diretores de teatro também reinventaram Boca de Ouro no palco. Zé Celso Martinez Corrêa, no Oficina, foi dionisíaco e Gabriel Villela, tropicalista.

Onde andava Daniel Filho? Nos últimos meses, como todo mundo que não necessita do auxílio emergencial, ele tem se mantido isolado. Resguarda-se da pandemia, trabalha. Aos 83 anos, integra o grupo de risco. Parou de ver o noticiário na TV. “A ignorância tomou conta deste País”, lamenta. “E não só do Brasil. Olha o absurdo dos EUA com o (Donald) Trump. Sou de um tempo, você também, em que as pessoas até podiam ser de direita, mas ninguém admitia em público. Agora é esse exibicionismo maluco. Tem candidato na eleição de domingo que briga para ver quem está mais à direita da direita. E se orgulham disso!” Como ator e diretor – de TV e cinema –, a trajetória de Daniel acumula uma impressionante sucessão de sucessos. Nem por isso sua vida é menos difícil que a de muitos diretores brasileiros.

“Quando comecei a discutir a exibição do Boca de Ouro, me ofereciam uma sessão às 4h da tarde, ou às 6h. O cinema brasileiro é estranho no próprio mercado, todo mundo sabe. Batalhei muito para que o Boca tivesse uma vida decente na tela.” O filme estreia nesta quinta, 12, em salas e depois vai para o streaming, que parece ser o destino de todo filme na pandemia. Além do Boca, Daniel tem pronto outro filme que deve encerrar o Cine Ceará, de 5 a 11 de dezembro, integrando a homenagem do festival ao ator Lázaro Ramos, que receberá o troféu Eusélio Oliveira. Trata-se de uma adaptação do escritor Luiz Alfredo Garcia-Roza, o mestre da narrativa literária policial no Brasil, que morreu em abril.

Silêncio da Chuva, o livro é de 1996, narra a primeira aventura do inspetor Espinoza. Um homem é encontrado morto na direção de seu carro. Quem o matou, e por quê? Como nas mortes do Boca de Ouro, a morte é essencial na trama e leva um desfecho com violência e abuso. Thalita Carauta e Cláudia Abreu também estão no elenco e o Cine Ceará ocorrerá de maneira remota no Canal Brasil, no serviço de streaming Canais Globo, mas com direito a algumas sessões presenciais em Fortaleza. 

Lázaro é ator e também diretor num terceiro filme ao qual o nome de Daniel Filho está ligado. Daniel produz Medida Provisória, o longa de estreia de Lázaro como diretor, um projeto que já vinha sendo gestado há oito anos.

Medida Provisória ainda não tem data para estrear. Por enquanto, a prioridade é Boca de Ouro – que Daniel define, para fechar, como “uma excelente história de paixão e poder”.

 

Tudo o que sabemos sobre:
Nelson RodriguescinemaDaniel Filho

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.