Clássico de John Ford sai em DVD

Embora tenha nascido no Maine (em 1895, justamente o ano em que surgiu oficialmente o cinema), John Ford foi o mais irlandês dos cineastas americanos. Nunca foi mais ligado a essa Irlanda mítica que alimentou alguns de seus melhores trabalhos do que em Depois do Vendaval. O filme de 1952 valeu ao grande diretor seu quarto Oscar de direção, após os de O Delator (em 1935), Vinhas da Ira (1940) e Como Era Verde o Meu Vale (1941). Só por um deles, o último, Ford e seus produtores receberam também o de melhor filme. Nos demais, foi sempre derrotado na categoria: por O Grande Motim, em 1935, Rebecca, a Mulher Inesquecível, em 1940, e O Maior Espetáculo da Terra, em 1952.Depois do Vendaval está nas locadoras e lojas especializadas, num lançamento em DVD da New Line. Para a importância da obra, esse lançamento deixa um pouco a desejar. Oferece, como extras, apenas trailer, biografia e seleção de fotos. Poderia trazer muito mais. Afinal, é uma das obras-primas de John Ford e esse é um daqueles cineastas a quem você pode, tranqüilamente, rotular de "essencial". Ford costuma ser chamado de Homero de Hollywood. Fez filmes de guerra, mas é meio difícil descobrir neles a sua Ilíada. Em compensação, não há nada mais fordiano do que as odisséias de grupos - índios, pioneiros - que percorrem sua obra.Se a odisséia foi o tema primeiro de Ford, outra preocupação do artista foi sempre mostrar o preço que se paga para construir uma civilização. O conceito de nação é muito importante em sua obra - valendo citar a lição de democracia que é um dos mais belos momentos de outra obra-prima, O Homem Que Matou o Facínora, de 1962, quando Ford, depois de haver lançado os fundamentos e elevado o western à condição de uma das mais belas artes, antecipou-se na amostragem de sua decadência e morte, pela via da desmistificação, que seria dominante naquela década. Até em relação com esse outro tema - a construção do conceito de nacionalidade - são muitos os filmes de Ford que reconstituem, com amorosa atenção, a vida de comunidades primitivas.Pode ser que a Tombstone real não tenha sido como aquela que ele mostrou em Paixão dos Fortes, o sublime My Darling Clementine, de 1946, quando contou a história do tiroteio do OK Corral como afirmava havê-la ouvido do próprio Wyatt Earp. Mais tarde, descobriu-se - após o célebre artigo em Life - que Earp não havia sido nada daquilo que Ford mostrou. Surgiram diversos filmes para acabar com o mito do herói, mas que não acabaram com o mito de Paixão dos Fortes como um dos grandes filmes do autor. O curioso é que o maior filme de Ford, aquele que vale colocar no altar das grandes obras-primas do cinema, não narra a odisséia de um grupo e sim a de um individualista. É Rastros de Ódio, o genial The Searchers, de 1956, centrado na figura de Ethan Edwards e sua busca incansável da sobrinha que foi seqüestrada pelos índios.Rastros de Ódio pode ser, e é, o maior Ford, mas Depois do Vendaval está ali grudadinho, no mesmo patamar. E, desta vez, não se trata de um western, mas de uma Irlanda meio de sonho, cujas tradições e virtudes o diretor celebra na cidadezinha de Innisfree. É onde chega Sean Thornton, interpretado, como Ethan Edwards, pelo mais fordiano dos atores, John Wayne. Ele chega fugitivo da cidade, onde - um flash-back nos revela - foi pugilista e matou um homem no ringue. Thornton tenta fugir a essa lembrança. Decide estabelecer-se na velha casa, em ruínas, de sua família. Precisa de uma mulher e aí entra em cena a mais fordiana das atrizes, Maureen O?Hara, com sua sexualidade que Ford definia como "franca e sadia".Dote - Maureen, que se chama Mary Kate Danaher, quer casar-se com esse estranho, mas quer também o seu dote - que o brutamontes, seu irmão, recusa-se a dar. O marido não quer saber do dinheiro, mas ela se recusa a consumar o casamento sem seu dote. A situação evolui para o que Thornton não quer: o confronto com Danaher. O filme termina com uma briga a socos que é um dos grandes momentos do cinema. Quer dizer: não termina aí. O que vem depois celebra uma certa concepção idílica do homem e do mundo, segundo Ford, que se reconcilia totalmente com a Irlanda de seus antepassados.Tudo, neste filme, é maravilhoso - a fotografia (de Winton C. Hoch e Archie Sout), a música (de Victor Young), a direção de arte, os cenários, as interpretações. Não apenas John Wayne e Maureen O?Hara eram atores fordianos típicos. O brutamontes é Victor McLaglen, que ganhou O Oscar por O Delator e, depois, passeou como bruto de bom coração por outros filmes do mestre. Mas há outras figuras que você não vai esquecer: Barry Fitzgerald, Mildred Natwick, Ward Bond (outro ator 100% fordiano). Acima de tudo, o que encanta é a história de Depois do Vendaval, perfeita como evocação do mundo mítico e que remete, como um de seus momentos máximos, a um cinema "clássico" que não seria mais o mesmo após as transformações dos anos 1960.Um momento: Thornton entra na velha casa dos pais. Encontra Mary Kate, por quem se sentiu atraído, logo ao chegar a Innisfree. Ela tenta fugir, o vento ondula sua cabeleira ruiva - o filme chama-se Depois do Vendaval, não? Big John, pois agora já é o ator, também lendário, que pega Maureen em seus braços, dá-lhe "aquele" beijo de sugar até a alma, ela fraqueja, mas como moça distinta reage e lhe aplica um tapa sonoro na cara. O vento, o beijo, a bofetada compõem o momento talvez mais famoso de Depois do Vendaval. É uma cena tão emblemática - por mais que a palavra esteja em desuso - que foi recriada por Steven Spielberg em E.T., de 1982, quando o alienígena fica de pileque em casa e o garotinho, Elliott, reproduz com uma colega a imagem que o outro vê na televisão. Esse é um daqueles filmes que se pode tomar como referência, mas que não se fazem mais. O cinema mudou, Depois do Vendaval permanece. É um filme "perene". Você já pode começar a pensar nele como alternativa de presente de Natal para aquele ou aquela que você gosta muito. Se for cinéfilo ou cinéfila, então, será perfeito.Depois do Vendaval (The Quiet Man). EUA, 1952. Direção de John Ford, com John Wayne e Maureen O?Hara. DVD da New Line, nas lojas por R$ 34,80.

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