Aline Arruda/Divulgação
Aline Arruda/Divulgação

Clássico da 'Coleção Vaga-Lume', 'O Escaravelho do Diabo' muda no cinema para permanecer fiel ao livro

Diretor e ator, Carlo Milani e Marcos Caruso, refletem sobre o longa

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

14 Abril 2016 | 04h00

Há pelo menos uns sete anos, o diretor Carlo Milani contactou o ator Marcos Caruso para dizer que estava adaptando O Escaravelho do Diabo e queria que ele interpretasse o inspetor Pimentel, criado pela escritora Lúcia Machado de Almeida. O que Milani não disse a Caruso é o que agora o repórter lhe revela - há bem mais que dez anos (13), Milani sonhava com o filme. E, desde que começou a construir o seu Escaravelho, Pimentel era um só, seu pai, o ator Francisco Milani. Seria a homenagem de um filho à arte de seu pai. Francisco morreu em 2005, Carlo continuou com o sonho e recorreu a Caruso, mas nunca lhe disse. Contou ao repórter. Caruso emociona-se - “Quanta responsabilidade!”

Foi melhor assim. O Escaravelho do Diabo, que estreia nesta quinta, 14, em 350 salas, é uma dupla raridade, quase um óvni. Mesmo diretores talentosos como Jeferson De têm tropeçado na tentativa de fazer cinema de gênero no País. Nesta quinta, também estreia Sinfonia da Necrópole, de Juliana Rojas, mistura de filme de morto-vivo com musical que tem seus defensores ardorosos, mas não agradou particularmente ao repórter. Pelo contrário, O Escaravelho é um ótimo suspense - sobre o assassinato de ruivos - e, ao gênero, Carlo Milani soma a outra raridade - é um filme infantojuvenil, segmento no qual a produção nacional anda carente.

Milani fez seu filme todo certo, mas a verdade é que a história ajuda, e muito. E aqui entra a contribuição da escritora, que não chegou a ver o filme pronto - como o pai de Carlo Milani também não. O Escaravelho do Diabo é um dos títulos mais famosos - não apenas de Lúcia Machado de Almeida, mas da Coleção Vaga-Lume. Como a lendária Terramarear, da Editora Melhoramentos, com seus Tarzans, a Coleção Vaga-Lume formou o imaginário de toda uma geração de jovens leitores. “Eu nunca li, mas meu filho, que hoje é cineasta, adora O Escaravelho (o livro)”, anuncia Caruso. O diretor Carlo Milani assume que fez mudanças. “É uma releitura do original e, nesse caso, tem sempre questões de adaptação, que são obrigatórias quando se transpõe o meio. A gente quer contemplar os leitores, mas tem de atingir o público ao qual se remete. Para isso, era interessante mudar o protagonista, ser um menino e não um estudante de medicina.” Dar uma cara ao inspetor Pimentel foi outro risco. “Adaptar é fazer escolhas”, avalia o diretor. A essência está na tela, o suspense é bom. Vamos? Aos cinemas, leitores. E, ah, sim, desta quinta, 14, a domingo, 17, ruivos pagam meia-entrada para assistir ao filme no Belas Artes. 

Carlo Milani, diretor de O Escaravelho do Diabo, sabe do risco que corre ao fazer mudanças na adaptação de um livro cultuado. Desde sua publicação, em capítulos, na revista O Cruzeiro, no fim de 1953, e depois como livro, em 1974, o clássico da Coleção Vaga-Lume já chegou à 28.ª edição. Gerações de leitores conhecem a trama, os personagens. Cada um terá seu inspetor Pimentel na cabeça. Apesar disso, Milani está otimista. “As sessões que já fizemos apontam para uma receptividade alta. E eu tenho quatro filhos, uma escadinha entre 25 e 4 anos. Eles gostaram e tenho a impressão de que não foi só para agradar ao pai.” Marcos Caruso, que faz Pimentel, está louco para ver a reação do filho. “Ele foi um leitor ávido do Escaravelho. Caetano (Caruso) está numa praia filmando uma série da Disney sobre campeonato de surfe.”

Aos 64 anos, que completou em fevereiro, e uma extensa carreira no teatro, cinema e televisão, Caruso admite que todo ator tem seus vícios, suas muletas para facilitar o trabalho. Contracenar com jovens - como Thiago Rosseti, que faz Alberto, o protagonista de O Escaravelho - “obriga a gente a se renovar. Eles não têm vícios. Desarmam a gente com sua espontaneidade”, reflete. Caruso conversa com o repórter do set de gravações de Chapa Quente. Como - ele já está gravando de novo? Mal saiu de uma novela - A Regra do Jogo - e já emenda uma série? “Graças a Deus!” Marcos Caruso, seu nome é trabalho? Ele ri - “O papel (no ‘Chapa Quente’) é bom. Faço o pai da Ingrid Guimarães, um político.” Ele fica no ar, gravando, até junho - são 18 episódios - e volta ao teatro em julho.

“Vou fazer meu primeiro monólogo. É o texto de um francês, que faz sucesso em Paris. Aborda o mercado de arte contemporânea.” O repórter aproveita para observar que assistiu a alguns capítulos de A Regra do Jogo, mas achou a nova associação de João Emanuel Carneiro com a diretora Amora Mautner - de Avenida Brasil - decepcionante. A exceção era o núcleo familiar de Marcos Caruso. Ele parecia estar tendo grande prazer em fazer o papel. “E tinha”, confessa, “mas o núcleo não se integrava muito na novela. Poderia ser levado para outra (novela)”, ele observa. De volta a O Escaravelho do Diabo, diz - “É sempre um risco criar um personagem que só existia no imaginário dos leitores. Cada um tinha o seu inspetor Pimentel, ao qual agora estou dando forma.” Marcos Caruso mal pode esperar pelo veredicto de seu filho.

Na trama do filme, o irmão mais velho de Alberto é assassinado depois de receber uma caixa com um escaravelho. O encarregado do crime é o inspetor Pimentel, que está sofrendo da síndrome de Levy - parente do mal de Alzheimer - e é afastado do caso. Alberto investiga e descobre o padrão que liga outros crimes cometidos na cidade. Alguém está matando os ruivos - quem e por quê? De uma cajadada, o diretor Milani mistura com eficiência o gênero de suspense, pouco presente na produção brasileira, e o filme para plateias infantojuvenis. “Não temos essa tradição e até por isso foi muito interessante de fazer. O personagem vive numa montanha-russa de emoção e só isso fornece ferramentas para o meu trabalho de ator, mas também há essa união de gêneros na mesma cesta, e, aí, fica mais estimulante ainda”, reflete Caruso. Comove o ator saber que o diretor, embora nunca lhe tenha dito isso, o chamou para substituir seu pai, o ator Francisco Milani, que morreu antes que o projeto saísse do papel.

O próprio Milani lamenta que a escritora Lúcia Machado de Almeida, que também morreu em 2005 - no mesmo ano de seu pai -, não tenha vivido para ver sua versão do Escaravelho. Aproveita para agradecer à família da autora. “Não interferiram em nada.” Diretor experiente de TV - novelas, BBB -, Carlo preparou-se para encarar o desafio do filme. Admite que o potencial comercial da empresa esteve sempre na mira. “A ideia visava ao mercado, na medida em que o próprio culto ao livro já potencializava o interesse pela transposição para outra mídia. Visando ao nosso público (infantojuvenil), deslocamos o protagonista, que passou a ser o irmão mais jovem e não o estudante de medicina. Também fizemos outras mudanças, que o leitor do livro vai identificar facilmente. A cantora de ópera virou pop, essas coisas.”

Milani conseguiu reunir um ótimo elenco - além do estreante Thiago Rosseti e do veterano Marcos Caruso, estão em cena Jonas Bloch, Selma Egrei, Lourenço Mutarelli. O garoto é ótimo, Caruso, idem, mas Mutarelli é um caso à parte. Como sabem os espectadores que o viram em O Cheiro do Ralo, Natimorto e Que Horas Ela Volta?, a especialidade do escritor é roubar a cena. E não é que ele o faz - de novo?

 

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